Relatório cita descentralização da violência letal contra a mulher Polícia Civil mostra que 36 (25,3%) das 142 cidades mato-grossenses registraram esse crime em 2025
Na Semana da Mulher, uma estatística sombria evidencia a presença onipresente da violência contra as mulheres, em Mato Grosso.
Conforme a Polícia Civil, em 2025, os crimes investigados e classificados sob a natureza penal de feminicídio foram identificados nas 15 Regiões Integradas de Segurança Pública (RISPs) do Estado, o que demonstra a descentralização da violência letal contra a mulher, que atinge desde grandes centros urbanos até municípios de pequeno porte.
Das 142 cidades mato-grossenses, 36 (25,3%) registraram feminicídios no ano passado.
Os dados fazem parte do relatório de acompanhamento dos crimes de gênero da Polícia Civil, que aponta resolução de 100% dos crimes, sendo que todos tiveram a autoria identificada, com responsabilização dos autores.
De a cordo com a PC, o Estado teve 53 feminicídios (um caso a menos do total apontado pelo Observatório Caliandra, do Ministério Público do Estado) em 2025.
A maior concentração de registros é verificada em municípios de médio e grande porte, com destaque para Sinop (503 km ao Norte de Cuiabá), onde ocorreram seis casos. Depois, vêm Cuiabá, Várzea Grande e Lucas do Rio Verde, todos com três registros cada.
Cidades consideradas relevantes, como Cáceres, Guarantã do Norte, Nobres, Nova Mutum, Rondonópolis e Sorriso, contabilizaram dois feminicídios cada. Por outro lado, a maioria das localidades (26 municípios) registrou um caso isolado.
“Isso demonstra que o fenômeno não se restringe a áreas densamente povoadas, alcançando igualmente o interior do Estado”, diz o relatório.
“Esse padrão reforça a necessidade de políticas públicas transversais e estratégias de prevenção adaptadas à capilaridade territorial de Mato Grosso”, acrescenta.
Já do total 53 feminicídios, a Polícia Civil investigou 56 autores, ou seja, em alguns casos as investigações apontaram que o crime foi cometido por mais de uma pessoa.
Para a PC, os números reforçam a resposta do Estado à tipificação dos crimes e rigor na apuração dos casos.
Também dos 56 investigados, 47 estão presos, o que representa 84% de prisões; sete morreram, sendo cinco por suicídio; um está foragido, com mandado de prisão expedido; e um ainda está sob investigação pela morte de uma mulher trans em Nova Mutum.
Por meio deste monitoramento, de acordo com a delegada-geral da Polícia Civil, Daniela Maidel, mais do que apresentar estatísticas, a polícia judiciária estadual reafirma sua responsabilidade institucional e social.
“Temos a missão de proteger a vida e trabalhar para a manutenção dos direitos das mulheres mato-grossenses,” afirmou.
OUTROS DADOS - No contexto dos feminicídios, os autores são, majoritariamente do sexo masculino, parceiros íntimos, ex-companheiros ou maridos que não aceitam o término da relação e reagem à autonomia feminina com violência letal, numa tentativa de restaurar o controle e reafirmar a masculinidade.
Quanto à motivação, 83% dos feminicídios decorreram de violência doméstica e familiar.
Outros 17% tiveram como elemento o menosprezo ou a discriminação à condição de mulher.
A análise evidenciou que 66% das motivações estão associadas ao ciúme e à lógica de posse masculina sobre o corpo, a sexualidade e as escolhas das mulheres.
A análise dos vínculos confirma o caráter íntimo da violência de gênero: 79% dos casos foram cometidos por parceiros atuais ou anteriores.
Companheiros, cônjuges ou namorados responderam por 47% dos crimes, enquanto ex-companheiros ou ex-cônjuges representaram 32%.
Vínculos afetivos informais corresponderam a 6% das ocorrências. Casos sem vínculo afetivo ou com mero conhecimento prévio somaram 8%, mesmo percentual verificado nos vínculos familiares.
Do total de ocorrências, 43% se concentraram nos meses de maio (7 casos), junho (10 casos) e outubro (6 casos). Junho apresentou o maior número de registros, respondendo sozinho por 19% dos feminicídios do ano.
A residência das vítimas foi o principal local das ocorrências, concentrando 72% dos casos. Em relação aos meios empregados, predominou o uso de arma branca (43%), seguido de arma de fogo (38%). O padrão revela que os crimes, em sua maioria, ocorreram em contextos de proximidade entre autor e vítima, característica comum da violência doméstica e das relações íntimas.

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