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Comportamento
Sábado - 13 de Abril de 2019 às 10:30
Por: Isabela Mercuri/Olhar Direto

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Cristiane em frente à casa onde morava, que hoje não tem mais telhado
Cristiane em frente à casa onde morava, que hoje não tem mais telhado

Pode ser que você já tenha visto compartilhados no Facebook alguns vídeos de uma cuiabana que fala ‘arrastado’ sobre os problemas do dia a dia, sempre com bom humor. A história por trás de ‘Cris Cuiabá’, como ficou conhecida nas redes sociais, no entanto, é muito mais bonita e dramática do que pode parecer. A pescadora que nasceu no Sucuri e hoje tem três filhos enfrentou a depressão, pensamentos suicidas e perdeu tudo antes de encontrar um propósito e ver que, por meio da internet, poderia rir de si mesma. “Eu não me acho engraçada, eu não gosto dos meus vídeos, não me considero uma humorista. Eu sou uma pessoa que procuro enfrentar com humor meus desafios do dia a dia”, é como ela própria se define.




Cristiane Maria Soares Dávila nasceu há 39 anos em Cuiabá, pelas mãos de uma parteria. É filha de pai e mãe pescadores. Seguiu o mesmo destino. Na infância e adolescência, vivia entre o Sucuri, onde ficava o acampamento de seus pais, e algumas casas no Ribeirão do Lipa, para onde iam principalmente na época de chuvas, quando as águas cobriam a ilha.

Casou-se pela primeira vez aos 18 anos, foi morar em um grilo, e foi deixada pelo marido quando o primeiro filho tinha um ano e onze meses. Abandonada, voltou para a ilha, onde tempos depois conheceu o segundo marido, com quem vive até hoje. Sua rotina era sempre a mesma: pescar e roçar, e procurar onde ficar na época das chuvas. Quando engravidou pela segunda vez, no entanto, ficou desesperada e, religiosa como é, decidiu falar com Deus. “Eu falava: ‘Senhor, como eu vou ter um filho aqui? Quando chega a época da enchente a água passa por cima da ilha, e a minha filha vai nascer justamente nesse período...’ Na minha cabeça eu queria que Deus desse um jeito, mas não sabia qual era esse jeito”.



A resposta também foi inesperada. “Um dia eu estava carpindo e orando, e veio uma impressão muito forte na minha cabeça, dizendo assim: ‘antes da sua filha nascer eu vou te dar uma casa’. E eu comecei a gargalhar, parei com a enxada, falei: ‘agora, pronto. Fiquei louca, to escutando até vozes’”.



Com aquela certeza na cabeça, Cristiane conseguiu, de repente, conversar com quem era, na época, responsável pela secretaria de habitação do município. Ele estava em uma escola próxima à casa de sua mãe, e não hesitou em atendê-la. “Eu falei: moço, eu estou gestante, como o senhor está vendo. Eu moro numa ilha, e essa ilha fica no Sucuri. Mas acontece que agora em março e abril as águas passam por cima da minha ilha, e a minha filha vai nascer, e eu não tenho pra onde ir. Eu quero que o senhor me dê uma casa, mas essa casa tem que ser no sucuri porque eu não vou abandonar minha ilha, porque eu sou pescadora, eu dependo dela. Ele parou e falou: não tem mais casa no Sucuri... mas eu vou te dar uma”. Em menos de uma semana, ela já estava dentro da casa com sua família.



Quase tudo na vida de Cristiane aconteceu desta forma inesperada, mas com muita prece e oração. Foi assim que ela conseguiu comprar um carro, mobiliar sua casa. Foi assim que o marido conseguiu se tornar carpinteiro, e depois empreiteiro. E foi assim que ele foi convidado para trabalhar em Manaus.



Cristiane (Foto: Olhar Conceito)



Desmoronamento



Cristiane decidiu apoiar o marido e ir com ele e os três filhos para Manaus. Para isso, tiveram que vender o carro e todos os móveis, e ela cedeu o cômodo dos fundos de sua casa para que sua mãe morasse. Chegando à capital do Amazonas, as notícias ruins não demoraram a chegar.



