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Opinião
Terça - 09 de Junho de 2026 às 00:00
Por: Max Wagner de Lima

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Durante muitos anos, quando se falava em risco de infarto ou AVC, a atenção ficava quase sempre concentrada nos mesmos exames: colesterol total, LDL, HDL, triglicerídeos e glicemia.

Esses exames continuam importantes. Eles ajudam a entender parte do risco cardiometabólico de uma pessoa. Mas hoje sabemos que eles não contam a história inteira.

Existe um marcador ainda pouco conhecido pela população, mas extremamente relevante na medicina cardiovascular moderna: a lipoproteína(a), também chamada de Lp(a).

A Lp(a) é uma partícula semelhante ao LDL, o chamado “colesterol ruim”, mas com uma característica especial: ela é fortemente determinada pela genética. Por isso, muitas vezes é chamada de uma espécie de colesterol herdado.

Isso significa que uma pessoa pode se alimentar bem, praticar atividade física, estar com o peso adequado e, ainda assim, apresentar níveis elevados de Lp(a). Diferente de outros marcadores metabólicos, ela não costuma mudar muito com dieta, exercício ou perda de peso.

E exatamente por isso ela pode passar despercebida.

O problema é quando o risco está escondido

Muitas pessoas acreditam que, se o colesterol tradicional está “normal”, o coração está protegido. Mas nem sempre é assim.

Quando a Lp(a) está elevada, ela pode aumentar o risco de formação de placas nas artérias, infarto, AVC e doença cardiovascular precoce, mesmo em pessoas aparentemente saudáveis e sem sintomas.

Esse é um ponto fundamental: o risco cardiovascular nem sempre se anuncia com dor no peito, falta de ar ou alteração evidente nos exames básicos. Muitas vezes, ele começa de forma silenciosa, anos antes do primeiro evento.

A Lp(a) ajuda justamente a identificar uma predisposição que poderia permanecer invisível em uma avaliação convencional.

Lp(a) elevada não é diagnóstico de doença. É sinal de alerta.

Ter Lp(a) elevada não significa que a pessoa terá obrigatoriamente um infarto ou AVC. Também não significa que ela deva viver com medo.

Significa que o risco precisa ser interpretado com mais profundidade.

Um estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology, acompanhando mais de 11 mil pessoas por quase 15 anos, mostrou uma mensagem muito importante: a Lp(a) elevada está associada a maior risco cardiovascular, e o escore de cálcio coronariano ajuda a identificar se esse risco já começou a se manifestar nas artérias do coração.

Em outras palavras:

a Lp(a) mostra a predisposição.

O escore de cálcio mostra se já existe consequência silenciosa nas coronárias.

Essa combinação permite sair de uma medicina baseada apenas em médias populacionais e avançar para uma avaliação mais personalizada do risco real.

Por que medir a Lp(a) pelo menos uma vez na vida?

Como a Lp(a) é predominantemente genética, seus níveis tendem a permanecer relativamente estáveis ao longo da vida. Por esse motivo, consensos internacionais recomendam que ela seja medida pelo menos uma vez na vida adulta.

Essa informação pode mudar completamente a forma como interpretamos o risco de uma pessoa.

Por exemplo: dois pacientes podem ter o mesmo LDL, a mesma pressão arterial e a mesma idade. Mas, se um deles tem Lp(a) muito elevada e histórico familiar de infarto precoce, sua estratégia de prevenção provavelmente deve ser mais rigorosa.

A medicina preventiva moderna não olha apenas para um número isolado. Ela organiza as informações em conjunto: genética, histórico familiar, pressão arterial, colesterol, glicemia, inflamação, composição corporal, sono, hábitos de vida, exames de imagem e sinais precoces de aterosclerose.

É assim que se constrói uma visão mais fiel do risco cardiovascular.

Quando encontramos Lp(a) elevada, o caminho não é pânico. É estratégia.

A descoberta de uma Lp(a) elevada deve ser encarada como uma oportunidade de antecipação.

Na prática, isso significa avaliar com mais atenção outros fatores modificáveis, como LDL, pressão arterial, resistência à insulina, gordura visceral, sedentarismo, tabagismo, sono ruim, estresse crônico e inflamação.

Também pode ser necessário considerar exames complementares, como o escore de cálcio coronariano, especialmente em pessoas com histórico familiar importante, múltiplos fatores de risco ou dúvida sobre a intensidade da prevenção.

O objetivo não é transformar todos em pacientes assustados. É identificar quem precisa de uma estratégia mais precisa antes que a doença apareça de forma grave.

Porque o coração raramente avisa no começo.

Mas quase sempre deixa pistas.

A diferença entre fazer exames e fazer prevenção

Fazer exames isolados não é o mesmo que fazer prevenção.

Prevenção verdadeira exige interpretação. Exige contexto. Exige entender o que cada marcador significa dentro da história daquela pessoa.

Uma Lp(a) elevada, sozinha, não define todo o futuro cardiovascular. Mas ignorá-la pode significar perder uma informação importante sobre risco hereditário.

Por isso, a pergunta não deve ser apenas: “Meu colesterol está normal?”

A pergunta mais importante é:

Meu risco cardiovascular foi realmente avaliado de forma completa?

Medicina da antecipação: agir antes do susto

Durante muito tempo, a medicina foi acionada apenas depois do evento: depois do infarto, depois do AVC, depois do cateterismo, depois do susto.

Mas a prevenção cardiovascular de alto nível precisa acontecer antes.

Medir a Lp(a), interpretar o escore de cálcio quando indicado, avaliar o metabolismo, controlar agressivamente fatores modificáveis e construir uma rotina cardioprotetora fazem parte de uma medicina mais inteligente, mais personalizada e mais preventiva.

Isso não é viver com medo.

É trocar a medicina do susto pela medicina da antecipação.

Quando identificamos cedo os sinais silenciosos, temos a chance de mudar a trajetória de uma pessoa. Não apenas tratar doenças, mas proteger anos de vida, autonomia, energia e futuro.

Prevenção não é excesso de exames.

Prevenção é organizar informações, medir risco real e construir uma estratégia individual para que o coração não precise avisar tarde demais.

Dr. Max Wagner de Lima

Cardiologia | Cardiometabolismo | Prevenção



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