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Opinião
Quarta - 04 de Agosto de 2010 às 00:33
Por: Gabriel Novis Neves

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O dia 31 de Julho de 1964 marcou o meu retorno à Cuiabá após 12 anos no Rio de Janeiro. Fui para o Rio levando na minha mala de papelão algumas roupas e muita esperança. Tentaria o difícil vestibular para a Faculdade Nacional de Medicina. A famosa Medicina da Praia Vermelha, logomarca de excelência no Ensino Médico. Passei no vestibular, me formei, fiz estágios em hospitais, e quando me senti pronto para o exercício da profissão, voltei.

Voltei para Cuiabá com a minha Regininha, naquela época com 20 anos, e a Mônica no útero materno com 35 semanas. Deixei a mala de papelão no Rio. Agora na mala nova estava trazendo muitos sonhos e desafios.

Regininha, minha saudosa mulher, era nobre de nascimento e sentimentos. Era argentina - brasileira. Possuía uma educação sofisticada, requintada, com grande vivência urbana. Eu sabia que nos primeiros dias em Cuiabá, todo cuidado seria necessário para evitar o choque de culturas. Longe de mim, entretanto imaginar que esse choque aconteceria na nossa primeira noite em Cuiabá.

Regininha preparou-se para dormir. Nossa casa era muito modesta. Não tínhamos ar refrigerado. O calor impiedoso. Deitado na cama observo-a rezar. Algumas lágrimas discretamente escorrem pelo seu rosto. Sugiro que durmamos com as janelas abertas. Ela apaga a luz, me abraça forte e me beija. Considero-me um vencedor na condução da nossa chegada. Amanhã seria outro dia, e outros cuidados estavam planejados para a sua adaptação.

A escuridão toma conta do nosso quarto em companhia do silêncio. Notei que a Regininha estava com dificuldade de dormir. Era mais que natural. Fingi que dormia. Logo o silêncio do quarto é quebrado com um estranho barulho. Regininha imediatamente senta-se na cama e acende a luz. Com extremo pavor pergunta-me o que estava acontecendo. Levanto-me da cama para procurar o motivo (sabia que era de um inseto). Ansiosamente ela cobrava-me pelo esclarecimento. Encontro o motivo.

Digo que não é nada, apenas uma barata voadora que tinha entrado em nosso quarto. Assustada, olhos arregalados, choramingando, trêmula, demonstrando muito sofrimento, pergunta-me meio incrédula: “Aqui barata voa?” Com tranquilidade terapêutica respondi que sim. O choro torna-se incontrolável. Veio então o diálogo maior da nossa vida! “Regininha – falei com todo carinho - nós não mexemos nas malas. O avião que nos trouxe do Rio está no Aeroporto e vai decolar para o Rio às seis horas da manhã.” Ela escuta quieta e não diz nada. Pergunto-lhe então se queria voltar. Iria com ela. Neste momento Regininha toma a decisão definitiva: “eu fico aqui com você. Vou me acostumar.”

No dia 07 de Setembro nasce a Mônica. Depois o Ricardo e o Fernando. Tres filhos cuiabanos por decisão dela. A barata voadora foi a nossa grande recepcionista em Cuiabá, e acho que a grande responsável pela família que formamos em terras cuiabanas. Isto porque, depois de uma barata voadora, o que mais poderia assustar a minha Regininha?

Hoje a minha corajosa esposa dorme o sono eterno em Cuiabá. Partiu cedo a minha Regininha! Mas, com toda certeza, está acompanhando, observando e protegendo sua filha, seus filhos, neto e netas cuiabanos.

Obrigado barata voadora.


* GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT



Autor

Gabriel Novis Neves

foi o primeiro reitor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT); é médico gineco (ginecologista e obstetra)

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