Em pleno mês da mulher, feminicídios explodem em MT Neste ano, 11 mulheres foram mortas pelos atuais ou ex-companheiros, em 10 municípios mato-grossenses
Marcado pelo Dia da Mulher, março de 2026 - que chega ao fim nesta tera-feira (31) - é, até o momento, o mais violento do ano, quando o assunto é feminicídio em Mato Grosso.
Até segunda-feira (30) pela manhã, sete mulheres foram mortas nos últimos 30 dias, em decorrência da violência de gênero.
No total, o Estado já registra 11 feminicídios neste ano.
Levando-se em consideração apenas o período de 31 dias, o corrente mês também é o mais violento desde 2019, quando teve início a série estatística feita pelo Observatório Caliandra, do Ministério Público (MP-MT).
Desde então, março de 2021 aparecia como o mais perigoso, com seis mulheres mortas pelos seus namorados, atuais ou ex-companheiros.
Já das 11 mortes, duas ocorreram em Cuiabá. As demais em Vila Bela da Santíssima Trindade, Sinop, São José do Xingú, Rondonópolis, Nova Maringá, Lucas do Rio Verde, Itaúba, Chapada dos Guimarães e Porto dos Gaúchos.
Três desses crimes foram registrados em um período de apenas quatro dias.
No domingo (29), Mariana Santana, 19 anos, foi morta a tiros pelo ex-companheiro, identificado pelo nome de Agricele de Miranda, na zona rural de Porto dos Gaúchos (653 km ao Norte de Cuiabá).
De acordo com boletim de ocorrência, o casal estava separado há dois meses e, no fim de semana, a jovem foi até a chácara onde o ex-companheiro morava para buscar roupas e pertences pessoais.
A vítima estava acompanhada dos pais e entrou na casa, juntamente com a mãe, para pegar os objetos enquanto o suspeito ficou conversando com pai dela do lado de fora.
Em determinado momento, o ex-companheiro entrou no imóvel e, pouco depois, disparos foram ouvidos.
Ao entrar na residência, o pai encontrou a filha atingida por tiros na região lombar e o suspeito com um ferimento na cabeça, com a arma de fogo em sua mão direita.
A Polícia Militar e equipes de socorro foram acionadas, mas apenas constaram a morte dos dois ainda no local.
Antes, na sexta-feira (27), policiais militares prenderam em flagrante Otair Matos, 38 anos, suspeito de esfaquear Luzia Ramos, 50, no bairro Boa Esperança, em Sinop (503 km ao Norte de Cuiabá).
A vítima foi ferida no pescoço, não resistiu ao ferimento e veio a óbito.
Detido, o homem disse à polícia que atacou a mulher após ela dizer que estaria grávida dele e que não assumiria o filho.
Testemunhas relataram que Otair Matos estava alterado e, antes do ataque à mulher, ainda tentou contra a vida de outro filho da vítima, de idade não revelada, porém foi contido por populares.
Um dia antes (26), em Rondonópolis (210 km ao Sul de Cuiabá), Luiza Regina Oliveira Zanoni, 29 anos, foi morta a facadas pelo ex-companheiro, 35, dentro de casa após uma discussão sobre a separação.
Ela era estudante universitária e tinha sido recentemente contratada para exercer a função de estagiária na Escola Municipal Firmício Alves Barreto.
A Prefeitura Municipal emitiu nota de pesar e repudiou com veemência qualquer forma de violência, especialmente a violência contra a mulher.
“O feminicídio é um crime inaceitável e que deve ser combatido com rigor por toda a sociedade”, traz um trecho da nota.
“Reafirmamos nosso compromisso com a defesa da vida, da dignidade humana e com o enfrentamento a todo tipo de agressão”, completa.
Ainda conforme dados do Observatório, a maioria dos crimes teve como motivação menosprezo ou discriminação à condição da mulher (4); seguido de separação ou tentativa de rompimento do relacionamento (3), além de discussão, ciúmes, sentimento de posse e/ou machismo.
Até então, quatro vítimas tinham boletim de ocorrência (BO) contra o agressor e apenas uma das vítimas possuía medida protetiva.
Além disso, nos dois primeiros meses do ano, Mato Grosso teve 37 tentativas de feminicídios, uma média de um caso por dia, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).
FALHAS ESTRUTURAIS – Na semana passada, ao participar de uma audiência pública na Assembleia Legislativa (AL), a deputada suplente Edna Sampaio apresentou os principais apontamentos do relatório preliminar da câmara setorial temática (CST) criada em outubro de 2025 para apontar as responsabilidades do Governo do Estado e analisar a estrutura, o funcionamento da rede de proteção e o financiamento das políticas públicas em defesa da vida das mulheres em nível estadual.
Na ocasião, Edna Sampaio destacou que uma das fragilidades centrais é a ausência de formalização da rede de proteção, com definição legal das competências dos órgãos e protocolos que garantam a integração entre as instituições.
“A violência contra a mulher começa muito antes do feminicídio. Trabalhar a prevenção é a melhor estratégia, porque o feminicídio é um crime anunciado, previsível, e o poder público pode atuar nisso”, afirmou.

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