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Economia
Sábado - 14 de Janeiro de 2012 às 14:37
Por: ELEONORA DE LUCENA

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O Brasil precisa de uma produção em massa como uma estratégia de desenvolvimento social e nacional. Se houver um consumo em massa no Brasil e a produção em massa na China, o modelo não se sustentará. A avaliação é do economista Ricardo Bielschowsky, 62, professor da UFRJ, especializado em temas sobre desenvolvimento.

Ex-diretor no Brasil da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), ele faz o prefácio de "O Manifesto Latino-Americano e Outros Ensaios" (Centro Internacional Celso Furtado/Contraponto), que reúne escritos de Raúl Prebisch. O texto principal do livro foi apresentado em 1949 numa conferência em Havana.

Rompendo com as maneiras de pensar importadas da Europa, o argentino Prebisch inovou. Criou o conceito de "centro e periferia", formando o embrião das análises que enfatizam as relações desiguais de dependência que oprimem o desenvolvimento da região. Ergueu a Cepal e influenciou gerações de economistas.

Nesta entrevista, Bielschowsky, autor de "Pensamento Econômico Brasileiro: O Ciclo Ideológico do Desenvolvimentismo" (Contraponto, 1995), fala da atualidade da obra do economista e dos desafios do país. Os pontos:

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PREBISCH HOJE
Em boa hora o Centro Celso Furtado e a Editora Contraponto estão publicando em português a coletânea que Adolfo Gurrieri organizou da obra de Raúl Prebisch, porque contém clássicos do autor na Cepal e outros de seus ensaios. E porque seu pensamento é muito atual. A América Latina, mesmo tendo progredido bastante desde que saiu o "Manifesto Latino-Americano", é uma região em que continuam predominando várias das características assinaladas por Prebisch, Furtado, e seus seguidores. Continuamos com um Estado e um empresariado pouco vocacionados ao investimento e ao progresso técnico. Não nos desfizemos da heterogeneidade estrutural, produtiva e social e, consequentemente, da pobreza e da má distribuição da renda. E continuamos com excessiva especialização em recursos naturais e insuficiente diversidade exportadora, um quadro agora fortalecido por uma certa "reprimarização" da atividade econômica, no sentido de redução da participação da indústria no PIB.

REPRIMARIZAÇÃO
Aparentemente não está havendo do ponto de vista de participação de mão de obra industrial na ocupação total. Mas tem havido preocupante queda na participação do PIB industrial em relação PIB total e forte deterioração na balança comercial do setor industrial, resultantes de insuficiente inovação, da concorrência chinesa e asiática em geral, e de valorização cambial. É algo bem desfavorável ao desenvolvimento brasileiro, num quadro geral relativamente promissor da economia brasileira a longo prazo.

OTIMISMO
Ninguém pode estar perfeitamente otimista nas condições atuais em que se encontra a economia mundial. No entanto o que tenho dito ultimamente é que o Brasil tem o privilégio de possuir ao mesmo tempo três poderosas frentes de expansão, três motores básicos do investimento, que poucos países do mundo dispõem.

MOTORES
Os motores são: mercado interno de consumo de massa, forte demanda por nossos abundantes recursos naturais, e perspectivas favoráveis quanto ao investimento em infraestrutura (produtiva e residencial). Pode-se contar nos dedos de uma mão os países que dispõem simultaneamente desses três motores.

TECNOLOGIA DE PONTA
Esse motor nós infelizmente ainda não temos. Ou seja, essa ainda não é uma frente de expansão "per se" da economia brasileira. Isso é privilégio de alguns países desenvolvidos. E, ao que tudo indica, deverá vir a ser crescentemente também da China. Mas isso não significa ficar parado em matéria de inovação e de investimentos em segmentos selecionados de alta intensidade tecnológica. Eles serão responsáveis por turbinar os três motores que possuímos, porque permitirão aproveitar a contribuição potencial dos encadeamentos produtivos acionados pelos três motores. Quanto mais se conseguir aumentar a agregação de valor nessas cadeias produtivas --algumas das quais podem perfeitamente incluir processos inovativos de fronteira tecnológica-- tanto maior será nosso desenvolvimento. Se o esforço for para valer, mais à frente a inovação poderá tornar-se um motor em si mesmo, e uma evidência de maturidade e autonomia para crescer da economia brasileira.

ESTRATÉGIA
Vamos começar com o crescimento com redistribuição de renda pelo mercado interno de consumo de massa. O Programa de campanha de Lula em 2002 já o defendia e o Plano Plurianual 2004-2007, publicado em 2003, propunha-o como estratégia de desenvolvimento para o país. Como sabemos, o mercado de massa se afirmou no Brasil, e os empresários do setor produtivo aprenderam, finalmente, que podem ganhar muito dinheiro com redução da pobreza e melhoria distributiva. Aliás, nunca entendi por que os governos Lula e Dilma não divulgam que o anunciaram como estratégia de desenvolvimento nos documentos daquela época, já que se tornou uma realidade.

PRODUÇÃO E CONSUMO DE MASSA
O modelo se baseia no impulso ao aumento de produtividade derivado dos ganhos de escala, e no fato de que são as empresas modernas que produzem em grande escala para os pobres --assim como para os ricos.

