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Opinião
Sexta - 08 de Janeiro de 2021 às 11:18
Por: Auremácio Carvalho

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A data de 06 de janeiro é sempre lembrada com “Dia de Reis”, quando se comemora a visita dos reis magos ao menino Jesus, segundo a Bíblia. Agora, os EUA inovaram: a data será lembrada como o “Dia do Golpe”, à vista do que assistimos ontem: em meio ao caos, Biden se tornou oficialmente o 46º presidente da história dos Estados Unidos.

Em uma votação que começou ontem e precisou ser interrompida diante das cenas de guerra civil que tomaram Washington D.C, o Congresso americano ratificou a vitória do democrata nas primeiras horas desta quinta-feira A confirmação dá fim a uma novela ou BBB de baixo nível de meses, desde a eleição presidencial em novembro e garante a posse de Biden em 20 de janeiro.

Por volta das 6h de hoje, o vice-presidente Mike Pence leu ao Congresso o resultado das urnas: 306 votos para Biden no colégio eleitoral, resultado similar ao de 2016.

Antes disso, a noite foi marcada por violência no Capitólio, invadido por manifestantes, na verdade, milícias radicais, dóceis aos clamores de ditadores ou aprendizes, favoráveis ao presidente Donald Trump.

6 de janeiro será lembrada como o “Dia do Golpe” nos EUA

Ao menos quatro pessoas morreram, uma delas uma funcionária do Congresso, baleada. Após o resultado no Congresso, Trump divulgou comunicado dizendo que a transição será "feita de forma ordenada" até a posse de Biden. O que será difícil acreditar. Trump não engoliu a derrota, disse no comunicado e, levou os EUA, como disse um senador, “a se igualar a uma república de bananas”.

As repúblicas assim qualificadas, Venezuela, Coreia do Norte, Cuba, e até a aprendiz Brasil, estão exultantes: os “patriotas”-disse Trump, na verdade, marginais e radicais, agiram correto; “estão defendendo a constituição”.

O presidente Bolsonaro endossou o pensamento.Será por quê? 2022 dirá. “Gato escaldado tem medo de água fria”. Bolsonaro tem repetido o mantra do guru americano: sua eleição (2018) também foi fraudada (embora tenha sido vitorioso) e teria provas, que até hoje não mostrou, para comprovar a fraude.Terá em 2022 o mesmo comportamento, em caso de insucesso eleitoral, ou buscará um respaldo nas forças armadas ou nos seus fieis militantes agressivos e fanáticos, para virar o jogo? Hoje, de manhã, ele resolveu falar: o presidente afirmou ter acompanhado as cenas da invasão do Capitólio dos Estados Unidos por manifestantes pró-Trump, e reiterou, novamente sem apresentar evidências, que houve “muita denúncia de fraude” na corrida eleitoral na qual o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi derrotado. Instado por uma apoiadora a comentar os fatos desta quarta em Washington, Bolsonaro afirmou:

“Eu acompanhei tudo hoje.Vocês sabem que eu sou ligado ao Trump, né? Então vocês já sabem qual é a minha resposta”. Ou seja, o aconteceu é fake news, Trump e Bolsonaro, ao contrário do mundo todo, são os donos da verdade. A esquerda, a mídia, serão as vítimas de sempre. A versão, na velha política, suplanta os fatos.

Agora, muita denúncia de fraude, muita denúncia de fraude. Eu falei isso tempo atrás e a imprensa falou: sem provas, o presidente. O que aconteceu ontem é a continuação de uma campanha de Trump para minar o processo democrático dos Estados Unidos. Ao não reconhecer a derrota, ir para as redes sociais alegar fraude, pressionar autoridades a mudar os resultados e atrapalhar o andamento do processo democrático.

E, o Brasil? Um impacto de curto prazo é que Trump está mostrando um caminho bastante poderoso para seu aliado Jair Bolsonaro contestar o resultado das eleições presidenciais do ano que vem. Isso pode complicar bastante uma eventual transição de governo no Brasil, em caso de derrota ou, até inviabilizar o processo. Esse tumulto todo prejudica a imagem da democracia dos Estados Unidos perante o mundo.

Por décadas as autoridades americanas pressionaram governos de países ditatoriais na América Latina a ceder espaço a regimes democráticos e a fortalecer suas instituições. Com essa bagunça dentro de casa, quem vai prestar atenção daqui pra frente? Como os Estados Unidos vão conseguir avançar uma agenda democrática em países como Nicarágua, Cuba e Venezuela, onde as liberdades individuais são limitadas ou não existem?

Foi um grande presente para esses regimes: agora temos um parceiro, dirão, e poderoso: os EUA. A invasão do Congresso americano, um dos baluartes da democracia mundial, evidencia o aumento da polarização política nos países ocidentais que pode resultar em um novo período histórico.

Estamos assistindo a um colapso do centro político do Ocidente associado a um questionamento sobre as lideranças e a desigualdade socioecônomica, ingredientes que costumam marcar mudanças de era”, analisa o cientista político americano Christopher Garman, diretor executivo para as Américas da consultoria de risco político Eurasia. Esse é o risco mundial. Trump conseguiu falar com as massas que se sentem excluídas da economia e do jogo político.

É a classe média ou os menos favorecida que tem dificuldade de encontrar emprego e não se vê representada pelas lideranças políticas mais tradicionais. O mesmo perfil do Brasil. Essa é a lição a tirar do episódio de insurreição civil visto ontem nos EUA.

No início da tarde (6), Trump fez um discurso incitando seus apoiadores a não aceitarem o resultado das eleições e “marchar” em frente ao Congresso.

Ele é, evidentemente, o maior culpado e o político mais beneficiado por essa violenta tentativa de golpe. Rachou o país e seu próprio Partido Republicano, que vai ter que se reinventar. Deve ficar claro, também, que parte significativa dos cidadãos norte-americanos não acharia ruim um golpe, desde que fosse comprovada “corrupção ou crime exacerbado” dos governantes. Em pesquisa recente, cerca de 25% dos democratas e 40% dos republicanos concordaram com essa afirmação.

Na avaliação de líderes políticos e ministros do STF, as instituições brasileiras precisam começar a se preparar desde já para que a eleição presidencial de 2022 não ocorra no mesmo clima da americana, afinal o ambiente de hoje nos Estados Unidos é muito parecido com o brasileiro.

“O Brasil precisa parar de ver como normais, situações anormais”, disse um ministro do STF. Alerta necessário. Vamos ouvi-lo ou preferimos continuar fingindo que o país está “uma maravilha”.... é a escolha que pode definir a nossa democracia., ou afunda-la.

Auremácio Carvalho é advogado.



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