Umidade do ar entra em nível crítico e coloca Estado em alerta Defesa Civil prevê índices de até 14% em Cuiabá; especialistas alertam para aumento de problemas respiratórios e riscos cardiovasculares
O período mais severo da estiagem em Mato Grosso começou a impor seus efeitos sobre a população.
Sob influência de um forte bloqueio atmosférico, o Estado enfrenta uma combinação de calor intenso, ausência de chuvas e queda acentuada da umidade relativa do ar, que deverá atingir níveis críticos nos próximos dias.
Em Cuiabá, os índices podem chegar a apenas 14%, percentual comparável ao registrado em regiões desérticas e muito abaixo dos 60% considerados ideais para a saúde humana.
Diante desse cenário, as Defesas Civis de Cuiabá e Várzea Grande emitiram alertas reforçando orientações à população, especialmente para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares, considerados os grupos mais vulneráveis aos efeitos do clima seco.
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Na Capital, o boletim climático nº 005/2026 da Defesa Civil Municipal, elaborado com base nas previsões do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/Inpe), aponta que a umidade relativa deverá oscilar entre 14% e 30% ao longo da semana.
A previsão indica que pelo menos três dias terão índices inferiores a 20%, condição classificada como crítica pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Os menores percentuais estão previstos para sexta-feira (17%), sábado (14%) e domingo (15%), enquanto as temperaturas máximas deverão permanecer entre 35°C e 36°C, mantendo o desconforto térmico elevado.
"Teremos uma semana com temperaturas elevadas e umidade crítica.
Em três dias, os índices deverão ficar abaixo de 20%, situação que exige atenção redobrada da população", afirma o secretário municipal de Defesa Civil, coronel Alessandro Borges.
Segundo ele, além dos impactos sobre a saúde, o ar extremamente seco aumenta significativamente o risco de incêndios urbanos e florestais.
"Entre 20% e 30%, o risco de incêndios já é considerado moderado. Abaixo de 20%, passa a ser muito alto. É um período que exige cuidado para evitar qualquer tipo de queimada ou uso do fogo", alerta.
Em Várzea Grande, a Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil também emitiu comunicado orientando a população a reforçar a hidratação e evitar práticas que possam provocar incêndios.
"Sempre há uma grande preocupação quando começa o período de estiagem. A população precisa colaborar, principalmente evitando colocar fogo em lixo, folhas secas ou qualquer outro material", ressalta o coordenador da Defesa Civil, Jovanil Flores.
ALÉM DA RESPIRAÇÃO - Embora os problemas respiratórios sejam os sintomas mais conhecidos do período seco, especialistas alertam que os impactos do calor extremo e da baixa umidade atingem praticamente todo o organismo.
O pneumologista e professor-doutor Clóvis Botelho explica que a combinação de calor, fumaça das queimadas e baixa umidade provoca um esforço adicional do sistema respiratório.
"Nessa época do ano sofremos intensamente esse fenômeno climático. O aparelho respiratório é o primeiro a sentir os efeitos, principalmente em quem já possui doenças como asma, bronquite ou enfisema", afirma.
Segundo ele, o calor favorece a desidratação, altera a circulação sanguínea e pode aumentar o risco de tromboses.
"Com as ondas de calor, todas as doenças respiratórias e cardiovasculares tendem a piorar. Há aumento tanto da morbidade quanto da mortalidade. Um exemplo recente foi a Europa, que registrou excesso de mortes durante episódios de calor extremo. Ondas de calor matam", alerta.
Além da baixa umidade, outro agravante é o aumento da concentração de partículas provenientes das queimadas.
"O pulmão precisa trabalhar mais para filtrar esse ar quente, seco e carregado de poluentes. Isso aumenta os processos inflamatórios e favorece crises respiratórias", explica.
CORAÇÃO TAMBÉM SOFRE - Os efeitos do clima seco não se restringem aos pulmões.
O cardiologista intervencionista Juliano Slhessarenko afirma que as altas temperaturas provocam vasodilatação, aumento da frequência cardíaca e desidratação, tornando o sangue mais viscoso e facilitando a formação de coágulos.
"O coração passa a trabalhar mais para manter o equilíbrio do organismo. Em pessoas predispostas, isso pode favorecer infartos, AVCs, queda de pressão, tonturas e desmaios", explica.
Pacientes que utilizam medicamentos diuréticos merecem atenção especial.
"Os diuréticos aceleram a perda de líquidos, aumentando o risco de desidratação. Por isso, esses pacientes precisam reforçar ainda mais a ingestão de água e nunca alterar a medicação sem orientação médica", orienta.
Segundo o especialista, a recomendação é ingerir pelo menos 30 mililitros de líquido por quilo de peso corporal ao longo do dia, além de evitar exercícios físicos entre 10h e 16h, utilizar roupas leves, permanecer em locais ventilados e manter os ambientes umidificados.
Caso surjam sintomas como falta de ar, dor no peito, palpitações, tontura intensa ou desmaios, a orientação é procurar atendimento médico imediatamente.
Para os especialistas, a tendência é que o cenário de baixa umidade permaneça nas próximas semanas, período historicamente mais crítico da estiagem em Mato Grosso e que coincide com o aumento das queimadas e dos atendimentos por doenças respiratórias em todo o Estado.

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