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Opinião
Quinta - 27 de Janeiro de 2011 às 08:57
Por: Eduardo Póvoas

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É comum a gente escutar que o tempo é o senhor da razão. Dependendo do que se quer dizer, discordo frontalmente com essa afirmação.

Passado oito longos anos sem a presença ao meu lado do meu querido pai, chego à conclusão de que o tempo jamais será, neste caso, o senhor da razão.

Dia a dia a saudade que sinto dele faz com que meu coração bata cada vez mais descompassado e totalmente fora do ritmo que sempre bateu quando juntos, eu e ele, conversávamos sobre nossa terra, sobre os amigos da família, sobre o bairro no qual viveu uma grande parte da sua vida, o bairro do porto, com a pedra 21 à mostra em pleno leito do Rio Cuiabá no período da seca, e sua grande e maior paixão, as histórias e a cultura do nosso povo.

Horas a fio ficávamos, eu perguntando e ele falando com uma fisionomia repleta de orgulho dos seus amigos que fizeram à história desta terra.

Enchia o peito para falar de um Nicolau Fragelli, de um Corsíndio Monteiro da Silva, de um Estevão de Mendonça, de um Dom Francisco de Aquino Correa, e outros tantos que, segundo ele, Deus lhe deu o privilegio do seu convívio.

Este era seu assunto preferido.Ficava horas contando “causos” de seus ilustres amigos.

O bairro do Porto tem destaque especial no seu livro “Cuiabá de Outrora”, onde se refere ao bairro com muito carinho.

Quando me encontro sozinho, começo a pensar o tanto de história foi junto com ele. Tentei eu e meus irmãos, gravar uma fita na qual ele pudesse deixar registrado para as futuras gerações um pouco da história desta terra, pois foi testemunho ocular de muitos fatos aqui acontecidos.

O governo da época não deu importância para o nosso pedido, outros estavam na frente, como a “história de Juca pato” ou o “tamanduá que comia muita formiga”.

A saudade que sinto de você meu querido velho, deixa-me incrédulo sobre tempo e razão. Pensei que os anos fossem apagar (pelo menos um pouquinho) da minha memória nossos momentos de saudade.

Ledo engano, a solidão, minha companheira inseparável, me leva de volta aos nossos convívios amorosos que marcaram indelevelmente minha vida.

Essa solidão, não necessariamente precisa ser aquela que te afasta das pessoas. Essa solidão é diferente, é uma solidão que te provoca um vácuo enorme mesmo você estando na Marques de Sapucaí em um domingo de carnaval. É a solidão da saudade, a solidão da ausência, a solidão de não se poder mais sentir o cheiro do gumex usado nos seus cabelos e a solidão de não poder mais, nunca mais afaga-los.

Se o tempo for o Senhor da razão, só Deus pode me confortar com sua ausência. Só Deus pode me explicar porque esse tempo todo sem te-lo ao meu lado meu amor por você não consegue minguar.

Velho, meu querido velho, tenha certeza de que nenhum relógio ou calendário do planeta fará com que meu coração distancie do seu. Continuarão os dois, siameses como sempre foram. Amar-te-ei sempre.


* EDUARDO PÓVOAS
, cuiabano

povoas@terra.com.br



Autor

Eduardo Póvoas

EDUARDO PÓVOAS é dentista em Cuiabá

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