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Opinião
Sexta - 26 de Março de 2010 às 15:19
Por: Renato Gomes Nery

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Algumas conhecidos me fizeram a seguinte pergunta. Com todos esses escândalos e punições que estão acontecendo no Brasil a corrupção vai acabar?

Reporto-me ao livro de José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, em que há um diálogo entre Deus e o demônio. Este último propõe ao primeiro uma trégua definitiva, no seguinte sentido, o Senhor me perdoa e eu volto para suas hostes de onde saí e acabamos de vez com esta eterna pendência. E Deus ( o bem) diz que não ao demônio e afirma sem você (o mal) eu não existo.

Monteiro Lobato, há mais de 100 anos, verberava comparando a corrupção a formiga cortadeira chamada saúva: ou se acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil. Não se acabou nem com a saúva e nem com o Brasil. A UDN foi mentora do Golpe de 1.964, sob o pálio de que somente um regime de força acabaria com o populismo ( e seu filho predileto: a corrupção) e após este regime instaurar-se-ia a democracia.

O golpe acabou por engolir os seus líderes civis e deu no que deu. E dependendo dos resultados das próximas eleições o populismo em andamento se estabelecerá completamente com a força da mais legítima corrupção (impune) de que são acusados boa parte dos seus líderes.

Aqui no Estado de Mato Grosso era notório toda a corrupção que grassava boa parte do Poder Judiciário no concernente a manipulação da distribuição de processos. Difícil era provar todo esse esquema, mas graças ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e para felicidade dos verdadeiros advogados está sendo desvendado. Nasceu, cresceu, e ficou notório e até invejado um profissional extremamente hábil, bem relacionado e sem qualquer preparo técnico jurídico: o lobista.

A corrupção não vai acabar até porque seria negar a existência do bem e do mal. Como não vamos acabar com o loucos, psicopatas e, notadamente, os corruptos. Ela vai certamente continuar mais aperfeiçoada e em níveis bem menores, uma vez que a sociedade somente vai sobreviver se o Bem for maior que o mal. Se o mal ultrapassasse o Bem, instaurar-se-ia o caos.

Os organismos internacionais quando vão emprestar dinheiro a um País, eles analisam primeiro o nível de corrupção, para que o empréstimo se efetive. É precioso que esses níveis sejam aceitáveis. Isso é uma constatação de que a corrupção existe, mas deve ser domada em níveis toleráveis. Todavia, abaixo da linha do Equador a corrupção sempre esteve a níveis intoleráveis, o que justifica o atraso em que sempre viveu este Continente refém de um populismo endêmico.

No período em que presidíamos a OAB/MT, esteve aqui em Mato Grosso o Embaixador do EUA no Brasil. Nessa época estávamos numa fase de corrupção exacerbada. Perguntei a ele como era a corrupção nos EUA e ele nos disse que não era muito diferente, mas que lá as punições eram mais rápidas, rigorosas e por isso o nível de corrupção era bem menor.

Não se esqueça de que a impunidade é a mãe da corrupção, se o legislador não for rigoroso e o Poder Judiciário - que está sendo chamado aos brios depois da instalação do CNJ - não cortar a própria carne e fizer da celeridade um objetivo, começando a punir os infratores, não chegaremos a lugar nenhum. Um exemplo é a punição recente de um Governador e atuação firme e destemida do CNJ.

Entretanto, há muito a se fazer. Ainda clamam por decisões definitivas os processos eleitorais daqueles políticos cassados que estão terminando os mandatos por força de miraculosas liminares e muita gente graúda ainda está protegida por partidos e líderes inatingíveis.

O Brasil certamente não vai acabar com a saúva, mas espera-se que a saúva não acabe com o Brasil.


RENATO GOMES NERY é advogado em Cuiabá.
gnery@terra.com.br



Autor

Renato Gomes Nery
rgenery@terra.com.br

É advogado em Cuiabá.

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