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Economia
Quarta - 09 de Setembro de 2026 às 17:04
Por: Marianna Peres/Diário de Cuiabá

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Frigoríficos mato-grossenses ampliam vendas aos Estados Unidos e Chile
Frigoríficos mato-grossenses ampliam vendas aos Estados Unidos e Chile

Mato Grosso entra no último quadrimestre de 2026 diante de uma mudança importante no mercado internacional de carne bovina.

De um lado, a União Europeia suspendeu, desde quinta-feira (3), as importações brasileiras por causa das novas exigências relacionadas ao uso de antimicrobianos.

Do outro, a China, maior compradora da proteína produzida no Estado, está com sua cota anual de importação praticamente esgotada, o que já provocou redução dos embarques brasileiros.

A combinação aumenta a pressão para que frigoríficos mato-grossenses ampliem a diversificação dos destinos da carne.

Estados Unidos e Chile já aparecem como mercados em expansão, enquanto México, países do Oriente Médio e da Ásia representam alternativas.

O desafio, porém, não é simplesmente encontrar quem compre o volume que deixa de seguir para chineses e europeus.

É preciso encontrar quem pague por ele.

INFO carne exportação MT

Entre janeiro e julho deste ano, Mato Grosso exportou 20,37 mil toneladas equivalente carcaça (TEC) de carne bovina para a União Europeia.

O volume representou apenas 3,43% dos embarques estaduais, mas gerou US$ 130,51 milhões, equivalentes a 4,65% da receita das exportações do produto no período.

A diferença aparece no preço. A tonelada vendida ao mercado europeu alcançou, em média, US$ 6.407,87, contra US$ 4.756,10 pagos pela China.

A remuneração europeia foi, portanto, 34,7% superior.

Isso significa que redirecionar a mercadoria não resolve necessariamente a conta.

Se uma tonelada que recebia US$ 6,4 mil na Europa for absorvida por um destino que paga próximo do valor chinês, a diferença supera US$ 1,65 mil por tonelada, embora preços não sejam diretamente comparáveis sem considerar cortes, especificações e condições comerciais.

A restrição europeia também atinge justamente uma parcela de maior valor agregado da produção, com exigências específicas de rastreabilidade, sanidade e controle dos animais.

CHINA REDUZ RITMO - O problema de mercado ganhou dimensão porque a restrição europeia ocorre simultaneamente à desaceleração chinesa.

A China estabeleceu uma cota de 1,106 milhão de toneladas para a carne bovina brasileira submetida à tarifa ordinária de 12%.

As importações acima do limite ficam sujeitas a uma tarifa adicional de 55%.

O mecanismo é uma salvaguarda aplicada pela China aos fornecedores externos, e não uma sanção específica ao Brasil.

Com a cota entrando na faixa de esgotamento, os exportadores brasileiros reduziram os embarques para evitar a tarifa adicional.

Em agosto, as exportações brasileiras de carne bovina caíram 27,1% em volume na comparação com agosto do ano passado.

Em receita, o recuo foi de 19,7%, para aproximadamente US$ 1,2 bilhão.

A mudança chinesa tem impacto potencialmente maior sobre Mato Grosso que a europeia porque a China é, com larga vantagem, o principal destino da proteína estadual.

Por isso, a estratégia de diversificação passa a ganhar importância para evitar que um volume maior de produto tenha de disputar compradores num número limitado de mercados.

EUA E CHILE AVANÇAM - Mato Grosso já apresenta sinais de diversificação.

Nos primeiros sete meses de 2026, os frigoríficos estaduais exportaram 457,1 mil toneladas de carne bovina, movimentando US$ 2,8 bilhões.

O volume aumentou 29,6% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto a receita avançou 51,2%.

Os Estados Unidos aparecem entre os mercados que mais ganharam espaço.

De janeiro a julho, Mato Grosso enviou 36,8 mil toneladas aos norte-americanos, crescimento de 69,6% em relação ao mesmo período de 2025.

Somente entre junho e julho, os embarques saltaram de 3,1 mil para 5,3 mil toneladas, alta de 66,6%.

O Chile apresentou movimento semelhante.

O país comprou 30,8 mil toneladas de carne mato-grossense nos sete primeiros meses do ano, 76% acima do volume registrado no mesmo período de 2025.

