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Ciência/Pesquisa
Terça - 14 de Fevereiro de 2017 às 09:09
Por: Veja.com

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Segundo os pesquisadores, estudos que ajudem a compreender quando e como as pessoas começam a praticar atos de corrupção podem trazer benefícios sociais cruciais. (iStock/Getty Images)
Segundo os pesquisadores, estudos que ajudem a compreender quando e como as pessoas começam a praticar atos de corrupção podem trazer benefícios sociais cruciais. (iStock/Getty Images)

Em um país onde escândalos de corrupção têm se tornado comuns e investigações como a Lava Jato parecem envolver todas as instâncias políticas, muitos brasileiros provavelmente se perguntam como um cidadão se transforma em um sujeito desonesto capaz de cometer tais atos. Cientistas já haviam tentado solucionar essa questão, mostrando que a mentira e a desonestidade podem ser estimuladas pela prática e, gradativamente, pequenos atos se tornam grandes crimes. Um estudo publicado recentemente, porém, avaliou o comportamento de quase cem pessoas durante um jogo envolvendo dinheiro virtual e concluiu que, quando uma boa oportunidade surge repentinamente, somos mais propensos a praticar atos de corrupção.

“Comportamentos antiéticos como a corrupção nem sempre surgem gradualmente, mas, às vezes, ocorrem de maneira abrupta, espontânea e inesperada”, afirmou Nils Köbis, da Universidade Livre de Amsterdã, na Holanda, líder do estudo, em comunicado. “Especialmente quando as decisões aparecem em rápida sucessão, as pessoas podem ser relutantes em praticar corrupção repetidamente e preferir aproveitar os benefícios de formas maiores de corrupção em um ato único.”

Oportunidade de “ouro”

A teoria mais aceita pelos pesquisadores a respeito da corrupção é que esse tipo de comportamento se desenvolve como uma “slippery slope”, expressão do inglês que corresponderia a algo como “ladeira escorregadia”. Esse termo costuma ser utilizado na área da psicologia para fazer referência a um pequeno desvio no comportamento, considerado moralmente aceitável, que começa a ser usado como desculpa para praticar atos cada vez maiores.

Partindo dessa ideia, Köbis e sua equipe levantaram a hipótese de que o comportamento corrupto poderia também ser acionado quando alguém encontra uma “oportunidade de ouro” — que definiram como uma circunstância única que poderia se converter em benefícios imediatos. Em outras palavras, uma chance que parece boa demais para ser desperdiçada. Os pesquisadores decidiram, então, testar as duas teorias em uma série de quatro estudos.

No primeiro, 86 estudantes participaram de um jogo com cinco rodadas. Em cada uma delas, dois competidores assumiam o posto de chefe executivo de construtoras concorrentes e recebiam um orçamento de 50.000 moedas virtuais cada. O objetivo era negociar uma licitação de 120.000 moedas virtuais com um terceiro jogador, que representava um oficial público e assinaria o contrato que tivesse a maior oferta. Se as ofertas eram iguais, os participantes dividiam o prêmio no meio. Porém, apenas um dos jogadores era um participante real – tanto o outro competidor que fazia as ofertas quanto o funcionário público eram computadores.

Os participantes também tinham a opção de subornar o oficial público. Um dos grupos foi apresentado a uma oportunidade única, na qual poderiam oferecer uma viagem paga em troca da garantia da vitória. Já ao outro foi dada a chance de oferecer primeiro um jantar com tudo pago, que aumentava em apenas 50% suas chances de conseguir a licitação, para depois ter a oportunidade de oferecer a viagem. O custo total de ambas opções era o mesmo, a diferença estava apenas no caminho que eles poderiam fazer para conquistar a vitória – um ligeiramente mais longo que o outro.

Os resultados mostraram que as pessoas eram muito mais propensas a praticar o suborno quando a oportunidade de garantir a vitória aparecia logo no primeiro momento. O mesmo padrão foi observado nos outros três estudos, que testaram o mesmo jogo com algumas alterações, incluindo uma terceira opção de suborno menos grave, substituindo todas as máquinas por participantes reais ou oferecendo dinheiro real em proporção ao número de vitórias dos jogadores.

Segundo os cientistas, os participantes alegaram ter conhecimento da transgressão moral envolvida no ato de corrupção, classificando o oferecimento de um suborno de maior dimensão como algo mais grave do que formas menores de suborno ou não oferecer nada.

Corrupção inesperada

Os resultados da pesquisa foram surpreendentes para os pesquisadores, pois contrariam a ideia de que a desonestidade se fortalece com a prática de pequenos atos.

“Considerando que a corrupção traz muitos efeitos negativos para a sociedade em todos os países do mundo, pesquisas que ajudam a compreender quando e como as pessoas começam a praticar esses atos podem trazer benefícios sociais cruciais”, afirma Köbis. “Com a ajuda de mais estudos nesse tópico e o intercâmbio de conhecimentos entre profissionais e acadêmicos, no futuro essas situações poderiam ser identificadas e, assim, medidas preventivas poderiam ser designadas.”





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