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Opinião
Sexta - 28 de Novembro de 2014 às 13:21
Por: Lucineia Soares

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Recentemente um amigo de minha filha foi assaltado e, após uma reação inesperada, o assaltante o cortou com uma faca. Nas inúmeras conversas que se seguiram sobre o ocorrido, questionavam sobre a reação do garoto e a frase mais repetida era: “Não se pode reagir. Eles não têm nada a perder!”.

Refletindo sobre essa frase, questiono que mundo é este onde as pessoas não têm o que perder, onde não há expectativas, perspectivas, esperança...

E esse questionamento me levou à moda do momento, os filmes e seriados que tratam das invasões dos zumbis, seres humanos desprovidos de vida, sem vontade própria ou sentimentos, mas com fome voraz.

Qual a semelhança entre esses zumbis e os zumbis modernos, que participam cada vez mais de crimes como furtos, roubos, latrocínios; que matam, estupram e que se drogam vorazmente?

São iguais, porém os primeiros são mortos-vivos e os segundos são vivos-mortos. E o que torna um ser humano um zumbi? A falta de serviços públicos essenciais à vida como a saúde, e outros tão importantes quanto educação, alimentação, trabalho e renda, água tratada, moradia, saneamento, transporte público de qualidade, espaços públicos para a cultura e a prática de esportes.

Ao contrário do que acontece na ficção, onde um vírus é criado em laboratório e se alastra em questão de horas, na vida real é a desigualdade social, construída e consolidada dia a dia por um Estado (união, estados e municípios) que pouco representa às necessidades reais da maioria da sua população, a responsável pela invasão dos zumbis.

"Qual a semelhança entre esses zumbis e os zumbis modernos, que participam cada vez mais de crimes como furtos, roubos, latrocínios; que matam, estupram e que se drogam vorazmente?"

Os números do Censo 2010 do IBGE demonstram que no Brasil há 4 milhões aproximadamente de famílias conviventes residentes em domicílios particulares urbanos por classes de rendimento nominal mensal familiar per capita.

Desse total, aproximadamente 784 mil famílias vivem o dia a dia sem rendimento nenhum. Esse cenário piora quando tratamos das famílias que vivem na zona rural, onde há 556 mil famílias e dessas, 176 mil vivem sem rendimento nenhum.

Entretanto, essas mesmas famílias somadas a outras que recebem até 02 salários bancam o poder público, pois pagam proporcionalmente mais impostos que famílias que recebem acima de 30 salários mínimos.

Então, seria natural que essas famílias fossem contempladas no acesso as políticas públicas. Porém, quando olhamos como o governo federal gasta todos esses impostos, já que é o que fica com a maior parte dos recursos públicos, em 2013 pelo SIGABRASIL, descobrimos que quase a metade de todo o valor gasto foi para pagamento de juros e amortização da dívida com os bancos, mais precisamente, e somente 4% para a saúde, 3% para educação, 0,0006% para habitação, 0,04% saneamento e 3% para assistência social.

Então, como vamos avançar para que esses zumbis sejam transformados em cidadãos? E não cabe aqui um antídoto encontrado nos minutos finais do filme, salvando a humanidade do seu destino cruel.

Precisamos de uma reforma tributária que promova a distribuição de renda e que as políticas sociais sejam priorizadas e executadas para que tenhamos uma invasão de cidadãos conscientes de seus direitos e deveres.

Pois, caso isso não ocorra, a falsa ideia que temos de proteção, os muros altos, as cercas elétricas e a altura dos edifícios não serão suficientes contra milhões de zumbis famintos; não por cérebro, mas por cidadania.



Autor

Lucineia Soares

LUCINEIA SOARES é economista e mestre em política social

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