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Economia
Sábado - 23 de Junho de 2007 às 10:43

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Blair telefonou para Lula no começo da tarde de sexta-feira. De acordo com o porta-voz de Lula, Marcelo Baumbach, os dois conversaram por cerca de 20 minutos sobre a Rodada Doha de liberalização do comércio, negociada no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).

"O Presidente Lula observou em conclusão que os paises desenvolvidos buscaram acomodar seus próprios interesses defensivos em agricultura e ao mesmo tempo pedir contribuição desproporcional dos países em desenvolvimento no que diz respeito aos bens industriais", afirmou Baumbach, em Brasília. v Segundo o porta-voz da Presidência, Lula disse a Blair que a Europa e os Estados Unidos assumem posição dura no momento e que os principais pontos de divergência acontecem em agricultura, que Lula chamou de "motor da rodada e setor de maior interesse para paises em desenvolvimento".

Para o presidente, as negociações técnicas "já se esgotaram" e é chegada a hora de uma reunião de líderes políticos.

A última tentativa de se retomar a Rodada Doha – cujas negociações estão interrompidas desde o ano passado – fracassou nesta semana, durante encontro de embaixadores em Potsdam, na Alemanha. Brasil e Índia se retiraram do encontro.

Subsídios americanos

Baumbach disse que Lula reclamou a Blair que "foi desconsiderado o princípio central da Rodada Doha, de que esta é uma rodada de desenvolvimento".

Apesar disso, o brasileiro teria se comprometido a continuar trabalhando em Genebra para que se encontre uma solução política para o impasse.

Lula teria relatado a Blair o que considera os principais problemas da Rodada Doha: a questão dos subsídios domésticos, os problemas no acesso a mercados e um problema de "equilíbrio", ou seja, de pedidos desproporcionais feitos por países desenvolvidos.

Na questão dos subsídios, Lula disse que o G20, grupo de emergentes liderados pelo Brasil, pedia cortes dos subsídios americanos para até US$ 12 bilhões. No entanto, os Estados Unidos propuseram corte para US$ 17 bilhões, valor que estaria acima da média gasta pelo governo americano com subsídios nos últimos anos.

Segundo Baumbach, Blair disse a Lula que, para evitar um fracasso nas negociações de Doha, os países emergentes teriam de aceitar a redução tarifária para os produtos industrializados na ordem de 20%. Lula teria respondido que o Brasil "prefere discutir algo em torno dos 30%".

Blair também disse a Lula que as próximas 48 horas serão decisivas para a Rodada Doha e afirmou que conta com a liderança do presidente brasileiro.

O primeiro-ministro britânico também teria se comprometido a transmitir a mensagem de Lula aos demais líderes europeus.

OMC enfraquecida

Nesta sexta-feira, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que participou das negociações em Potsdam, disse que considera "morto" o G4 – grupo que lidera as negociações para retomada de Doha, formado por Brasil, Índia, União Européia e Estados Unidos.

Na avaliação do embaixador Roberto Abdenur, o fracasso da Rodada de Doha pode deixar a OMC mais enfraquecida e sem poder para forçar os países a aceitar as regras do comércio internacional acordadas na organização.

"Com um resultado positivo na Rodada de Doha, a OMC ganharia muita musculatura, muita substância, e estaria consagrada como um propulsor de comércio no plano internacional. Com o fracasso de Doha, ela tende a ser cada vez mais uma arena de litígios, e isso leva a um desgaste e perda de moral", avalia Abdenur, que foi embaixador brasileiro no Equador, China, Alemanha, Áustria e em Washington até o início deste ano, quando se aposentou e voltou ao Brasil.

Um exemplo disso, diz Abdenur, é o caso levado pelo Brasil contra os Estados Unidos contra o subsídio ao algodão americano. O Brasil ganhou, mas até agora os Estados Unidos não cumpriram a decisão integralmente.

"Provavelmente, os americanos nunca mais vão cumprir a decisão do algodão", afirma o embaixador.

Abdenur lembra que os americanos já têm uma tendência de não se subordinar às decisões internacionais por considerá-las uma redução da soberania do país.

"A OMC não é ainda uma organização inteiramente consolidada no plano internacional", diz o diplomata brasileiro. Um fracasso de Doha, acrescenta Abdenur, reduz as chances de que a OMC venha a se transformar na "ONU do comércio internacional", como gostaria o Brasil.





Fonte: BBC Brasil

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