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Opinião
Terça - 30 de Março de 2010 às 09:34
Por: Lourembergue Alves

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Era sexta-feira, às onze horas do dia 26 do corrente. No vídeo, o senhor Blairo Maggi fazia um balanço de sua administração. Iniciativa elogiável, e o horário bem a calhar, pois, em tese, a família se encontra reunida em volta da mesa ou esparramada no sofá, de olho na televisão. Definitivamente, não se tratava de um dia comum, daqueles em que o aparelho televisivo estaria ligado ou no “Cadeia Neles”, ou nos “esportes”, ou no telejornal. O telespectador, ao contrário, estava fixo na figura do governador, e em tudo que ele dizia. Programação longe de ser caracterizada como de entretenimento. Seu resultado, entretanto, ficou muito aquém do esperado e do necessário. 

Isso porque o chefe do Executivo regional não se encontrava a fim de prestar conta alguma. Estava, mesmo, com a intenção de se valer do espaço para autopromoção, o que significa supervalorizar seus feitos, na esperança de conquistar dividendos eleitorais substanciais. Razão pela qual escamoteou os próprios desacertos. Estes, aliás, sequer, foram reconhecidos como tais, uma vez que, segundo suas palavras, os erros registrados advinham de administrações passadas. Foi o que deixou transparecer com relação ao desmatamento no Estado, pois no início de sua gestão, em 2003, eram “mais de 11 mil km quadrados” de área desmatada e hoje ela “chega a apenas 1,3 mil km. Significa 90% a menos”. Dados citados sem suas devidas fontes, muito menos quem os detectou. Por conta disso, nenhum pouco digno de crédito. Até porque dos 43 municípios que mais desmatam na Amazônia Legal, 20 são mato-grossenses. 

Quadro que o governador tratou logo de desconsiderar, valendo-se dos artifícios retóricos como trapézio. Procedeu de igual maneira com algumas perguntas que lhe eram mais provocativas, e, então, poderiam colocar em xeque suas afirmações. Dessa forma, poucas foram às indagações que, realmente, tiveram suas devidas respostas. Mesmo nessas, podia se perceber um “jogo de esconde-esconde”, no qual o culpado é sempre o antecessor, a tal ponto que não cumpriu a promessa de reduzir o imposto da energia elétrica porque “o Estado estava quebrado”, e ele, Blairo Maggi, então, “não podia baixar a carga tributária para não afetar ainda mais a economia” regional. 

Atitude digna de elogios. Acontece, entretanto, que “o Estado não estava quebrado”. Ao contrário. Pois “a casa estava arrumada”. Em condições infinitamente melhores que qualquer outro político quando assumiu o governo estadual, desde 1986. O não cumprimento da dita promessa se deu por outras razões, e o atual governador sabia que não iria cumpri-la ainda quando estava em campanha, em 2002.

Apesar disso, não se pode deixar de elogiar o governador quando se referiu à importância da Avenida das Torres, e a quem se deve atribuir o crédito de tamanha obra; igualmente por sua postura contrária ao Bolsa-Copa, sobretudo pela argumentação utilizada; e, principalmente, por manter e ampliar a estrutura da administração herdada.

Portanto, a gestão Blairo Maggi teve méritos. Méritos que não podem ser esquecidos ou ignorados. Talvez o maior de todos fosse o seu reconhecimento, no referido programa, que o lidar com a coisa e os negócios públicos é bem diferente do administrar uma empresa particular. Posicionamento que contrapõe com parte do seu próprio discurso da campanha de 2002. Principalmente ao ressaltar a relevância “do planejamento dentro da gestão pública”. É seu o seguinte trecho: “Não é possível gerir um Estado sem planejamento”. 

Infelizmente, esse reconhecimento se deu tardiamente. Há mais tempo, o governador teria evitado uma série de erros, tais como a extinção de determinados batalhões militares, a implantação desorganizada do CISC, a recusa da verba do BIRD Pantanal, a desativação de prédios escolares e a demissão de professores e servidores interinos antes do término do ano letivo. Erros que denunciam a ausência de planejamento na atual administração.  

Contudo, esses desacertos, assim como tantos outros, foram sequer tocados. Por conta disso, não se teve prestação de contas, que, aliás, era o objetivo do programa especial.         
 
Lourembergue Alves é professor universitário e articulista de A Gazeta, escrevendo neste espaço às terças-feiras, sextas-feiras e aos domingos. E-mail: Lou.alves@uol.com.br.   


Autor

Lourembergue Alves

LOUREMBERGUE ALVES é professor universitário e articulista

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