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Repórter News - reporternews.com.br
Saúde
Quinta - 27 de Novembro de 2008 às 15:09

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Feche os olhos e tente se lembrar do local onde mora. A disposição dos cômodos em casa, a rua, o caminho até a padaria. A tarefa pode parecer fácil, mas um novo relato médico indica que nem todo mundo consegue realizá-la. Segundo o trabalho, essas pessoas podem ter um distúrbio recém-identificado: a desorientação topográfica do desenvolvimento.

O estudo narra o primeiro caso conhecido da doença: uma mulher de 43 anos que nunca foi capaz de se orientar, embora não tenha nenhum problema cognitivo ou dano cerebral.

Na infância, os pais e irmãos a levavam até a escola, já que ela não decorava o caminho. Na idade adulta, ela conseguiu, após cinco anos, memorizar o trajeto até o trabalho. Quando avisaram que seria transferida para outro endereço, ela buscou um neurologista: queria um atestado de que não saberia ir ao novo local. Foi assim que seu caso chegou ao laboratório de Jason Barton e Giuseppe Iaria, que divulgaram o caso na revista "Neuropsychological Rehabilitation".

"Estudamos os mecanismos de orientação há 12 anos e estávamos buscando alguém assim. Sabíamos que deveria existir. Depois que essa paciente nos encontrou, decidimos criar um site sobre o tema, para encontrar mais casos", disse Iaria à Folha, por telefone, da Universidade de British Columbia, em Vancouver (Canadá).

Poucos dias após o site (www.gettinglost.ca) ser lançado, Barton e Iaria receberam mais de 20 mensagens de gente que se identificou com o caso.

Uma delas é a norte-americana Sharon Rosen, 61, que, desde criança, vive momentos em que o eixo leste/oeste parece se deslocar para norte/sul. Ela se lembra da primeira vez em que percebeu o problema. Tinha cinco anos e brincava diante de casa com outras crianças --o jogo incluía ter os olhos com uma venda e girar. Quando tirou a venda, ela ficou apavorada. "Não consegui reconhecer a rua. Tudo parecia estar fora do lugar", disse ela à Folha, de Denver, nos EUA.

O problema virou um tabu dentro da família, e só aos 29 anos ela procurou um neurologista. Os exames nunca constataram nenhum problema.

Dois aspectos que caracterizam o distúrbio, diz Iaria, são a presença do problema desde a infância e a ausência de danos cerebrais ou doenças neurológicas. O mal de Alzheimer, por exemplo, pode afetar a memória, levando o paciente a se perder com freqüência. Já um dano no córtex órbito-frontal pode prejudicar a atenção, afetando a capacidade de orientação, entre outras habilidades.

Para que uma lesão afetasse só a capacidade de orientação, ela precisaria ocorrer numa área específica do lado direito do hipocampo, diz Márcia Lorena Fagundes Chaves, coordenadora do departamento de neurologia cognitiva da ABN (Academia Brasileira de Neurologia). Segundo ela, alguns casos assim foram registrados, mas são muito raros --há cerca de 20 relatos no mundo, diz.

A paciente descrita por Iaria e Barton não apresenta nenhuma doença ou lesão que possa ser identificada. Também não tem dificuldades para aprender novas informações, lembrar-se de rostos ou memorizar listas.

Mesmo assim, ela não consegue registrar a localização de um ponto de referência. Não se sabe por que isso ocorre. "A orientação é uma habilidade complexa, baseada em várias regiões cerebrais, pois usa muitas funções, como atenção, memória etc. Algo está errado com a rede que liga essas regiões quando elas são requisitadas para orientação", diz Iaria.

Ele destaca que é normal que algumas pessoas sejam mais lentas para se orientar, mas isso não constitui um problema. "Essa paciente é diferente, ela não têm essa habilidade."

Para Chaves, da ABN, o que fica em aberto é se o quadro corresponde a uma síndrome --ligada a questões genéticas, por exemplo-- ou foi produto do acaso. "Um problema no parto poderia gerar uma pequena isquemia [insuficiência na irrigação sangüínea] no hipocampo e não ser identificável. Isso seria um azar." Para responder a essa questão, seria preciso avaliar novos casos.

Enquanto isso, Iaria e Barton criam um plano de reabilitação para a paciente. A idéia é fazer com que ela vá repetidamente de um ponto a outro. Quando ela puder fazer isso facilmente, será adicionado um terceiro ponto --numa conquista passo a passo por independência.





Fonte: Folha de S.Paulo

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