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Opinião
Quarta - 10 de Março de 2010 às 09:17
Por: Enock Cavalcanti

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Meus amigos, meus inimigos: a vida não é um poema em linha reta. Alguém já disse isso. Então, o desembargador Orlando de Almeida Perri, que teve a ousadia de investigar seus próprios companheiros de magistratura, cumprindo com suas responsabilidades de corregedor do Tribunal de Justiça, hoje, ao invés de colher os louros de sua atuação meritória, virou alvo de um denuncismo acendrado. Há quem tente fazer de Perri um espertalhão que teria conseguido iludir o Conselho Nacional de Justiça e detonar com adversários que contra ele teriam se erguido dentro do Tribunal de Justiça.

Para alguns, tudo não teria passado, portanto, de uma vingança. O juiz Irênio Lima Fernandes, durante a sua peregrinação pelos corredores do CNJ, no dia anterior à sua aposentadoria, encontrando este humilde e apagado repórter, puxou conversa e chegou a me dizer que todas aquelas denúncias levantadas contra os 10 magistrados não passavam de pano de fundo para a verdadeira disputa, que seria o racha entre dois desembargadores de personalidade forte, Orlando Perri e José Ferreira Leite, visando o acerto de velhas contas do passado.

Ferreira Leite teria excluído Perri de uma comissão tal, lá no passado, a mágoa ficara no coração de Perri, e acabara resultando em toda esta celeuma. Irênio só faltou beijar os dedos em cruz, para jurar que aquela era a verdade dos fatos.

Acredito que muitas versões ainda aparecerão para este imbróglio que envolve o nosso Poder Judiciário. Prefiro acreditar que Orlando Perri é um magistrado de postura rara, que ousou quebrar com o vício do corporativismo que impera em muitas das esferas de poder em nosso País. Vejam que o desembargador Mariano Travassos, coitado, corregedor de Justiça à época em que José Ferreira Leite imperava no TJ, está hoje aposentando e lançado à desonra pública, justamente porque, na avaliação do conselheiro Ives Gandra Martins Filho (notável figura!), teria fechado os olhos a todas as patifarias que os juízes-maçons teriam armado sob o manto protetor do Tribunal de Justiça.

Já Orlando Perri, não. Não aceitou nenhum cala boca. Começou a investigar e acabou expondo diante da comunidade toda uma série de práticas espúrias que acabaram por provocar a queda de uma verdadeira "bomba atômica" - na feliz expressão do desembargador Paulo Lessa - sobre o nosso Judiciário.

Eu, que vivo sempre a reclamar pela transparência ampla, geral e irrestrita nos negócios públicos, fiquei feliz. Imagino que Orlando Perri ande com a cabeça quente pelo muito que andam tentando enlamear seu nome, de seus familiares. É fórmula que adotam os já desonrados para tentar diminuir o peso da punição que receberam. Não querem que a comunidade se volte para Orlando Perri com homenagens e outros afagos.

Coisa de gente que está com a alma envenenada pelo rancor. Eles que achavam que iriam reinar sobre o TJ durante anos e anos, vão passar, agora, um bom tempo respondendo a uma carrada de processos e ainda podem vir a perder seus cargos, por força de processos que o MP certamente irá encabeçar contra eles.

Imagino que as dores de Perri se justificam e ele, certamente, já esperava por elas, ao ousar mexer na caixa preta do Poder Judiciário. Daqui pra frente, a mídia deve perder seus receios, os editores de política serão liberados, e os integrantes do Judiciário, tanto juízes quanto desembargadores, passarão a ter seu cotidiano fiscalizado do mesmo jeito como se fiscaliza o cotidiano dos vereadores, dos deputados, dos senadores.

É bom para a democracia que esse dique que represava o acompanhamento mais rotineiro e atento das práticas e dos bastidores do Judiciário tenha sido rompido. Orlando Perri sofre mas ele sabe que, desde a condenação dos 10, ele é o mais novo herói do povo mato-grossense. Comandou um processo de investigação exemplar. Desmontou a empáfia e a soberba de alguns magistrados que se julgavam semideuses dentro de Mato Grosso.

O corporativismo é sempre um mal em si mesmo. Nunca o cultivei em relação a meus colegas de profissão, o jornalismo no qual sabemos que militam muitos canalhas. Em Mato Grosso, outro exemplo danoso de sobrevivência do corporativismo é a Assembléia Legislativa, submetido a uma unanimidade suspeita. Depois dos corruptos do Judiciário, precisamos nos livrar da corrupção caititu que tomou conta do Legislativo estadual. Quem se habilita?

ENOCK CAVALCANTI, jornalista, e titular do blogue www.paginadoe.com.br



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