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Opinião
Quarta - 24 de Junho de 2020 às 12:29
Por: Amauri José Elias

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O brasileiro é um aproveitador nato. Isso mesmo. Ainda que pareça exagero, é como se houvesse algo como um atavismo em nosso povo para tirar vantagem nas coisas em desfavor de outrem.

Entretanto, como já dizia um meu professor da época da graduação: “toda generalização é burra”. E, neste ponto devo concordar, caso contrário estaria colocando todos em um mesmo contexto. Principalmente porque, como posso dizer, há “graus/degraus”, tal qual uma escala/escada, desse aproveitamento, e assim não se pode equiparar todos em uma mesma conjuntura.

Pois bem. A arte do brasileiro “malandro” cantado e exaltado em nossos sambas é um prenúncio de que brasileiro bom é brasileiro “esperto”. Infelizmente, a esperteza que poderia procurar o lado da sabedoria, debandou para o lado errado, e o que temos são milhões de “malas”. O brasileiro não pode ver uma brecha que dela se aproveita.

Uma brecha em um trânsito engarrafado, em uma vaga especial de estacionamento, em guardar a fila do supermercado enquanto outro compra, no troco a mais que não se devolve, do ocioso que faz pouco caso do serviço (agravado se for servidor público, seja pelo valor que lhe é pago e acreditado pela sociedade, seja por sobrecarregar seus pares), da carteira que se acha e também não se devolve (quase sempre se volta só os documentos, isso quando o larápio não resolve usar seus dados), e, por aí vai dentre tantas coisas ditas “menores”.

Ainda que pareça exagero, é como se houvesse algo como um atavismo em nosso povo para tirar vantagem

Contudo, de brecha em brecha, os vácuos se tornam maiores. Pulamos para o homem que se aproveita da mulher já sem discernimento pela bebida alcóolica para dominá-la, da mulher mais nova que aproveita de um idoso para dele o patrimônio surrupiar, dos golpes financeiros chamados pirâmides, das pessoas que se inscrevem em programas sociais sem os requisitos preencher, do atestado médico forjado pelo indolente para não trabalhar (quando não é o próprio profissional da saúde que o vende), do “cafezinho” que o servidor público recebe no exercício da função, entre tantos outros jeitinhos que se arrumam para tirar proficuidade em desfavor de alguém.

Coloco esses tipos de exemplos, alguns até mesmos graves, ainda em um degrau intermediário, mais pela individualidade da ação, do que pela coletividade dos resultados. E vamos subindo os degraus.

Aí temos os que se prevalecem pelo poder, e estes, a meu ver, estão no topo da cadeia de aproveitar. São aqueles usam e abusam do dinheiro para encontrar as “brechas” da lei para a lei não se submeter; que utilizam a lei ilegalmente ao livre entendimento fundamentado da caneta; daqueles que o dinheiro público diariamente surrupiam e que deveriam dele zelar; daqueles que se utilizam das benesses do poder para criar/aprovar suas regalias/penduricalhos em detrimento de todo um povo; dos que aproveitam as brechas advindas da ignorância deste povo – que já não sabe a quem recorrer e que em qualquer dito “Filho do Brasil” ou “Messias” se apega, afunda-se, mas, destes não se desapega – que a troco de promessas vazias e mentiras se elegem, e, ou pouco fazem, ou pioram o que já estava péssimo. Estes que exemplifiquei são meramente os protagonistas antagônicos que dominam com soberba e indiferença os rumos do país.

Ante o acima exposto, tenho por mim que no meio dessa Pandemia ser aproveitador se tornou quase um estilo de vida: atingiu o seu ápice.

Comecemos pelos que desdenham da doença. Quantos que podem fazer um mínimo de isolamento, porém, preferem “resenhar” (reunir) – o churrasco e cerveja não podem parar – com outras pessoas, ainda que digam que não possam trabalhar por causa de contato. Quantos que sequer usam máscaras: alguns em um negacionismo banal tal qual seu Chefe de Governo, outros tantos fazendo coro de “presidente de genocida” e hipocritamente fazendo (ainda que forma individual) o mesmo que se diz “combater".

Quantos que ficam doentes, e sabidamente doentes, não informam que assim estão (é um dever cívico e moral ante uma doença tão contagiosa) ou que circulam por aí como se estivesse tudo normal (destes boa parte são jovens que aproveitam o vigor da sua saúde por se considerarem imbatíveis). Para quem não entendeu, muitos tiram proveito com a escusa de aproveitar para gozar a vida enquanto podem, ainda que possa ser em desproveito da vida de outrem. O vírus é invisível aos olhos humanos, quem poderia levar o peso da culpa, não é mesmo? Continuemos.

