Prefeito critica merenda sem açúcar e vira alvo de investigação em Cuiabá Ministério Público de Mato Grosso abriu investigação após o prefeito afirmar em live que o café da manhã das escolas estaria “sem graça”; servidores apontam falta de estrutura nas cozinhas da rede municipal.
O Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) abriu investigação para apurar declarações do prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), após uma live nas redes sociais em que ele criticou a merenda escolar oferecida nas creches e escolas da rede municipal.
Segundo o órgão, o vídeo divulgado pelo prefeito relativiza políticas públicas que buscam restringir o consumo de alimentos ultraprocessados no ambiente escolar, o que pode incentivar hábitos alimentares inadequados entre crianças e adolescentes.
Durante a transmissão, Brunini afirmou que o café da manhã servido nas unidades estaria “sem graça” e sugeriu que as crianças não teriam vontade de consumir os alimentos oferecidos. Veja vídeo abaixo:
Confira o momento em que o prefeito critica a merenda escolar. -Vídeo: ReproduçãoEm tom irônico, o prefeito disse que, apesar de a merenda escolar evitar açúcar, as crianças consumiriam esse tipo de alimento em casa, o que, segundo ele, poderia levar ao desperdício da comida preparada nas escolas.
“Ela não come nada com açúcar aqui, mas na casa dela ela come. O que vai acontecer é a gente desperdiçar comida, porque a gente faz, ela não come, os professores também não comem. Me mandem cardápios de merenda escolar e de café da manhã devidamente nutritivos e balanceados, mas que as crianças tenham vontade de comer”, afirmou.
Os pedidos do prefeito contrariam as normativas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) que proíbe que seja oferecido açúcar e alimentos ultraprocessados em creches e escolas. Fazendo com que não se possa ofertar produtos como pão industrializado, biscoitos, bebidas com açúcar para essas modalidades.
Declarações sobre merenda escolar feitas durante live levaram o Ministério Público a abrir investigação; funcionários da rede municipal relatam falta de estrutura nas cozinhas. – Foto: Secom CuiabáFuncionários que não quiseram ser identificados afirmaram que as cozinhas escolares estão em péssimas condições, não possuem fornos, equipamentos e merendeiras para fazer um cardápio mais elaborado.
“Nossas cozinhas não têm equipamentos, não têm utensílios, não têm estrutura física nenhuma, não fornecem EPIs, e mal estão sendo entregues os alimentos. Então, é bem complicado ele vir fazer vídeo criticando, ao invés de sentar com a equipe da secretaria para ajustar o que deve ser ajustado”, declarou.
Em nota, o Conselho Regional de Nutrição afirmou que manifestou preocupação com as declarações do prefeito de Cuiabá (MT), sobre a composição nutricional da alimentação servida nas unidades de ensino municipal. Ao classificar como “sem graça” a alimentação e defender publicamente o uso indiscriminado de açúcar nas receitas, sem qualquer embasamento científico, o prefeito presta um desserviço à saúde pública.
“É fundamental reforçar que a alimentação escolar não é pautada por escolhas arbitrárias. Ressaltamos que os nutricionistas são os profissionais legalmente habilitados e responsáveis pela elaboração dos cardápios escolares, garantindo refeições saudáveis, equilibradas e adequadas às necessidades dos estudantes. Tais normas visam combater o crescimento da obesidade infantil e prevenir doenças crônicas precoces, como o diabetes tipo 2 e a hipertensão arterial. A utilização excessiva de açúcar contribui para a ampliação desse cenário”, declarou.
Em outro momento, afirmam que o trabalho dos nutricionistas é garantir que o ambiente escolar seja um espaço de proteção e promoção da saúde, reforçando a necessidade de cardápios escolares planejados, com responsabilidade técnica.
“É inadmissível que o conhecimento técnico-científico dos nutricionistas seja submetido a julgamentos pautados em opiniões subjetivas, alheias às evidências científicas e às legislações vigentes. A gestão pública exige responsabilidade e respeito aos servidores e à sociedade. A alimentação escolar é pautada pela ciência da Nutrição, é cuidado e é lei, e não pode ser objeto de desdém”.

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