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Opinião
Quinta - 11 de Setembro de 2014 às 09:27
Por: Vicente Vuolo

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A palavra "tragédia" é originária da rica poética e tradição religiosa da Grécia Antiga. É uma forma de drama que se caracteriza pela sua seriedade, dignidade e frequentemente os deuses, o destino ou a sociedade.

O filósofo Aristóteles teorizou que a tragédia resulta numa catarse da audiência e isto explicaria o motivo dos humanos apreciarem assistir ao sofrimento dramatizado.

Nos tempos modernos é comum designarmos essa palavra para um fato que aconteceu, a qual é muito ruim, como por exemplo: o incêndio de Santa Maria, a queda do viaduto de Belo Horizonte, o desabamento do teto do aeroporto Marechal Rondon, o desastre aéreo com o presidenciável Eduardo Campos.

Já as notícias sobre a educação em nosso país, como as notas no ensino médio - o IDEB de todas as escolas brasileiras - que apresentou a média 3,7 não surpreende e de longe parece ser uma tragédia. "São muitos problemas que se acumulam ao longo dos anos. Entre eles, sobressaem currículos defasados, professores mal remunerados, despreparados e gestão deficiente. O diagnóstico não é novo."

Como afirmou o Senador Cristovam Buarque, esta semana da tribuna do Senado: "Algum de vocês ficaria feliz se o filho de vocês tivesse nota 3,7? Pois essa é a nota do conjunto das crianças brasileiras. É a nota da escola que nós estamos oferecendo aos nossos brasileiros, e isso parece que não espantou o Brasil, nem surpreendeu, por que se sabe dessa realidade. Essa nota é ainda menor se a gente considera as escolas públicas estaduais e municipais, que fica em 3,4 apenas".

O fato do Brasil amargar a 38ª posição de um total de 40 países avaliados pelo ranking internacional de educação é um escândalo, segundo o senador Cristovam.

É um escândalo, sim, conforme bem disse o educador português José Pacheco: "O Brasil possui a escola do século 19, o professor do século 20 e o aluno do século 21".

São muitos problemas que se acumulam ao longo dos anos. Entre eles, sobressaem currículos defasados, professores mal remunerados, despreparados e gestão deficiente. O diagnóstico não é novo.

Mas, o remédio, embora receitado por técnicos e especialistas, apresenta uma tragédia que não se restringe ao ensino oferecido pelo Estado. A escola particular que funcionava como refúgio para quem podia pagar por melhor preparação dos filhos, também teve desempenho negativo em 2013.

O desempenho decepcionante do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) de 2013, o relatório Panorama da Educação de 2014 da OCDE - o clube dos países - mostra que o investimento do Brasil no setor continua decepcionante. E bem distante da média das nações mais desenvolvidas.

De acordo com o estudo, o gasto médio anual brasileiro por estudante, de US$ 3.066 em 2011, só supera os US$ 625 da Indonésia.

Os valores nacionais são inferiores aos de países de renda similar, como Turquia, México e Hungria e muito distantes da média de US$ 9.487 do conjunto de países que compõem a OCDE (organização da qual o Brasil não faz parte).

No topo da tabela figuram nações como Suíça (US$ 16.090) e Estados Unidos (US$ 15.354).

Com relação aos investimentos per capita por segmento da educação (ensino médio) o Brasil só ganha de Indonésia e Colômbia. Nosso valor, de US$ 2.605 por aluno, fica atrás de Argentina (US$ 3.184), Turquia (US$ 3.239) e México (US$ 4.034).

Outro dado apresentado pela OCDE, mostra a discrepância no investimento por aluno entre os ensinos fundamental e superior brasileiros: o superior tem quatro vezes mais recursos que o outro. Ou seja, nosso modelo universitário prioriza universidades públicas de excelência destinadas à elite.

Os nossos professores também ganham menos. Um professor iniciante da rede pública, que dá aulas nos primeiros anos do ensino fundamental, ganha em média cerca de US$ 10.375 por ano. Acima apenas da Indonésia. A média dos países da OCDE ficou em US$ 29.411.

No ensino médio, um professor iniciante no Brasil também ganha por ano US$ 10.375, ficando ainda mais atrás da média da OCDE, de US$ 32.255. E o pior disso tudo, é que o piso salarial do professor de educação básica, que hoje está em torno de R$ 1.700 mensais, sequer foi implementado em todo o país.

E para completar, o docente no país não sofre apenas com baixos salários, mas, principalmente, com más condições de trabalho.

O Brasil não pode aceitar esses resultados de reprovação na educação. Ter como meta, a média 5 é continuar regredindo. É a maior de todas as corrupções deste País.

A corrupção de prioridades: o abandono da educação das nossas crianças. É uma tragédia!



Autor

Vicente Vuolo

VICENTE VUOLO é economista (UnB), pós-graduado em Ciência Política (UnB), ex-vereador em Cuiabá e analista legislativo do Senado Federal

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