Muitos dos que bradam por um país melhor, – tanto de apoiadores quanto de opositores do atual Governo – receberam o auxílio emergencial estatal sem ter direito para tanto, pois que inseriram dados falsos no sistema, afinal, tudo no Brasil “se dá um jeito”, e no final, ainda que discordem ideologicamente, todos que fizeram isso se igualam quanto a torpeza. Como já se imaginava que este sistema de filtragem seria falho e sem tanto rigor (como quase tudo no Brasil), por que então, não tentar faturar “seiscentinhos”? Até nomes famosos “pintaram” na história (ainda que não tivessem eles mesmos se inscritos). Milhares servidores públicos apareceram na lista. Inúmeros empresários (fora a exceção legal) também. Logo, quantos nomes receberam essa ajuda governamental sem preencher devidamente os requisitos? Jamais saberemos.

Percebe-se que a malandragem está arraigada em todos os níveis, e o prejuízo se refletirá mais uma vez (senão sempre) nos menos favorecidos desta sociedade. Porém, vamos além. Essa Pandemia escancarou a nossa imprensa, e o quanto ela é absurdamente sagaz em se valer em desviar o enfoque dos fatos em busca dos seus próprios interesses.

Óbvio que há muitos jornalistas que não merecem ser enquadrados como tais (como dito antes, não se deve generalizar), contudo, em um aspecto geral, parte considerável da mídia está apenas preocupada em gerar o caos e derrubar um Presidente. Este que por sua vez não se contenta em não ficar no foco já que é um “regurgitador” de imbecilidades e todo dia dá um “caldo” para imprensa saborear.

Todavia, para o “caldo” de tantos outros, faz-se vista grossa. O importante para mídia é impactar, ou como dizem, “lacrar”, no entanto, só as custas de quem lhe convém. E, mesmo que isso possa custar uma democracia, já que se inflama todos os lados.

Deste modo, com a velocidade de informação por todas as redes de dados que temos ao nosso alcance, o cinismo ardil de alguns meios de comunicação se espalham tão ou mais rápido que o próprio vírus que se tenta combater.

De outra banda, temos gestores do Executivo que em vez de combaterem a moléstia, combatem-se entre si. São prefeitos contra governadores, estes contra presidente, e este contra um povo marcado e nem um pouco feliz. Milhões, ou melhor, bilhões em dinheiro e até agora a única coisa que aumenta é o número de mortes, afinal, leitos de UTI, RESPIRADORES, EPIs são figuras do nosso folclore pandêmico. Temos um Ministério da Saúde que é um mistério de si mesmo, já que ali ora encontramos Ministro, ora não; ora encontramos dados, ora não.

Fazer lockdown é a nova moda dos Chefes do Executivo Municipal e Estadual – isso quando os ditos “administradores” têm colhões, pois alguns para não se comprometer com o eleitorado, omitem-se em decidir e transferem a responsabilidade para outro Poder (arrisco dizer que se Montesquieu estivesse vivo e assistisse a situação do Brasil, perguntaria a si mesmo se seus ensinamentos foram em vão) – para caso as coisas desandem (mais), porquanto, no nosso país é muito mais simples tratar os sintomas que a causa (aliás, nunca se preocupou em se evitar esta).

Para piorar esse cenário, os ditos “elaboradores de leis”, vulgo “os representantes da vontade popular” das “nossas" Casas Legislativas, querem morder a sua parte (como sempre, é lógico), e barganham em plena Pandemia cargos para serem base de apoio e para criarem/aprovarem leis que não raro “tapam sol com peneira”.

E, não para por aí. Ainda, no meio disso tudo, temos um Judiciário lutando a sua própria guerra, afinal, nada pode atingir a toga, ainda que fira diretamente a própria Constituição, e ainda que seja pelo seu próprio denominado guardião.

E, com tanta ganância pela disputa de poder, são incontáveis enganadores (e seus enganados) que dizem que os parasitas da “Res Pública” são os que “carregam o piano” da máquina estatal (é mole?). Ao fim e ao cabo, a má-fé dos nossos vigaristas arraigados nos Três Poderes e que detém poder de decisão da vida política desse país, ou mesmo dos que buscam influenciar a opinião de milhares (ou melhor de milhões haja vista a nossa globalização), são há séculos entraves instransponíveis para a evolução de um país. Irradiam-se por todas as camadas sociais. Essa perspectiva se torna cíclica e até então incurável: algo congênito.

Em vista disso, o brasileiro se torna um aproveitador nato – não porque nasceu assim (não seria uma questão biológica, de modo a afastar de vez uma teoria ‘Lombrosiana’), e sim por simplesmente nascer (e viver) aqui: tupiniquim (em uma aproximada acepção jurídica de Ius soli) –, para muito além do astuto cantado nas prosas sambistas.

Não passamos em realidade de uma nação de malandrosmanés, em uma dualidade de que ora somos um, ora somos outro, só dependendo da brecha ou insídia a se encontrar pelo caminho.

Amauri José Elias é graduado em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso.



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