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Opinião
Terça - 12 de Junho de 2012 às 18:14
Por: Lourembergue Alves

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“O político faz política 24 horas por dia”. Esta é uma frase corriqueira. Ouvida e dita, inclusive, por quem não ocupa cargo eletivo e/ou não vive da ou para a dita atividade. Ninguém, entretanto, procurou saber até que ponto ela, a frase, é verdadeira. O que demandaria uma discussão entre especialistas, estudiosos e palpiteiros. Poderia incluir neste grupo-debate os profissionais da política – justamente aqueles que são e só pensam nos ganhos que terão e têm, mas não gostam de ser tidos como tal. Preferem ser chamados pelo cargo que ocupam, ou que um dia chegou a ocupar, como se o prefixo “ex”, com hífen, não tivesse o sentido que tem.

Quadro contraditório. Bem mais do que de fato aparenta. O parecer, aliás, está sempre presente no espetáculo da política que, a exemplo, do teatro, seus atores não sobrevivem sem a aprovação ou a desaprovação dos expectadores. Acontece, no entanto, que a maioria destes permanece presa a aparência. Por isso, entretanto, ignora a importância da reflexão e do exercício da avaliação - próprias não somente dos críticos da arte de uma forma geral, mas também do cidadão. Este, ao contrário do simples expectador, não contenta com as imagens que lhe são “vendidas”, nem do pronunciar de “belas palavras” – se é que se pode ouvi-las, apesar do vazio do plenário. Nem faz às vezes de torcedor, pois este, diferentemente daquele, mantém-se tão somente na arquibancada. Embora o viver hoje requeira o agente participativo, cônscio de seu real papel, que vai muito além do aplauso e do oba-oba. Daí o estar atento a tudo que ocorre no tablado, na política, a qual, infelizmente, foi totalmente descaracterizada, a ponto de perder o seu sentido original. Tanto que Aristóteles, caso estivesse por aqui, seria forçado a desdizer tudo que um dia ousou afirmar a respeito da “ciência das ciências”, e isso levaria seus leitores e seguidores a esquecerem o que leram do “estagirita”. 

 Nada, curiosamente, dizem do que foi feito da política que, há muito, foi colocada como um negócio. Essa transformação, por si só, coloca em xeque o fato de que “o político faz política 24 horas por dia”. A ponto por que não se vê cenas de esgrimas? Por que a persuasão substituiu o convencer? São tantos “porquês”, cujas digitações tomariam um espaço superior ao desta coluna. Por conta disso, as dúvidas se sucedem. Fazem o povo concluir que seus anseios e necessidades ficaram em um plano secundário. Não era para menos. Pois o verbo dialogar foi trocado pelo barganhar, e este ora reveza com a sua forma antiga, a negociata. 
 
A negociata está presente em todos os momentos da vida pública. Aparece no instante em que antecede as convenções partidárias, toma corpo na hora em que selam as alianças, os acordos e os casamentos políticos, e permanece importante nas costuras políticas para a composição do secretariado, do ministério, e até nas substituições dos parlamentares, que são deslocados ou para o Executivo ou saem para as licenças fajutas. Pois sempre tem um agregado ou apadrinhado para acomodar. 
 
Acomodam-se os que são próximos, enquanto o grosso da sociedade fica “a ver navios”. Daí a descrença, e não sem razão, no resultado da política – atividade que, cotidianamente, é tocada ou norteada pela negociata, e não pelo confronto de idéias, de propostas e de leituras diferenciadas. E ainda se diz que o político, o atual, está “ligado 24 horas”. “É só rindo mesmo”.         

        
Lourembergue Alves é professor universitário e articulista de A Gazeta, escrevendo neste espaço às terças-feiras, sextas-feiras e aos domingos. E-mail: Lou.alves@uol.com.br.  


Autor

Lourembergue Alves

LOUREMBERGUE ALVES é professor universitário e articulista

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