A primeira foi a notícia da morte do avô de Cristiane, aos 94 anos. A segunda, seis dias depois, foi a morte da avó. “Eu nunca imaginei. Eu achava que eu ia morrer e ela ia estar viva... porque pensa numa mulher forte, guerreira, trabalhadeira, atravessava aquele rio no remo, roçava, carpia e tudo mais. Eu tinha uns projetos de passear com ela, ir pra Barra do Bugres, porque ela disse que nunca tinha passeado. E eu tinha uma ligação forte com a minha avó, e meu chão começou a desabar”, lembra.



Oito dias depois da avó, um tio de Cristiane foi assassinado pela esposa. “Passou oito dias, o telefone tocou. Eu juro que eu sabia que era um ‘troço’, mas não sabia o que. E a mulher do meu tio matou meu tio. Era meu tio Mário, o meu tio que tinha todo problema na vida, mas era o que eu mais amava. Quando eu ouvi isso, as coisas se transformaram dentro de mim. A minha vida já não era mais vida”.



Sem poder vir para o sepultamento dos familiares, sem amigos e parentes por perto, Cris viu a vida desabar aos poucos. Seus filhos sofriam bullying na escola por causa do sotaque, e não queriam mais ficar naquela cidade. Depois das férias de dezembro na capital de Mato Grosso, os pequenos decidiram não voltar para a casa dos pais.



“A minha família foi o único sonho que eu tive na vida. Eu nunca tive sonho de ser rica, de nada. Desde criança eu via estrela cadente e pedia: eu quero ter uma casa, um carro, um marido que me ama e três filhos. Então eu fiquei desesperada. Eu os entendia eles, mas eu tinha que pegar meus filhos de volta”. Não deu certo. Com a ajuda da irmã, Cristiane até veio para Cuiabá tentar buscá-los, mas eles não quiseram ir.



Cristiane e a filha mais nova, Michele (Foto: Olhar Conceito)



“E as coisas em Manaus começaram a desandar, as coisas desmoronaram entre nós, em relação à minha vida pessoal, meu marido andou fazendo umas coisas... enfim, ele acabou com tudo. Com tudo”, lamenta. Enquanto estavam no Amazonas, o marido ainda mandou tirar todo o telhado da casa de Cuiabá, porque queria construir uma laje – que até hoje não veio.



Como ficou a casa de Cristiane (Foto: Olhar Conceito)



“Nesse período eu tive meus primeiros sintomas de depressão. Eu não sabia que era depressão, mas eu chorava o dia todo, eu não tinha paz. Sentia uma dor muito forte nas costas, parecia que alguém tinha colocado uma espada que tinha transpassado das minhas costas para o meu peito, e tinha criado uma cratera dentro de mim. Então eu puxava o ar, e acho que por conta dessa cratera, ele não era suficiente. E aquilo doía tanto, tanto, que me desesperava. Ai eu comecei a não dormir, eu passava dias e noites em claro andando na casa, matando mosquito, chorando... e não tinha sossego. Às vezes eu saía andando e chorando por Manaus, porque parecia que em algum lugar eu ia desaparecer e ia acabar aquela situação dentro de mim. Mas pras pessoas eu tinha que estar bem pra segurar na mão do meu marido, apesar das cagadas que ele fez. Porque eu tinha duas escolhas: ou matava ele, ou ficava junto dele. E como a família foi meu único sonho, eu optei pela família”, lamenta.



De volta a Cuiabá



Cristiane acreditava que quando voltasse para Cuiabá, para perto de sua família, as coisas melhorariam. Mas não foi assim. Por aqui, tiveram que morar em uma edícula sem paredes, onde moram até hoje. Quando chove, a água chega até as canelas, e uma ‘cachoeira’ cai bem em cima da cama das crianças. Como não tinham nada, pegaram emprestados os móveis da mãe de Cris, e aos poucos conseguiram ganhar dois colchões.



Espaço onde vivem Cristiane, os filhos e o marido (Foto: Olhar Conceito)



Mesmo perto da família, a tristeza de Cristiane não passou. Os pensamentos suicidas eram frequentes, e seu maior medo, à época, era que os familiares ficassem com a dívida do sepultamento e do jazigo. Então decidiu: iria morrer longe para ser enterrada como indigente.



