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Sexta - 20 de Outubro de 2017 às 09:07
Por: Maria Carolina Maia/Veja.com

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Gloria Perez (Mauricio Fidalgo/TV Globo)
Gloria Perez (Mauricio Fidalgo/TV Globo)

A Força do Querer teve os dois pés no Brasil — e pouco levantou voo, como são chamados por fãs e críticos aqueles momentos em que a autora, Gloria Perez, parece pedir licença à realidade. Ainda assim, para Gloria, a trama que termina nesta sexta-feira com a maior média de uma novela das 9 da Globo em quatro anos, de 36 pontos na Grande São Paulo, pouco difere das anteriores. “Me interessa falar da dificuldade em aceitar as diferenças: nas outras novelas, fiz isso opondo culturas”, diz. “O importante no mundo de hoje, onde a xenofobia alcança proporções insuportáveis, é falar de tolerância à diversidade. Aqui, no Brasil, é isso que nos divide: a intolerância.”


Mas não só de tolerância falou A Força do Querer. A novela acertou ao apostar em duas histórias reais polêmicas — a da Bibi Perigosa e a de Ivan-Ivana, personagem inspirada em diversos transgêneros entrevistados pela autora — e misturá-la aos triângulos amorosos e traições de sempre, num ritmo ágil que tanto fez falta à antecessora, Velho Chico.

Bibi e Ivan trouxeram temas fortes e quentes de volta ao horário nobre: o tráfico de drogas, a sedução pelo poder, o papel da polícia e do Estado na segurança pública. É sobre isso tudo — e também sobre Fiuk, em quem ela vê “empenho” apesar das fortes críticas que recebe, que Gloria Perez fala a VEJA, na saideira de A Força do Querer.

A Força do Querer é a novela de maior audiência e repercussão nos últimos anos. Na sua opinião, o que afastou o espectador das novelas? O brasileiro nunca se afastou das novelas. Se alguma não cai no gosto popular, o tamanho da reclamação que surge é a medida da ligação que o brasileiro tem com o gênero. Em A Força do Querer, como nos outros trabalhos, busquei tocar a dimensão humana, falar de tolerância, divertir, emocionar, convidar à reflexão. Mas tive a preocupação de fazer uma novela solar, alegre, porque entendo que, em épocas de crise, as pessoas precisem mais do que nunca dessa catarse.

Suas novelas já foram criticadas por se dividirem entre o Brasil e outro país. Ficar com os dois pés no Brasil foi um acerto? Essa não é a percepção do grande público, que se identifica com o humano e não com paisagens. Sempre foi assim: em novelas, em séries, em filmes, na literatura. O resto é xenofobia. Essas são críticas de um nicho, nunca levei a sério. Ainda bem: O Clone, por exemplo, me deu um nome no mercado internacional, e Caminho das Índias foi nossa primeira novela a ganhar um Emmy. Aliás, em nenhum outro lugar se critica um autor por mostrar o que existe além. Mesmo entre povos mais voltados para o próprio umbigo, como os americanos. Estão aí Sense 8, Homeland e outras séries e filmes para atestar. Me interessa falar do humano, e a condição humana não conhece fronteiras. Me interessa falar da dificuldade em aceitar as diferenças: nos casos que citei, falei disso opondo culturas. O importante no mundo de hoje, onde a xenofobia alcança proporções insuportáveis, é falar de tolerância à diversidade. Aqui, no Brasil, é isso que nos divide: a intolerância.


Em 1984, a senhora quis fazer uma série inspirada no livro de João Nery, talvez o primeiro transgênero, ao lado de Roberta Close, a ganhar notoriedade no país, mas, como disse no Twitter, o projeto foi considerado inadequado na época. O que, na sua opinião mudou de lá para cá na sociedade? E era mesmo inadequado para época. Se a compreensão hoje é difícil, imagine naqueles anos 80. Não se sabia nada sobre transgêneros. João Nery foi o primeiro trans brasileiro a assumir essa condição, e suas cirurgias foram feitas na clandestinidade, sua documentação teve de ser falsificada em um cartório. Ele conta isso no livro que escreveu. Penso que o que fez diferença mesmo foi a luta dos movimentos LGBT.

Muitos autores se queixam do politicamente correto, que seria uma espécie de censor. Não seria graças a ele, pela preocupação em proteger minorias, que discutimos temas como a transexualidade? O politicamente correto tem sido um disfarce para a intolerância e a hipocrisia. Quem tem realmente respeito pelo ser humano não precisa aprender uma língua para falar disso. Respeitar o outro exige tolerância com as diferenças, e tolerância é algo que se tem ou não se tem. Não se aprende em cartilha. Em nome do politicamente correto, tem se cometido verdadeiras atrocidades, como trocar a letra das músicas infantis, corrigir a obra de grandes autores, engessar a criatividade e a diversidade humana em um modelo de cidadão ideal. Tenho medo.

