Tarifaço dos EUA coloca agro de MT diante de um dilema político Estado com uma das maiores bases eleitorais de Bolsonaro pode ser um dos mais afetados pela escalada comercial iniciada pelos Estados Unidos
Desde a última sexta-feira (24), os Estados Unidos passaram a aplicar novas tarifas sobre uma série de produtos brasileiros, ampliando a tensão comercial entre os dois países.
A decisão do Governo Donald Trump foi antecedida por relatórios do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que acusam o Brasil de manter práticas comerciais consideradas desleais e apontam preocupações ambientais, como o uso de áreas desmatadas ilegalmente para produção agropecuária.
Em Mato Grosso, o episódio ganha uma dimensão ainda mais delicada.
O Estado é, ao mesmo tempo, o maior produtor agropecuário do Brasil e um dos principais redutos eleitorais do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Isso significa que a atuação de integrantes da família Bolsonaro, em defesa da adoção de sanções pelos Estados Unidos contra o Brasil, pode atingir justamente o setor econômico que constitui uma de suas maiores bases de apoio político.
Embora as tarifas tenham poupado alguns produtos estratégicos para o mercado americano, como parte das exportações de carne bovina, especialistas avaliam que a preocupação vai além das medidas já anunciadas.
Os relatórios do USTR ampliam esse risco ao listar uma série de questionamentos ambientais, regulatórios e comerciais que podem servir de base para novas medidas contra produtos brasileiros.
Para Mato Grosso, o cenário exige atenção.
O Estado lidera a produção nacional de soja, milho, algodão e carne bovina e depende das exportações para sustentar o crescimento da economia.
Qualquer barreira adicional imposta pelos Estados Unidos repercute sobre produtores rurais, cooperativas, agroindústrias, transportadoras e dezenas de municípios cuja arrecadação está diretamente ligada ao desempenho do campo.
O aspecto mais sensível, porém, é o político.
A pressão exercida por integrantes da família Bolsonaro sobre o Governo Trump, em defesa do ex-presidente, acabou sendo incorporada ao debate comercial entre os dois países.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos também têm interesses econômicos claros.
Brasil e EUA disputam mercados internacionais de soja, milho, algodão, carnes e etanol, e a adoção de medidas protecionistas faz parte da estratégia histórica de defesa do produtor americano, especialmente em momentos de maior concorrência internacional.
Mais do que um embate entre Brasília e Washington, a crise comercial evidencia como decisões políticas podem repercutir diretamente sobre a economia de Mato Grosso.
Em um Estado onde praticamente todos os pré-candidatos ao Governo disputam o apoio do agronegócio, o tarifaço americano introduz um novo componente na sucessão de 2026: pela primeira vez, a principal base econômica e eleitoral do bolsonarismo pode ser diretamente afetada por uma estratégia política defendida por aliados do próprio ex-presidente.
O episódio também reforça uma preocupação crescente entre exportadores e lideranças do setor produtivo.
Se as divergências diplomáticas continuarem a se sobrepor às negociações comerciais, o agronegócio brasileiro poderá enfrentar um ambiente de maior insegurança, justamente em um momento de expansão da produção e de busca por novos mercados.
Para Mato Grosso, cuja economia depende do desempenho do campo, o desafio será evitar que uma disputa política internacional se transforme em perdas concretas para produtores, empresas e municípios.

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