PRODUÇÃO INTERNA x IMPORTAÇÃO
O que ainda não está claro no país é se a produção em massa estimulada pelo consumo de massa será feita no país, ou se teremos consumo de massa no Brasil e produção em massa na China. Se for desse jeito, o modelo não se sustentará. É preciso haver, também, produção em massa no Brasil. É uma estratégia de desenvolvimento ao mesmo tempo social e nacional. Requer a produção no país de parte substancial dos encadeamentos produtivos geradores dos bens e serviços do consumo de massa, inclusive com a recuperação da capacidade de nossa indústria de bens de capital, a ampliação da produção de insumos eletrônicos e da produção nacional dos princípios ativos para a farmacêutica etc. Aliás, isso ajudará uma nova diversificação de nossa pauta de exportação. Sempre fomos bons exportadores do que produzimos bem para o mercado interno, tal como ocorre em países de mercado interno amplo. Aumentar as importações será, é claro, sempre necessário, como consequência do crescimento. Mas o segredo é importar bens e serviços da fronteira tecnológica que não tivermos condições de produzir localmente. E não serão em pequeno volume, porque o progresso técnico mundial é intenso e veloz.

RECURSOS NATURAIS
O raciocínio com relação à produção local é análogo. Somos abundantes em recursos naturais --terra, água, sol, energia. Isso, nesta era de forte expansão do consumo asiático, pode, em princípio, implicar espetaculares ganhos a médio e longo prazos para o país. Mas para isso nossas atividades baseadas em recursos naturais não podem ser meros enclaves, de onde saiam as matérias primas sem deixar rastro de emprego, progresso técnico e bem-estar social. Precisamos produzir no país parte considerável das máquinas, sementes e demais insumos agrícolas, os equipamentos e os serviços de alta densidade tecnológica para extração de petróleo e produção de etanol, e para geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, assim como a ciência, a tecnologia e a inovação correspondentes à nossa biodiversidade, e assim por diante.

AMEAÇAS
Esse não é o único desafio à nação trazido pela abundância de recursos naturais para uma estratégia de desenvolvimento. Há pelo menos outros três. Primeiro, a ameaça de compra de terra e do acesso a energia e a metais pela China e pelas outras potências mundiais. Se deixarem eles compram todo o território nacional, do Oiapoque ao Chuí. Segundo, a pressão que o aumento do uso de recursos naturais exerce sobre a natureza e a sustentabilidade ambiental precisa ser controlada. O terceiro desafio é o da absorção pelo setor privado ou por interesses públicos menores dos ganhos originados pela valorização dos preços dos bens e serviços baseados em recursos naturais. A propósito, sigo na torcida para uma boa solução para o petróleo do Pré-Sal. Lamento que a Vale tenha sido privatizada sem um resguardo mínimo dos interesses nacionais. Queremos bem mais do que simplesmente exportar ferro e gerar lucro para os acionistas da Vale.

INFRAESTRUTURA
É um motor do crescimento porque movimenta uma quantidade gigantesca de recursos e de emprego e porque gera externalidades para o setor privado e a economia como um todo. Mas, como nos dois outros casos, a potência desse motor depende das atividades que desencadeia no seu entorno. Há inovações e encadeamentos demandados pelo investimento em infraestrutura que vão desde coisas relativamente simples do ponto de vista tecnológico, como a "conteinerização" de cargas ferroviárias, o gerenciamento de dejetos químicos nos projetos de saneamento básico, novos materiais para residências da população pobre etc. Até atividades sofisticadas, como a produção de equipamentos para movimentação de terra, de sistemas eletrônicos de comando do trem bala e de metrôs, de sistemas satelitais e equipamentos eletrônicos para monitorar transporte rodoviário e gado etc.

INOVAÇÃO E POLÍTICA INDUSTRIAL
Há muito o que fazer do ponto de vista de política industrial, no que se refere a incentivo a inovar nas empresas nacionais. E no que se refere a estímulos específicos ao adensamento das cadeias de valor, como o que aparentemente estaria fazendo a Petrobras. Vejamos se de fato fará nos volumes necessários. A inovação ainda não é, propriamente, um quarto motor do crescimento, mas já tem a responsabilidade maior de turbinar os três motores existentes. Se o processo de inovação receber a ênfase necessária por parte de governantes, da academia e de empresários nacionais poderá tornar-se, a longo prazo, o quarto motor do investimento.

DEBATE
Acho que o que estou dizendo constitui alguma novidade no Brasil. A noção dos três motores do investimento e de seus turbinadores é uma formula que ajuda a organizar o debate brasileiro sobre um padrão de desenvolvimento que pode vir a ter fôlego de longo prazo.

PERGUNTAS ESTRUTURALISTAS
A tradição estruturalista inaugurada por Prebisch faria perguntas a essa formulação. Perguntariam, por exemplo, o que o Estado está fazendo para planejar e garantir a operação satisfatória dos três motores, inclusive em matéria de investimentos em segmentos produtivos de alta densidade tecnológica e em inovação nas empresas nacionais. Perguntariam se a transformação ensejada pela dinâmica dos três motores conseguirá eliminar a profunda heterogeneidade estrutural ainda existente --e em que prazos. Acho que também recomendariam que, no atual período de bonança em relação a reservas externas e preços de bens intensivos em recursos naturais, o país não cochile e busque uma autonomização externa mais definitiva, por meio da diversificação produtiva e exportadora e da incorporação do progresso técnico na indústria e no restante da estrutura produtiva nacional. E diriam que a agenda nacional encontra-se renovada. Que as oportunidades e desafios são gigantescos, e que há que saber enfrentá-los. E colocaria forte ênfase na educação, nas políticas sociais, na harmonia territorial e na sustentabilidade ambiental, elementos críticos de qualquer processo de desenvolvimento.

O MANIFESTO LATINO-AMERICANO E OUTROS ENSAIOS
AUTOR Raúl Prebisch
ORGANIZAÇÃO Adolfo Gurrieri
EDITORA Contraponto/Centro Internacional Celso Furtado
QUANTO R$ 80 (648 págs.)






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