Em julho foram 6,8 mil toneladas, contra 4,9 mil em junho.

Os números mostram que os dois destinos têm capacidade de ampliar compras, mas ainda é necessário avaliar até que ponto conseguem absorver uma eventual oferta adicional sem pressionar os preços.

EUROPA ERA MERCADO PREMIUM - A Espanha também vinha ganhando participação antes da suspensão europeia.

Em julho, as vendas mato-grossenses ao país saltaram 172% em relação a junho, passando de 549,7 toneladas para 1,4 mil toneladas.

No acumulado de janeiro a julho, a Espanha recebeu 5,1 mil toneladas, 10,2% mais que no mesmo período de 2025.

Esse crescimento reforça o custo de oportunidade imposto pela suspensão.

A Europa não era o destino capaz de absorver a maior quantidade da carne de Mato Grosso.

Era, entretanto, um dos mercados capazes de remunerar melhor os produtos diferenciados.

Para frigoríficos e pecuaristas que fizeram investimentos para atender às exigências europeias, a questão passa a ser se haverá outro comprador disposto a pagar prêmio semelhante.

O governo brasileiro mantém negociações com a União Europeia para recuperar o acesso.

A restrição foi implementada no dia 3 com base nas regras europeias sobre antimicrobianos.

O Ministério da Agricultura e o Ministério das Relações Exteriores afirmaram que seguem em contato com as autoridades do bloco para tentar manter os fluxos comerciais.

Uma auditoria europeia concluída na sexta-feira trouxe sinal preliminar positivo para as cadeias de frango e mel, mas não incluiu a carne bovina, que permanece sem previsão definida de retorno.

NOVOS COMPRADORES - Além dos Estados Unidos e Chile, outros mercados passam a ganhar importância estratégica.

México, Egito, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Filipinas já figuram entre compradores relevantes da carne bovina brasileira.

No mercado nacional, os Estados Unidos foram o segundo maior destino em valor nos primeiros meses de 2026, seguidos por mercados distribuídos entre América Latina, Oriente Médio e Ásia.

A Indonésia também é considerada um mercado de elevado potencial pelo tamanho da população e pela demanda crescente por proteína.

O problema é que cada destino possui exigências sanitárias, habilitações de plantas, preferências de cortes, logística e preços diferentes. Por isso, abrir um mercado não significa automaticamente substituir outro.

Para Mato Grosso, a capacidade de redirecionamento dependerá também de quais plantas frigoríficas estaduais estão habilitadas para cada país.

CONFINAMENTO AUMENTA OFERTA - A necessidade de encontrar novos compradores ganha ainda mais peso porque Mato Grosso terá mais animais disponíveis.

A estimativa para 2026 aponta 1,33 milhão de bovinos confinados no Estado, crescimento de cerca de 43% em relação ao ano anterior.

O confinamento permite elevar produtividade e programar melhor a oferta de animais terminados, mas aumenta a exposição financeira do pecuarista.

Boi magro, milho, farelo e demais custos são assumidos antes da comercialização.

Se o preço da arroba recuar porque os frigoríficos encontram maior dificuldade para vender no exterior, o efeito pode chegar diretamente à margem das propriedades.

A questão que se abre para o último quadrimestre, portanto, vai além do desempenho das exportações.

Mato Grosso precisa descobrir para onde vender mais carne justamente quando seu maior comprador reduz o ritmo e o mercado que melhor remunera o produto está temporariamente fechado.

O PREÇO DA DIVERSIFICAÇÃO - A próxima etapa será acompanhar mês a mês não apenas o volume vendido a cada país, mas o preço médio por tonelada.

Essa comparação permitirá saber se Estados Unidos, Chile, México, Oriente Médio e outros compradores estão realmente substituindo os mercados restringidos ou simplesmente absorvendo a carne por valores inferiores.

A diversificação reduz a dependência de grandes compradores e torna a cadeia menos vulnerável a decisões sanitárias, comerciais ou políticas tomadas no exterior.

Mas, para Mato Grosso, o resultado só será completo se o Estado conseguir combinar as duas coisas: mais destinos e manutenção do valor da carne exportada.





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