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Sexta - 10 de Abril de 2026 às 06:13
Por: Diário de Cuiabá

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No ano passado, 53 mulheres morreram por crimes motivados pelo ódio, menosprezo, discriminação, entre outras questões relacionadas ao gênero
No ano passado, 53 mulheres morreram por crimes motivados pelo ódio, menosprezo, discriminação, entre outras questões relacionadas ao gênero

Mesmo com o aumento de denúncias e medidas protetivas, o sistema de enfrentamento à violência contra a mulher em Mato Grosso segue falhando no essencial: punir agressores e proteger vítimas.

É o que revela o Relatório de Monitoramento 2026, da rede de enfrentamento em Várzea Grande e Nossa Senhora do Livramento, que expõe um cenário de gargalos estruturais, impunidade e risco contínuo para mulheres.


O dado mais alarmante está na base do problema: milhares de casos simplesmente não chegam ao fim.

Em alguns anos, mais da metade dos processos foi arquivada por prescrição, quando o Estado perde o prazo para punir.

Em 2023, esse índice chegou a 57,2% e, mesmo com leve melhora, ainda ficou em 43,2% em 2025.

Na prática, isso significa crimes sem resposta e agressores livres.

Além disso, o relatório aponta uma falha grave no início do processo: muitos registros de violência sequer se transformam em investigação.

Há uma ruptura entre a denúncia e a abertura de inquérito policial, especialmente em casos de violência psicológica e física, que exigem maior qualificação técnica para produção de provas.

Mesmo quando os casos avançam, a resposta ainda é limitada.

O número de denúncias cresceu, com aumento de quase 92% em 2025, mas os arquivamentos continuam elevados e a conversão em condenação segue baixa, revelando um sistema que até reage mais, mas ainda entrega pouco resultado prático.

Outro ponto crítico é a sobrecarga da estrutura policial. A delegacia especializada concentra atendimentos de mulheres, crianças e idosos, com equipe reduzida diante da demanda crescente.

O resultado é previsível: morosidade, falhas investigativas e aumento do risco de prescrição.

Na ponta da proteção, o cenário também preocupa. A maioria dos agressores não cumpre as medidas impostas pela Justiça.

Em 2024, cerca de 70% descumpriram determinações judiciais, e parte deles voltou a cometer violência após a decisão.

Apesar do crescimento das medidas protetivas, a adesão à Patrulha Maria da Penha, responsável por fiscalizar o cumprimento dessas decisões, caiu proporcionalmente e não chega a um terço dos casos.

O dado levanta dúvidas sobre a efetividade do monitoramento e a confiança das vítimas no sistema.

O relatório também revela fragilidades na prevenção. A rede de proteção até ampliou atendimentos, especialmente na assistência social e no suporte psicológico, mas ainda não consegue acompanhar o volume de casos.

Na educação, a situação é ainda mais crítica: leis que preveem psicólogos e assistentes sociais nas escolas não são cumpridas plenamente.

Em Várzea Grande, uma única equipe atende até 96 unidades escolares, o que compromete a identificação precoce de violência.

Outro problema estrutural é a subnotificação. A queda de registros em alguns períodos não indica redução da violência, mas falhas no sistema de notificação, especialmente na saúde.

Quando os dados sobem, como em 2025, o próprio relatório aponta que isso pode significar melhoria na identificação, e não aumento real dos casos.

Os números mais extremos confirmam a gravidade do cenário. Em 2025, foram registrados 14 casos de feminicídio tentado.

E um dado chama atenção: a maioria das vítimas não tinha boletim de ocorrência anterior nem medida protetiva, evidenciando falha na capacidade do sistema de agir antes que a violência chegue ao limite.

Apesar de avanços na organização da rede e na criação de protocolos, o documento aponta falta de integração entre instituições e ausência de um fluxo unificado de atendimento, o que gera descontinuidade e ineficiência na proteção.





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