Silvio de Abreu disse que o segredo para abordar um tema polêmico em uma novela é chegar até ele aos pouquinhos, como tem sido com a Ivana. A senhora concorda? Concordo. Há que se construir, primeiro uma empatia da personagem com o público.

Gloria Perez

Gloria Perez (Mauricio Fidalgo/TV Globo)

Uma das tramas que mais fez sucesso em A Força do Querer é mais velha que o próprio gênero: o marido que trai a mulher. Por que, na sua opinião, o assunto não perde força? Porque os sentimentos humanos são os mesmos desde que a humanidade está sobre a face da Terra. As paixões humanas foram retratadas nas literaturas da Antiguidade e vão continuar sendo, mesmo quando pudermos passar o fim de semana em algum dos planetas que nos cercam. Por isso, continuamos nos emocionando com a tragédia grega, com toda a dramaturgia de épocas e de culturas distantes.

Há atores com que a senhora faz questão de trabalhar? Todos os autores – diretores também – têm atores com quem gostam de trabalhar. São atores que leem bem o seu texto. Gosto de atores viscerais, que vestem, sem crítica, a pele das personagens.

A senhora ficou magoada com a Vera Fischer, que se queixou de aparecer sempre sentada em Salve Jorge? Fiquei magoada, sim. A Vera fez uma das personagens mais queridas da minha carreira, a Saninha, de Desejo (minissérie sobre Euclides da Cunha). Sempre tive muito carinho por ela. Em Salve Jorge, ela estava atravessando uma fase difícil, e sabe bem porque teve de ser como foi. Mas passou. Não guardo mágoas desnecessárias.

Fiuk vem sendo bastante criticado pela atuação. A senhora acha que, apesar de iniciante, ele seja dedicado? Eu vejo, eu tenho acompanhado o empenho dele. Num papel maior como esse, e cercado de atores com tanta estrada, é claro que a inexperiência dele ressalta. Mas nada que justifique a crueldade com que vem sendo tratado. Outros atores passaram por esse corredor polonês e hoje são muito bem aceitos.

Pelo Twitter, seguidores a criticaram por dar destaque à trama de Bibi (Juliana Paes), uma personagem real que decai ao entrar para o mundo do tráfico, por amor ao marido. Por que a senhora escolheu contar essa história? A história da Bibi me interessou pela perspectiva nova que oferece. Já falamos do tráfico do ponto de vista da polícia e do ponto de vista do traficante. O livro dela é o ponto de vista da mulher do traficante. São mulheres que se envolvem nesse universo atraídas pelo fascínio das armas, do dinheiro, do poder, acabam fazendo um favorzinho aqui e outro ali para agradar o homem, e terminam processadas ou na cadeia – sozinhas, enquanto eles tocam a vida adiante. As estatísticas mostram que a maioria da população carcerária feminina chegou lá por esse caminho. Acredito que essa história, que retrata uma experiência da vida real, seja um bom alerta para quem está trilhando ou pensando trilhar esse caminho.

Mas as críticas incomodam? Esse é um comentário de quem não assiste à novela e não sabe nada sobre minha pessoa. Meu comprometimento sempre foi com a justiça, com a valorização da instituição da polícia e tolerância zero para o crime. Essa é uma posição que defendo, de público, ao longo dos anos. Por isso, quis homenagear o melhor da instituição em A Força do Querer, mostrando uma polícia bem diferente da maneira como é tradicionalmente mostrada em nossa dramaturgia. Temos a protagonista Jeiza, que personifica a policial honesta e valorosa, integrante do BAC (Batalhão de Ação com Cães), e a personagem Caio, assessor do Secretário de Segurança, através de quem mostramos as dificuldades que a instituição enfrenta nas tentativas de dominar o tráfico, em função da ausência do Estado e da fragilidade das leis. Visitei batalhão, ouvi histórias de policiais mulheres, troco mensagens com elas e com escalões mais altos, para poder passar, através da novela, as denúncias e reivindicações da instituição e da classe.

