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Meio Ambiente
Sábado - 10 de Fevereiro de 2007 às 10:54

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Um estudo da mais antiga amostra de ADN humano disponível na América sugere que os seres humanos chegaram ao Novo Mundo há relativamente pouco tempo, apenas cerca de 15 mil anos atrás. O ADN foi extraído de um dente com idade de 10,3 mil anos localizado em uma caverna na ilha Prince of Wales, ao largo do costa sul do Alasca, em 1996.

A amostra representa uma linhagem anteriormente desconhecida para as pessoas que chegaram inicialmente à América. As conclusões do estudo, publicadas na semana passada pela edição online do "American Journal of Physical Anthropology", determinaram algumas hipóteses quanto à forma pela qual os descendentes dos homens das cavernas do Alasca podem se ter espalhado pelo continente.

Comparando o ADN localizado no dente a amostras obtidas de 3,5 mil indígenas americanos, os pesquisadores constataram que apenas 1% das amostras estudadas ofereciam padrões genéticos que podiam ser equiparados aos da amostra pré-histórica. Os espécimes que se enquadravam estão distribuídos na costa americana do Pacífico, tanto na América do Norte quanto na do Sul, da Califórnia à Terra do Fogo, o extremo sul do continente. Isso sugere que os primeiros americanos podem ter se espalhado pelo Novo Mundo usando uma rota costeira.

Brian Kemp, antropólogo molecular que trabalhou no seqüenciamento do ADN, diz que a descoberta sublinha a importância da pesquisa genética para a compreensão das migrações humanas. "Creio que haja muitas informações a obter desses esqueletos, e que elas possam nos ajudar a esclarecer a cronologia do processo de habitação da América, e talvez o ponto de origem dos indígenas americanos, na Ásia", afirmou Kemp, pesquisador na Universidade Vanderbilt, em Nashville, Tennessee.

A teoria dominante era a de que os primeiros moradores do continente descendiam de caçadores pré-históricos que percorreram a ponte terrestre de 1,6 mil quilômetros que no passado ligava a Ásia ao Alasca.

Essa migração provavelmente ocorreu pelo menos 15 mil anos atrás - os mais antigos restos humanos descobertos até o momento tem 13 mil anos de idade -, mas alguns cientistas suponham que os primeiros americanos podiam ter chegado ao continente até 40 mil anos atrás. O dente encontrado no Alasca estava em uma caverna conhecida como On Your Knees Cave ("caverna de joelhos"), o nome que lhe foi dado pelo primeiro pesquisador que entrou de gatinhas para estudá-la.

Usando material extraído do dente, Kent isolou fragmentos do ADN mitocôndrico (mtADN), que é transmitido pelas mães aos seus descendentes, e do ADN do cromossomo Y, que passa de pai para filho. Usando um banco de dados genéticos que contém amostras de 3,5 mil indígenas americanos, Kemp encontrou 47 indivíduos, na América do Norte e na América do Sul, que exibiam marcadores genéticos semelhantes aos do homem das cavernas.

Algumas das amostras foram extraídas de pessoas vivas, e outras de ossos antigos. Ele a seguir comparou o ADN do dente a amostras modernas correlatas, e mapeou as mudanças genéticas acontecidas ao longo do tempo. Ao medir o ritmo de mutação, Kemp concluiu que a chamada evolução molecular ¿processo pelo qual o material genético se altera com o passar do tempo- aconteceu entre duas e quatro vezes mais rápido do que antecipavam os pesquisadores quanto ao mtADN. Isso sugere, segundo Kemp, que os seres humanos chegaram à América nos últimos 15 mil anos, porque o ADN evoluiu rápido demais para que a chegada pudesse ter acontecido mais cedo.

"Eu diria que não havia seres humanos por aqui muito antes dessa data", afirmou Kemp. "Uma chegada há 15 mil anos também é muito mais consistente com os registros arqueológicos". Todas as linhagens de mtADN entre os indígenas americanos se relacionam às cinco linhagens fundadoras, supostamente originadas na Ásia. Mas o ADN do homem das cavernas do Alasca representava uma linhagem fundadora independente.

Das 47 amostras que apresentavam traços do ADN do dente, quatro eram de descendentes da tribo Chumash, que vivem ao longo da costa central da Califórnia. "A distribuição de pessoas que portam essa tipologia genética, hoje, cobre todo o oeste da América", disse Kemp. "Os indivíduos estão espalhados mais ou menos por toda a costa do continente. É uma distribuição muito clara".

John Johnson, arqueólogo e etno-historiador do Museu de História Natural de Santa Barbara, na Califórnia, recolheu as amostras da AFN dos chumash. Para Johnson, o fato de que haja correlação entre o homem das cavernas do Alasca e as amostras que colheu é prova indireta de uma antiga migração costeira que pode ter acontecido com grande rapidez.

"Estamos interessados em determinar quem foram as primeiras pessoas a chegar aqui, à costa do Pacífico", disse Johnson. "Acredito que os chumash descendam de uma migração costeira muito primitiva, que resultou na distribuição de pessoas até a ponta sul do continente". Mas de onde vieram esses migrantes costeiros? Amostras de ADN de pessoas que vivem no Japão e no nordeste asiático demonstram algumas das mutações genéticas encontradas no dente do Alasca e nas amostras dos chumash. "Creio que isso represente uma pista de que pode existir conexão genética", disse Johnson. Ele afirma que os ancestrais dos chumash podem ter desenvolvido técnicas de pesca antes de chegar à América.

"As técnicas de exploração de recursos costeiros são de fácil transferência, e isso talvez permita migração mais rápida do que no caso de pessoas que vivem da caça, as quais precisam se acostumar aos seus novos ambientes quando mudam de território", afirmou Johnson. "Creio que isso pode ter permitido uma migração rápida ao longo da costa pacífica da América".





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