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Cultura
Sexta - 24 de Fevereiro de 2006 às 10:18
Por: Luiz Zanin Oricchio

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São Paulo - Não há diálogos em Suíte Havana. Só imagem e música. E são esses elementos que bastam para emocionar o espectador no belo filme de Fernando Perez. Talvez seja seu trabalho mais perfeito, aquele em que encontrou a maturidade artística.

Quem conhece a obra de Perez sabe da sua consistência. No enérgico Clandestinos, mostra uma faceta pouco conhecida da revolução cubana, a luta urbana, sempre deixada em segundo plano diante da guerrilha rural na Sierra Maestra. Em Hello Hemingway, Perez começou a trabalhar seu tema preferencial: as expectativas do povo cubano diante da situação social difícil e às vezes crítica do seu país, e o desejo de evadir-se. Desenvolveu esse tema nos dilacerados Madagáscar e La Vida Es Silbar e, de certa maneira, retorna a ele, mais apaziguado, em Suíte Havana.

Aqui, o que se tem é a exibição entrecruzada das pequenas vidas de uma cidade como Havana. Vidas de pessoas que poderíamos chamar de deslocadas. Gente que leva existência dupla. Todos os personagens sonham com uma coisa e fazem outra. Há o menino com síndrome de Down e há o pai e o avô que desejam que a vida do garoto seja menos dura. Um sujeito que trabalha na lavanderia do hospital e à noite é travesti. Outro trabalha duro durante o dia e dança durante a noite. E assim por diante. Há o sonho de um lado, a realidade de outra. Um é colocado em contato com outro, mas não de maneira maniqueísta. Às vezes é com o real que se tecem os sonhos.

Sem palavras, vamos vendo uma relação crítica do artista com seu país. Perez sabe que as promessas da primeira hora da revolução foram traídas. Por isso seus personagens expressam algo que se encontra na Cuba real, o sentimento de que a ilha é um horizonte muito estreito e que às vezes seria preciso enfrentar o mar e deixá-la. Ao mesmo tempo, o sentimento de perda, e às vezes até de culpa, que esse desejo de evasão provoca. Perez trabalha sempre nessa tensão. E portanto evita o simplismo - essa praga do pensamento engajado, tanto de um lado como de outro.

O final dessa suíte, seus últimos 30 minutos, é quase uma obra-prima. Um momento muito especial de um cinema que se pode dizer político, sem que seja partidário.





Fonte: Agência Estado

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