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Opinião
Segunda - 04 de Julho de 2022 às 06:57
Por: Rosana Leite Antunes de Barros

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Dentre tantas situações que as mulheres precisam enfrentar, no trabalho não tem sido diferente. Se em casa as violências são as que mais acontecem, em outros lugares também são reais.

E onde quer que elas estejam, precisam lutar bravamente contra as diversas violências. O local de trabalho, de tanta permanência, tem sido motivo de grande preocupação. O país vislumbrou e tem presenciado que o absurdo permeia a existência delas. Alguns ‘causos’ parecem mentiras, mas, infelizmente aconteceram e são verídicos.

A cidade de Registro/SP, com toda redundância, registrou um fato que causou clamor nacional. A procuradora-geral do citado município, Gabriela Samadello Monteiro, por ter exercido a sua função em abrir um procedimento contra o também procurador do município, Demétrio Oliveira de Macedo, que havia destratado uma servidora, foi espancada pelo mencionado homem. Quem imaginaria ver aquela cena, uma tentativa de feminicídio, de um colega de trabalho para com outra colega? Quem assistiu ao lamentável vídeo percebe que o agressor não estava com vontade alguma de parar a série de ataques. Ele foi segurado, agrediu as pessoas que tentaram o conter, e parou por não conseguir ir além. O feminicídio não aconteceu por estarem outras pessoas no momento, e, pela forma que a vítima tentou se defender, fica evidente. Todavia, se mostra certa a vontade do autor em cometer um feminicídio contra a vítima.

O procurador, autor do ato criminoso contra a procuradora, pelas lentes da investigação, não costuma destratar os homens no local de trabalho. Descobriu-se que ele pratica violência apenas contra mulheres. Outros procedimentos de distratar e maltratar mulheres foram instaurados contra ele.

Em distinta situação, na quarta feira dia 29 de junho, foi demitido o presidente da Caixa Econômica Federal, acusado de assédio sexual contra várias mulheres. Segundo algumas funcionárias da empresa pública, vários episódios advieram, dentre eles: toques íntimos não autorizados e convites inadequados e incompatíveis com a relação de trabalho. Algumas funcionárias afirmaram que muitos assédios acontecerem em viagens a trabalho. Uma delas ouviu do homem em uma dessas viagens: “E se o presidente quiser transar com você?”. Em outra viagem a trabalho, disse ele para as suas subordinadas: “Ninguém vai ser de ninguém. Todo mundo nu”. Os relatos são múltiplos, sendo que em uma dessas viagens, o assediador pediu que determinada funcionária tomasse banho e fosse até o quarto dele tratar da carreira dela. De mais a mais, o ex-presidente praticou assédio moral contra muitas pessoas.

No segundo caso relatado, se cuidava do presidente da Caixa Econômica Federal, que foi obrigado a pedir demissão, pela exposição que viveu. Também se evidenciou que as mulheres foram as mais prejudicadas com os atos delituosos praticados pelo superior hierárquico.

A reflexão é de extrema necessidade, até para que a sociedade possa compreender que a desigualdade de gênero é assente em qualquer lugar. Nessas duas situações publicamente externadas, apesar do desempenho das mulheres em alcançar postos de trabalho, não ficaram isentas de passar por agressões criminosas. Angela Davis, na obra “Mulheres, Raça e Classe”, tratou do tema expondo sobre o fim da escravidão: “Os abusos sexuais sofridos rotineiramente durante o período da escravidão não foram interrompidos pelo advento da emancipação.”

Assim, o problema é muito mais complexo. Não basta que elas alcem postos de trabalho, públicos ou privados, com estudo e esforço necessário. Elas precisam que os direitos humanos das mulheres sejam efetivamente cumpridos. O respeito não pode deixar de ser perseguido todos os dias.

Estar em grande parte dos bancos das escolas e faculdades... Serem aprovadas em concursos públicos... Garantir a independência financeira de algum modo... Nada as exime de agressões, discriminações e preconceitos. Mudança de compreensão sobre gênero, raça, etnia e classe social certamente é um dos caminhos.

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual.



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