“A minha vida não estava valendo mais nada, porque eu me tornei uma pessoa diferente do que eu era. De uma mãe muito amorosa, muito atenciosa, de uma boa esposa, eu me tornei uma pessoa agressiva, nervosa, explosiva, e isso me incomodava muito, me entristecia muito. Como que eu, que sonhei em ter família, não tenho paciência com meus filhos? Eu não gostava de fazer mais nada, o serviço de casa me fazia me sentir uma pessoa sem valor. A minha ilha está abandonada. Tudo aquilo que me deu prazer um dia, que eu amava, deixou de existir. Não tinha mais graça”, lembra.



As pessoas em sua volta também não ajudavam. “As pessoas pioram a gente. Elas falam assim: ‘nossa, mas você é tão nova, tão bonita, não cheia de vida... tem gente que passa pior, que não tem nem o que comer e você tem! Tem gente que não tem família, tem gente que está no hospital morrendo...’ e eu me sentia pior. Parecia que eu estava cavando um buraco e precisando só que me empurrassem pra dentro dele, e o povo vinha e me empurrava. Eu pensava: eu sou tão inútil que não consigo sair dessa. Porque as pessoas também falavam que eu não melhorava porque não queria”.
Nesse desespero, ela decidiu tentar uma última chance. Iria para Sorriso encontrar o pastor Johnny Ojeda. Se ele não pudesse ajudá-la, pegaria um ônibus para mais longe e colocaria em prática seu plano de morrer como indigente. Ela foi, mas não deu certo. Pelo Facebook, sua irmã conseguiu ver sua conversa com o pastor, pediu ajuda para uma psicóloga para quem ela fazia faxina, e, assim, Cris ouviu pela primeira vez que estava em depressão.



“Minha irmã falou pra mim: Cristiane, não faz nada. Você está em depressão. Eu conversei com a doutora, ela já conversou com uma psiquiatra. Vem embora para casa, que ela já marcou a consulta pra você na segunda-feira. Isso é um problema sério, não faça nada com sua vida, porque você está doente”.



Com ajuda da irmã e do pastor, ela começou o tratamento. A psicóloga e a psiquiatra aceitaram atendê-la gratuitamente, e a melhora veio aos poucos. Até que a família começou a se incomodar. “As pessoas ficavam assim: você tem que parar com isso, vai ficar dependente de remédio... e aquilo confundia minha cabeça. Meu marido mesmo era um deles. E aí eu decidi parar”.



Quando parou com os remédios por conta própria, os pensamentos voltaram para sua cabeça. Inclusive os pensamentos suicidas. Num destes dias, Cristiane saiu de casa decidida em se matar, mas quis se despedir do marido, que agora já estava com uma lojinha onde arrumava celulares e tablets.



“Na hora que eu cheguei meu marido falou: querida, ainda bem que você chegou aqui. Vieram umas peças erradas e a cliente vai chegar daqui a pouco pra pegar o celular, fica aqui pra mim que eu já volto”. Como tinha que esperar, Cristiane pegou um santinho de um político que passou e, de brincadeira, começou a lê-lo em um vídeo. E publicou.



“Eu publiquei, e um minuto depois já veio gente elogiar. E aquilo foi me entretendo. Meu marido chegou, e eu perdi o foco do que eu ia fazer. Decidi esperar para ver o que ia dar a eleição do candidato, e comecei a fazer vídeos. Fiz vários vídeos pra ele. E eu continuei... eu descobri que é algo que é muito natural pra mim. E desde então eu tenho me sentido melhor, tem me acalmado”.



‘Cris Cuiabá’, hoje, tem canal no Facebook, no Youtube e no Instagram, e já faz algumas parcerias. Ela ainda mora na edícula sem paredes com seus filhos e seu marido, e enfrenta os sintomas da depressão no dia a dia, mas tem melhorado. A casa que ganhou continua sem o teto, mas ela ainda tem esperanças: “Por muito tempo eu olhei pra isso aqui e via, ao vivo, como eu estava por dentro. Destruída, destroçada. Agora eu olho e penso: vai melhorar. Como? Só Deus que sabe”, profetiza.





Serviço



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