Ainda é possível vencer o tráfico ou essa é uma guerra perdida? Claro que é possível, mas polícia nenhuma do mundo seria capaz de fazer isso sozinha, sem a participação do Estado e dos legisladores. A polícia abre caminho. Mas, se o Estado não entra com serviços básicos, capazes de promover a real integração daquelas comunidades, nada acontece. Foi assim no Complexo do Alemão. Quando escrevi Salve Jorge, vivi e vi o entusiasmo dos moradores, acreditando que estavam resgatando a cidadania, depois de tantos anos sob o domínio de criminosos. Houve a ocupação, mas o Estado não fez sua parte, e é o que estamos vendo. Nossa polícia tem enxugado gelo, e ai de nós se deixar de enxugar. Penso que outro aspecto – e essa é uma das heranças mais danosas da ditadura – é a desvalorização da instituição da polícia. A prisão de presos políticos junto a presos comuns criou uma falsa sensação de que toda repressão seja maléfica e abusiva. A tendência foi o afrouxamento das leis e a vitimização dos criminosos. Uma coisa é reprimir pensamento, liberdade de expressão, e outra bem diferente é reprimir o crime.

O fim do tráfico passa pela liberação das drogas? É uma questão complexa. É claro que a maconha, tendo utilização medicinal, deva ser considerada um caso à parte. Agora, drogas mais pesadas… não sei. Há o argumento de que essa liberação sufocaria o tráfico. Mas isso também não seria enfrentar a criminalidade pela raiz, porque essas quadrilhas logo estariam voltadas para outras modalidades de crime. Não tenho informação suficiente para ter uma posição clara a respeito do assunto.

Suas tramas também são marcadas pela musicalidade e pela dança. A senhora gosta de dançar? A dança é uma das formas de expressão mais bonitas do ser humano. E a gafieira, uma tradição muito carioca. Gosto de contribuir para sua preservação, e faço isso dando visibilidade a ela nas minhas novelas. Sim, adoro dançar. E desde os anos 80 sou madrinha da Gafieira Estudantina – com faixa e tudo.

Gloria Perez

Gloria Perez (Mauricio Fidalgo/TV Globo)

A trama da modelo plus size foi adiada pelo sucesso de histórias como a de Ivan? Não, a trama não foi adiada, e estamos sempre nos referindo a ela. E uma das faces da campanha é dar a uma atriz com esse biotipo a oportunidade de participar da trama sem que esteja ali unicamente em função de seu biotipo.

Muito se fala hoje sobre a influência das séries nas novelas. Na sua opinião, nossas novelas também têm o que ensinar aos americanos? As séries só se tornaram tão populares depois que incorporaram as regras do folhetim. A partir de Lost, elas adotaram a estrutura das novelas: o arco narrativo ganhando continuidade através das temporadas, a inclusão das tramas paralelas, a busca permanente do impacto emocional característico do melodrama, a supremacia do sensacional sobre a coerência. E porque são apresentadas no formato de temporadas, de maneira mais concisa do que se faz nas novelas. As novelas buscam capturar o cotidiano, e têm o ritmo de seu tempo. Elas se incluem na rotina do espectador e compartilham com ele o seu dia a dia. E, enquanto a série atende ao gosto de nichos – fãs de séries policiais, vampiros, médicos, etc. etc., as novelas abrem um leque maior: jogam isca para todos os gostos.

A tragédia pessoal que a senhora enfrentou, com a perda da sua filha, a tornou uma especialista em criar tipos psicopatas, como o Edu, da série Dupla Identidade, e a Irene, personagem de Débora Falabella, que manipula Joyce (Maria Fernanda Cândido) para roubar dela o marido, Eugênio (Dan Stulbach)? A Irene é uma pessoa má. O Edu de Dupla Identidade era um psicopata. Nem todos os psicopatas matam, aliás a maioria deles não mata ninguém fisicamente. No Edu, eu quis mostrar o serial killer, aquela pessoa que tem a compulsão de matar, como Silvana tem a compulsão de jogar, como alguém tem a compulsão pelas drogas, pelas compras, pelo sexo. Fiz Dupla Identidade porque, se queremos fazer séries, o policial é um gênero que não poderia faltar. E ainda não tínhamos mostrado o trabalho da inteligência da polícia nem a figura do serial killer, que é a personagem mais propícia a séries policiais. Tanto que está em quase todas elas. A inspiração para o Edu foi o serial killer americano Ted Bundy.

Dupla Identidade foi uma série bastante elogiada. Ela pode voltar em uma segunda temporada? Dupla Identidade nasceu da observação de que era um gênero que faltava no nosso cardápio: o policial que abordasse o trabalho de inteligência da polícia. Que fugisse daquele estereótipo da polícia corrupta e grosseira. A ideia sempre foi que outros escritores e diretores dessem continuidade a isso. Meu DNA é de novelas.





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