Crédito rural caro e clima preocupam o agronegócio de Mato Grosso Blairo Maggi e Famato alertam que acesso ao financiamento, aumento dos custos e El Niño exigirão planejamento rigoroso dos produtores
“Esta é a vida do produtor, sempre tem uma variável dessa na roda.”
A frase do ex-ministro da Agricultura, Blairo Maggi, resume o cenário que começa a se desenhar para a safra 2026/27 em Mato Grosso.
Líder nacional na produção de grãos, o Estado deverá enfrentar uma combinação de fatores que preocupa produtores e especialistas: crédito mais restrito, custos de produção ainda elevados e o risco de um novo episódio de El Niño, que pode comprometer o calendário agrícola e reduzir a produtividade.
Embora o Governo Federal tenha ampliado os recursos do Plano Safra e reduzido os juros do crédito de custeio, representantes do setor avaliam que as medidas ainda estão longe de atender às necessidades do principal Estado produtor do país.
Na avaliação de Maggi, um dos maiores produtores rurais do Brasil, acionista da Amaggi — empresa fundada por seu pai, André Maggi —, o financiamento será o principal desafio da próxima temporada.
“Neste ano, o crédito está mais escasso e caro. Isso tira a receita do produtor”, afirma.
O diagnóstico é compartilhado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) e pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).
Segundo o superintendente das duas instituições, Cleiton Gauer, houve avanço no volume de recursos anunciados pelo Plano Safra, mas eles ainda não acompanham a evolução da agropecuária brasileira.
“A Famato reconhece que houve um avanço em relação ao volume de recursos disponibilizados, mas ele ainda é insuficiente quando olhamos para o desenvolvimento da produção agropecuária. Em comparação com a safra anterior, o montante anunciado sequer recompõe a inflação”, afirma.
Para Gauer, o maior desafio econômico da safra continua sendo justamente o acesso ao crédito.
“Muitos produtores ainda carregam o endividamento das últimas safras, precisaram renegociar dívidas e enfrentam custos elevados de produção. Além disso, a dificuldade de enquadramento nas linhas do Plano Safra e a burocracia fazem com que parte dos produtores recorra ao crédito privado para financiar a atividade”, observa.
Segundo ele, mesmo com a redução dos juros do custeio, de 14% para 12,5% ao ano, a realidade do produtor ainda é desafiadora.
“A redução ajuda no planejamento financeiro, mas ainda está muito aquém das necessidades do setor. O endividamento acumulado continua pressionando a atividade”, destaca.
Gauer explica que outro gargalo está nos critérios de enquadramento do Plano Safra.
Com o aumento dos custos de produção e da valorização das propriedades rurais, muitos agricultores deixaram de ser classificados como pequenos e médios produtores e passaram a depender de operações privadas de crédito, que, muitas vezes, oferecem menos burocracia e maior competitividade do que as linhas oficiais.
Para Mato Grosso, a expectativa é de que as maiores demandas nesta temporada se concentrem nas linhas destinadas ao custeio, aquisição de máquinas agrícolas e irrigação.
FATOR EL NIÑO - Se o crédito preocupa, o clima também entrou definitivamente na conta do produtor.
As projeções meteorológicas apontam elevada probabilidade de formação de um episódio de El Niño durante o segundo semestre, justamente no período de implantação da safra de soja.
Para Blairo Maggi, esse continua sendo o fator mais imprevisível da atividade agrícola.
“O clima sempre é uma preocupação. É incontrolável e há pouca margem de manobra para evitar. Talvez atrapalhe fazer duas safras, mas uma sempre vai fazer”, diz,
Na avaliação de Cleiton Gauer, o primeiro impacto deverá ocorrer sobre a janela de plantio.
“O atraso da semeadura pode comprometer a segunda safra. Se o El Niño se intensificar e provocar veranicos durante o desenvolvimento da soja, a produtividade também poderá ser afetada. Um problema pode desencadear o outro”, afirma.
CUSTO - Outro ponto de atenção é o custo de produção.
Levantamento do Imea mostra que o custeio da soja para a safra 2026/27 deverá aumentar 3,21% em relação ao ciclo anterior.
No milho, cuja projeção ainda se refere à safra 2025/26, a alta prevista chega a 14,46%.
Mesmo assim, Blairo Maggi vê um cenário mais tranquilo em relação aos insumos.
“Os fertilizantes estão equacionados. Se precisar, reduz um pouco o uso.”
Para Gauer, diante desse conjunto de fatores, o planejamento será decisivo.
“A principal decisão será planejar. O produtor precisará avaliar com cuidado como financiar a safra, controlar os custos de produção e acompanhar as condições climáticas para aproveitar a melhor janela de plantio. Em um cenário de crédito mais restrito e maior risco climático, o planejamento passa a ser determinante para reduzir riscos e preservar a rentabilidade.”
Além do clima, ele recomenda atenção permanente aos custos e ao mercado.
“O produtor precisa acompanhar as oportunidades de comercialização e travar preços em momentos favoráveis, garantindo que a receita seja suficiente para cobrir os custos da produção.”
Apesar do cenário de cautela, Mato Grosso deverá manter a liderança nacional na produção agrícola.
As projeções do Imea apontam área de 13,05 milhões de hectares cultivados com soja na safra 2026/27, alta de 0,25% sobre a temporada anterior.
A produção, porém, está estimada em 48,88 milhões de toneladas, redução de 5,19%, influenciada principalmente pelo risco climático associado ao El Niño.
Para o milho, cuja estimativa ainda se refere à safra 2025/26, a expectativa é de produção de 53,35 milhões de toneladas, impulsionada pelo aumento da produtividade e pela expansão da área plantada para 7,39 milhões de hectares.
No algodão, a área cultivada deverá recuar 11,11%, passando para 1,38 milhão de hectares.
Em contrapartida, a produtividade estimada em 304,02 arrobas por hectare poderá compensar parte dessa redução, mantendo a cultura entre as mais importantes da economia agrícola mato-grossense.
OS DESAFIOS DA SAFRA safra 2026/27
• Crédito mais restrito
• Endividamento acumulado
• Custos de produção em alta
• Possível retorno do El Niño
• Janela de plantio mais curta
• Risco para a segunda safra • Necessidade de planejamento financeiro
Projeções do Imea
Soja (2026/27)
Área: 13,05 milhões de hectares (+0,25%)
Produção: 48,88 milhões de toneladas (-5,19%)
Milho (2025/26)
Área: 7,39 milhões de hectares (+1,83%)
Produção: 53,35 milhões de toneladas
Algodão (2025/26)
Área: 1,38 milhão de hectares (-11,11%)
Produtividade: 304,02 arrobas/hectare

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