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Opinião
Quinta - 27 de Fevereiro de 2014 às 08:34
Por: Roberto Boaventura

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Há dias ensaiei escrever este artigo. Hoje, inusitadamente, fazendo o papel de estilista, quiçá, de vidente, escrevo sobre moda; mais especificamente sobre a roupa que os brasileiros possivelmente terão de usar no futuro, inclusive nas praias, onde experimentamos a sensação de liberdade, de paz... Na praia, quando não há arrastões, tudo ajuda: o mar, a claridade e o calor da areia, o vento incessante na cara da gente... 

Mas antes, vale lembrar: a moda de qualquer sociedade, conforme a época vivida, bem como o local, reflete o modo de como um determinado conjunto social se organiza, incluindo as leis, crenças, hábitos... 

Logo, além da temperatura/altitude, o arcabouço cultural tem relevância na moda que usamos. Ex.: europeus dos países gélidos, em geral, nos poucos dias de verão que têm, não vão à praia assim tão soltos como nós. Nossa clima, nossa cultura e nossa cor nos permitem mais “liberdade” em nossos trajes; ou na falta de deles... E nós apreciamos muitíssimo nossas “liberdades”... O Carnaval que o diga!

Todavia, a cada novo alvorecer, ou anoitecer, estamos perdendo nossa liberdade, que é um dos mais importantes e vitais do bens simbólicos.

Por que afirmo isso?

Sem esquecer que estou falando de moda, respondo com uma manchete de jornal: “Com golpes de barra de ferro, santista é morto após clássico” (Folha de SP: 25/02/2014).

Como era previsível, a maioria dos comentários sobre mais essa desumanidade girou em torno do universo do futebol, com ênfase no mau comportamento das torcidas organizadas; ou melhor, de um tipo de máfia brasileira. 

Contudo, em meio às leituras rasas do óbvio, o olhar de Janio de Freitas, do mesmo jornal, sobressai. Em seu artigo “Brasil embrutecido”, que toca em pontos de meu artigo anterior – “Brutalidade histórica” –, o articulista vai ao ponto exato da questão, quando diz: “Estamos, no Brasil, em um agravamento da brutalidade que não cabe mais nos largos limites do classificável como violência urbana. E não basta dizer que nada é feito contra tal processo. O que se passa, de fato, é que nem sequer o notamos”.

E não o notamos porque não temos a devida preparação intelectual para ler os acontecimentos da forma como deveriam ser lidos: na dinâmica processual da história, construída materialmente pelos humanos, como já ensinara Marx no século 19.

" Há pouco, atearam fogo em um ônibus: uma menina morreu entre as chamas"

Esse despreparo metodológico para entender nossa história nos leva, no limite, a lamentar “pontualidades” da brutalidade nossa de cada dia. Hoje é um torcedor golpeado por barras de ferro numa parada de ônibus. Há pouco, atearam fogo em um ônibus: uma menina morreu entre as chamas. “Ontem”, foi uma dentista queimada viva em seu consultório. “Anteontem”, um índio pataxó ardeu em chamas, também em um ponto de ônibus... 

E amanhã? De quem será a vez? De que forma será o seu fim? A “cigana que leu o meu destino” saberia me dizer?

Provavelmente, não. Todavia, repito o que já disse no artigo anterior: o Brasil é um dos países mais violentos do mundo; e desde sempre. E, caso não sejamos capazes de reverter estruturalmente nossa sociedade, tornando-a menos desigual e injusta, a tendência é só piorar. 

Por falar em tendência, para encerrar, volto a falar da moda. Se piorar, arrisco a dizer que teremos de substituir nossas roupas atuais, tão modernas e bonitas, pelos antigos trajes e acessórios dos cavaleiros medievais, quando se preparavam para as guerras: espada montante; moca; besta; alabarda; armadura... 

Quando esse dia chegar, será um fardo para todos, e sem nenhum charme ou glamour.



Autor

Roberto Boaventura

ROBERTO BOAVENTURA  é doutor em jornalismo e professor de Literatura da  UFMT

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