Publicidade
Repórter News - reporternews.com.br
Agronegócios
Domingo - 21 de Junho de 2026 às 08:07
Por: Angélica Callejas/Mídia News

    Imprimir


Responsável pela maior produção de grãos do país, Mato Grosso pode sentir os efeitos do El Niño justamente durante o período de implantação da próxima safra. Segundo o climatologista e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Rodrigo Marques, a tendência é de chuvas irregulares e temperaturas acima da média entre setembro e outubro, meses considerados decisivos para o plantio da soja.

Como já ocorreu em anos anteriores, se você tem elevadas temperaturas e períodos secos prolongados, você pode ter que replantar tudo

O alerta ocorre em um momento em que Mato Grosso mantém posição de destaque no agronegócio nacional. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o estado colheu 111,9 milhões de toneladas de grãos na safra 2024/25, alta de 18,7% em relação ao ciclo anterior.

Para o pesquisador, o período mais sensível deve ocorrer justamente no início do ciclo produtivo. A combinação entre atraso das chuvas e calor excessivo pode comprometer a germinação das lavouras e gerar prejuízos ainda nas primeiras semanas após o plantio.

"Eu acredito que talvez o período mais problemático para as culturas, agora em setembro, vai ser o plantio. Porque se tem o plantio da soja e logo em seguida não tem um volume de chuva razoável e tem temperaturas muito elevadas, isso pode comprometer a germinação da planta”, disse em entrevista ao MidiaNews.


“E, consequentemente, como já ocorreu em anos anteriores, se você tem elevadas temperaturas e períodos secos prolongados, você pode ter que replantar tudo o que foi plantado. Então, você perde o que foi plantado. Essa talvez seja a parte mais sensível do El Niño para a gente aqui”, completou.

Para a safra 2025/26, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) projeta produção de 47,1 milhões de toneladas de soja e 51,7 milhões de toneladas de milho, culturas que dependem diretamente do comportamento das chuvas durante os meses de implantação e desenvolvimento das lavouras.

Segundo o professor, os impactos do fenômeno em Mato Grosso estão diretamente ligados à influência que a Amazônia exerce sobre o regime de chuvas do estado. Como cerca de 90% das precipitações anuais ocorrem entre outubro e abril e dependem da umidade transportada da floresta, qualquer alteração nesse sistema tende a repercutir sobre a produção agrícola.

"A nossa chuva de outubro a abril é extremamente dependente da umidade que vem da Amazônia. Se eu não tenho essa umidade na Amazônia, logo eu não tenho essa chuva aqui. Então, se o El Niño coincide no período chuvoso, nós temos um período mais seco. E nesse período seco, nós temos ondas de calor que tendem a atuar”.

Ele explicou que o fenômeno altera a circulação atmosférica sobre a Amazônia, reduzindo a formação de nuvens e dificultando a ocorrência de chuvas. O resultado costuma ser uma combinação de estiagem, temperaturas mais elevadas e precipitações irregulares.

"Agora, para o segundo semestre, se espera que a gente possa ter um atraso no início das chuvas, temperaturas mais elevadas ali entre setembro e outubro. Isso é o que a gente espera quando tem El Niño. Nós temos essas características aqui no estado”, disse.

Além dos impactos sobre as lavouras, o climatologista alertou para reflexos na pecuária. A redução das chuvas pode afetar a qualidade das pastagens e favorecer a formação de grandes áreas de biomassa seca, aumentando o risco de incêndios.

"Você pode afetar as pastagens. Como você tem um material seco formado, por exemplo, qual é o grande risco que nós temos nesses períodos que podem ocorrer de secas prolongadas? A vegetação, o pasto, ele forma um material, uma biomassa seca, que se uma vez tiver início de incêndio, se propaga muito rápido".

"Então, talvez essa seja a maior preocupação. E é claro que você pode ter uma perda na qualidade, inclusive nutritiva, do próprio pasto e aí um efeito sobre os próprios animais também”, alertou.

A grande questão é que, infelizmente, algumas pessoas insistem em desconsiderar essas previsões, esses indicadores

O especialista destacou que hoje os produtores contam com ferramentas mais avançadas de monitoramento climático do que em décadas anteriores. Para ele, o principal desafio não é a falta de informação, mas a capacidade de incorporar essas previsões ao planejamento da safra.

"A grande questão é que, infelizmente, algumas pessoas insistem em desconsiderar essas previsões, esses indicadores. Nós estamos falando de vários órgãos no mundo inteiro, dos Estados Unidos, da Europa, do Brasil, indicando isso. Para o agricultor, seria muito importante acompanhar esse monitoramento, porque nós estamos falando de uma atividade econômica que depende diretamente dos aspectos climáticos”.

Risco de incêndios

Além dos impactos sobre as lavouras e as pastagens, a possível atuação do El Niño também aumenta a preocupação com os incêndios florestais. O Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso (CBMMT) informou na última semana que intensificou o planejamento para a temporada de incêndios de 2026 diante das previsões de estiagem mais severa associadas ao fenômeno climático.

Segundo a corporação, os efeitos do El Niño tendem a provocar aumento das temperaturas e redução do volume de chuvas, criando condições favoráveis para a ocorrência e propagação do fogo em áreas de vegetação. Por conta disso, militares de todas as regiões do Estado participam de treinamentos e alinhamentos operacionais para atuação durante o período crítico.

O comandante-geral da corporação, coronel Flávio Glêdson Vieira Bezerra, afirmou que o planejamento antecipado é fundamental para fortalecer a capacidade de resposta e minimizar os impactos provocados pelos incêndios florestais.

A preocupação também é compartilhada pelo climatologista Rodrigo Marques. Segundo ele, períodos prolongados de seca favorecem a formação de grandes volumes de biomassa seca em áreas rurais, aumentando o potencial de propagação do fogo.

"Você pode afetar as pastagens. Como você tem um material seco formado, por exemplo, qual é o grande risco que nós temos nesses períodos que podem ocorrer de secas prolongadas? A vegetação, o pasto, ele forma um material, uma biomassa seca, que se uma vez tiver início de incêndio, se propaga muito rápido. Então, talvez essa seja a maior preocupação”.

Histórico recente

O alerta ganha relevância diante do histórico recente do Estado. Em 2020, o Pantanal enfrentou a maior temporada de incêndios já registrada. Dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa/UFRJ) apontaram que aproximadamente 39 mil quilômetros quadrados foram atingidos pelas chamas, o equivalente a cerca de 26% de toda a área do bioma.

Durante a entrevista, Rodrigo citou o episódio como exemplo dos impactos que períodos de seca severa podem provocar quando combinados com ações humanas.

"Tivemos o que aconteceu em 2020, que depois acabou sendo identificado pela própria Polícia Federal, que por conta de limpeza de duas ou três fazendas no Mato Grosso do Sul nós tivemos aquela tragédia que dizimou quase metade do Pantanal".

Para o pesquisador, embora o fogo tenha origem, na maioria das vezes, em ações humanas, condições climáticas mais secas e quentes tornam o controle dos incêndios muito mais difícil e ampliam o potencial de destruição.





Comentários

Deixe seu Comentário

URL Fonte: https://reporternews.com.br/noticia/472741/visualizar/