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Nacional
Quarta - 19 de Novembro de 2008 às 11:42
Por: Paula Laboissière

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Brasília - Levantamentos da organização não-governamental (ONG) Criola, feitos com base em dados do Ministério da Saúde, revelam que negros e brancos ainda são tratados de forma desigual no sistema público de saúde brasileiro. As chances de crianças pretas e pardas com menos de 1 ano de idade morrerem de doenças infecciosas e parasitárias são 44% maiores do que entre as brancas. No caso específico da tuberculose, o risco é 68% superior ao dos não-negros. Também nos registros de morte materna, o risco para mães pretas e pardas chega a ser 41% maior.

Segundo Thiago Ansel, representante da ONG, o Ministério da Saúde, em 2006, já havia reconhecido a presença do racismo no atendimento a negros no Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo ele, ao mesmo tempo em que aprovava a Política Nacional de Saúde da População Negra, o então ministro da Saúde, Agenor Álvares, chegou a afirmar que a discriminação no país se concretiza em problemas como diagnósticos incompletos e exames que não são realizados em pretos e pardos.

“É importante mencionar que o racismo é estruturante na sociedade em que vivemos. O próprio olhar das pessoas é perpassado por essa marca. No Brasil, é de costume que o racismo seja tratado como um conjunto de fatos isolados que ocorrem de forma esporádica, sendo consensualmente considerados execráveis. Racismo não é só episódico, não é somente a ofensa ou o olhar torto. O atendimento no sistema de saúde pública brasileiro é um exemplo emblemático, pois mostra uma das piores faces da descriminação racial: a morte de negros e negras”, destaca Ansel.

Em seu site na internet, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) classifica como chocantes os contrastes entre os indicadores de saúde de negros e brancos e observa que, ainda com uma avançada legislação, o SUS não é capaz de garantir a toda a população brasileira a mesma qualidade na atenção à saúde.

A auxiliar educacional Regina da Silva Costa, 43 anos, conta que já enfrentou o preconceito na rede pública de saúde, até mesmo ao pedir informação ao chefe de uma instituição médica no Distrito Federal. “Precisava de um encaminhamento para uma junta médica, mas ele não me atendeu e gritou comigo. Me senti muito humilhada, estava de chinelo”, lembra Regina, que mora na cidade de Taguatinga, no DF. Ela acredita que, se tivesse “bem arrumada” e fosse branca, teria sido mais bem atendida.

“Mas como foi uma neguinha, sem eira, sem nada... Disse a ele que não aceitava que tivesse falado comigo naquele tom. Pegamos o nome dele e levamos nas pequenas causas [Juizado Especial Cível] por danos morais. Me senti humilhada, porque tinha muita gente. A única pessoa que me ofereceu um copo com água foi a pessoa da limpeza. Fui muito humilhada e tenho certeza que foi por causa da cor”, afirma a auxiliar educacional.

Moradora de Formosa (GO), Eunice de Souza, de 49 anos, também tem relatos de tratamento desigual em postos de saúde no Distrito Federal. “Se tem um branco e um preto, o de pele escura fica para o cantinho”, ressalta. Para ela, a desinformação e o espaço limitado para debates agravam o preconceito. “Acho que isso já deveria ter sido derrubado há muito tempo porque todo ser humano é igual e todos merecem ser tratados da mesma maneira.”

A estudante Bárbara Barbosa Lima, de 17 anos, conta que foi a um posto de saúde do Distrito Federal na última segunda-feira (17) e que, ao apresentar o pedido para a realização de um exame, foi ignorada pelo atendente. “Ele disse 'não vou fazer exame seu não'. Quando saí, uma amiga falou que o atendente tinha dito 'esse povo preto é tudo assim'”, relata.

Procurados pela reportagem da Agência Brasil, profissionais de saúde dos postos e hospitais visitados não quiseram se manifestar sobre o assunto.





Fonte: Agência Brasil

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