Repórter News - reporternews.com.br
Agronegócios
Sábado - 05 de Setembro de 2026 às 11:00
Por: Marianna Peres/Diário de Cuiabá

    Imprimir


Com a perspectiva de influência do El Niño sobre o novo ciclo, os produtores entram na temporada cercados de cautela
Com a perspectiva de influência do El Niño sobre o novo ciclo, os produtores entram na temporada cercados de cautela

O fim do vazio sanitário da soja, neste domingo (6), abre oficialmente a possibilidade de plantio da safra 2026/27 em Mato Grosso, mas não deve provocar uma corrida imediata das máquinas para o campo.

Com a perspectiva de influência do El Niño sobre o novo ciclo, os produtores entram na temporada cercados de cautela e com uma decisão fundamental pela frente: escolher o momento de colocar a semente no solo sem transformar a pressa em custo de replantio.

A expectativa é de que boa parte dos sojicultores espere a regularização das chuvas, antes de acelerar a semeadura.

Mais do que as primeiras precipitações de setembro, será necessário observar se há umidade suficiente no solo e perspectiva de continuidade das chuvas para garantir a germinação e o estabelecimento das lavouras.

INFO soja plantio

Para a safra que começa, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) projeta produção de 48,88 milhões de toneladas de soja em Mato Grosso.

O resultado, entretanto, dependerá de uma combinação de clima, produtividade, manejo e tecnologia.

O superintendente do Imea, Cleiton Gauer, alerta que o encerramento do vazio sanitário deve ser entendido como uma autorização fitossanitária para semear, e não como indicação de que as condições agronômicas já sejam adequadas.

“O produtor precisa tomar cuidado e observar as condições de umidade e de chuva antes de colocar a semente no solo. O fim do vazio sanitário permite o plantio, mas isso não significa que seja o momento ideal para semear”, afirma.

Segundo ele, uma decisão precipitada pode comprometer a implantação da cultura e acrescentar despesas justamente no começo do ciclo.

“É importante avaliar as condições para garantir um bom estabelecimento da lavoura e evitar custos com possíveis replantios”, acrescenta.

CHUVA REGULAR É DECISIVA - O analista de inteligência de mercado do Imea Henrique Eggers observa que o comportamento esperado para este mês é semelhante ao registrado em outras temporadas.

Embora a semeadura esteja autorizada, a tendência é de avanço mais consistente somente quando houver maior segurança em relação às precipitações, especialmente na segunda quinzena de setembro.

“Mais importante que a ocorrência das primeiras precipitações é a confirmação de volumes suficientes e regulares para garantir o estabelecimento adequado das lavouras”, explica.

Essa precaução ganha importância diante da perspectiva de maior instabilidade climática no começo da temporada.

O receio do produtor tem um precedente recente.

A safra 2023/24, também sob influência do El Niño, foi marcada pela irregularidade das chuvas e problemas na implantação das lavouras.

Naquele ciclo, Mato Grosso registrou a menor produtividade média da soja dos últimos dez anos, conforme o Imea.

O risco não se limita à germinação. Depois de estabelecida a lavoura, períodos de estiagem podem atingir etapas decisivas para a formação da produtividade.

Veranicos durante a floração, formação das vagens e enchimento dos grãos podem reduzir o potencial produtivo.

No começo do ciclo, chuvas isoladas seguidas de períodos secos elevam o risco de germinação irregular e podem obrigar o produtor a refazer parte da área.

Temperaturas elevadas também aumentam a perda de água do solo e podem provocar estresse térmico nas plantas.

No extremo oposto, chuva em excesso traz outros problemas.

Encharcamento, erosão e perda de solo e nutrientes podem prejudicar as lavouras.

Se os volumes elevados ocorrerem durante a colheita, cresce também o risco de perdas e deterioração da qualidade dos grãos.

SOJA DETERMINA JANELA DO MILHO - O comportamento do clima nas próximas semanas terá consequências que vão além da própria soja.

Mato Grosso utiliza um calendário apertado para encaixar culturas de segunda safra depois da retirada da oleaginosa.

Qualquer atraso mais significativo na semeadura tende a deslocar também a colheita.

Com isso, diminui a janela disponível para culturas como milho e algodão, aumentando a exposição dessas lavouras às condições climáticas menos favoráveis no fim do ciclo.

É justamente essa combinação que torna a decisão sobre quando começar a plantar mais complexa.

Antecipar a soja sem umidade adequada aumenta o risco de replantio; esperar demais pelas chuvas pode encurtar o calendário da segunda safra.

“Ainda é cedo para determinar o ritmo da semeadura em cada região de Mato Grosso”, pondera Eggers.

O Imea deverá acompanhar semanalmente a evolução dos trabalhos de campo, as condições meteorológicas e as diferenças entre as regiões produtoras.

FERRUGEM EXIGE ATENÇÃO - Além do clima, a nova safra começa com outro velho desafio para o produtor mato-grossense.

O fim do vazio sanitário não encerra os cuidados relacionados à ferrugem-asiática, uma das principais doenças da soja.

Causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, a doença exige monitoramento permanente das lavouras e estratégias de manejo adequadas às condições encontradas em cada propriedade.

Segundo Henrique Eggers, fatores como potencial produtivo da área, condições climáticas locais e nível de infestação precisam ser considerados na tomada de decisão.

A identificação precoce de problemas permite definir medidas de controle de maneira mais eficiente.

O cuidado ganha peso adicional em uma temporada na qual os custos de produção continuam sendo determinantes para o resultado econômico das propriedades.

Cada intervenção representa despesa e, por isso, o manejo fitossanitário precisa combinar proteção do potencial produtivo e eficiência na utilização dos insumos.

No caso da safra 2026/27, clima e sanidade estarão diretamente relacionados.

As condições meteorológicas influenciam tanto o desenvolvimento da soja quanto a dinâmica de doenças no campo.

Para o produtor, portanto, o encerramento do vazio sanitário representa apenas o começo de uma temporada em que o calendário poderá dizer quando é permitido plantar, mas será a chuva que determinará quando é seguro começar.





Comentários

Deixe seu Comentário

URL Fonte: https://reporternews.com.br/noticia/473851/visualizar/