Procissão das Almas: lenda que atravessa gerações e ainda assombra Mato Grosso Procissão das Almas: lenda que atravessa gerações e ainda assombra Mato Grosso
Lendas do folclore são cercadas de mistério. Em Mato Grosso, não é diferente. A Procissão das Almas sobrevive na memória dos cuiabanos, poconeanos e diamantineses. "Causos" contados nas calçadas, que atravessam gerações e, muitas vezes, nem foram parar nos livros.
A Procissão das Almas está no imaginário popular, cercada por silêncio, medo e mistério. O relato descreve um cortejo de homens e mulheres vestidos de preto, mulheres com véus sobre o rosto, velas acesas e passos lentos pelas ruas durante a noite. Para quem acompanhava a história, havia ainda um aviso: não olhar para o fim da procissão.
A origem exata da lenda é desconhecida. Segundo o turismólogo e pesquisador Valdemir Sebastião Taques, a narrativa chegou aos dias atuais por meio da tradição oral, sendo transmitida de geração em geração pelos mais velhos. “Não se tem precisa uma origem autêntica”, explica Valdemir Sebastião. Para ele, o causo faz parte de uma série de histórias que permanecem vivas justamente porque continuam sendo contadas.
O relato, segundo Valdemir, chegou até ele por meio de pessoas de Cuiabá, Poconé e Diamantino, municípios onde histórias e causos populares ajudaram a construir parte da memória cultural de MT, e talvez seja justamente a falta de uma origem definida que torne a narrativa ainda mais misteriosa.
Na descrição popular, a Procissão das Almas não era um cortejo comum. Os integrantes apareciam vestidos de preto e caminhavam lentamente, em silêncio. As mulheres usavam véus pretos e seguiam de cabeça baixa, como se escondessem o rosto. Entre os elementos associados ao cortejo estavam velas, um caixão, véus pretos, silêncio e ossos de defuntos.
Mas havia um detalhe que tornava o relato ainda mais assustador. Segundo a tradição contada pelo historiador, moradores costumavam permanecer dentro de suas casas, observando pelas portas e janelas, mas sem conversar. E existia uma recomendação: não olhar para o final da procissão.
Isso porque a última pessoa do cortejo carregaria ossos de pessoas mortas. Quem ousasse olhar correria o risco de ter a própria alma arrebatada no ano seguinte.
A história, embora faça parte do imaginário popular, ganhou força justamente pela forma como era contada. A Procissão das Almas é descrita como algo tão assombroso que chegava a provocar a sensação de que poderia ser verdadeira. O caso também não está isolado.
A narrativa se aproxima de outras histórias que fazem parte do folclore brasileiro, como o lobisomem, a Mulher de Branco, o Pé de Garrafa e a porca com sete leitõezinhos, personagens e relatos que também foram preservados pela tradição oral.
No caso da procissão, há lembrança de um tempo em que a cultura popular era compartilhada de outra maneira. Esses relatos remetem às antigas cadeiras nas calçadas, quando familiares e vizinhos se reuniam nas portas de casa para conversar, contar histórias e manter vivas as memórias de uma comunidade.
Hoje, em meio a uma rotina cada vez mais distante, essas rodas de conversas e histórias correm o risco de se perder com o tempo. Mas, enquanto alguém se lembrar do cortejo, das velas, dos véus negros e daquele aviso para não olhar para trás, a procissão continua caminhando, pelo menos dentro do imaginário de quem ainda conhece o causo ou quem procura conhecer.

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