MT registra cinco vítimas crianças e adolescentes por dia Estado contabilizou 1.054 ocorrências de estupro e estupro de vulnerável contra pessoas de até 17 anos entre janeiro e julho; meninas representam 84% dos registros e 438 vítimas tinham no máximo 11 anos
Mato Grosso registrou, em média, cinco crianças ou adolescentes vítimas de estupro ou estupro de vulnerável por dia nos primeiros sete meses deste ano. Entre janeiro e julho de 2026, foram contabilizadas 1.054 ocorrências envolvendo vítimas de até 17 anos, segundo levantamento da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT).
Os números mostram que a violência atinge principalmente meninas. Das 1.054 ocorrências, 888, ou 84,3%, tiveram vítimas do sexo feminino, enquanto 166 envolveram meninos.
Considerando os 212 dias entre janeiro e julho, o Estado teve média de 4,97 registros por dia — praticamente um a cada cinco horas.

A dimensão do problema aparece também na idade das vítimas. Entre as meninas, 438 tinham no máximo 11 anos e outras 450 estavam na faixa de 12 a 17 anos. Entre os meninos, 125 vítimas tinham até 11 anos e 41, entre 12 e 17.
Isso significa que 563 das 1.054 vítimas, mais da metade do total, tinham até 11 anos.
ESTUPRO DE VULNERÁVEL CONCENTRA CASOS
A maior parte das ocorrências foi registrada como estupro de vulnerável. Foram 876 casos, equivalentes a 83,1% do total. Outros 178 registros foram classificados como estupro.
Entre os 178 casos de estupro, 154 vítimas eram meninas — 37 com até 11 anos e 117 entre 12 e 17. Entre os meninos, foram registrados 14 casos na faixa até 11 anos e dez entre 12 e 17.
Os números estaduais reforçam um problema já apontado por levantamentos nacionais. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública referentes a 2025 indicaram que Mato Grosso registrou 1.434 vítimas de estupro de vulnerável naquele ano, além de 626 vítimas classificadas como estupro.
COMPARAÇÃO EXIGE CAUTELA
A série apresentada pela Sesp mostra 1.769 ocorrências de estupro e estupro de vulnerável contra pessoas de até 17 anos em 2025. Em 2024 foram 2.154; em 2023, 1.948; e, em 2022, 1.702.
Os números, entretanto, não permitem concluir que houve aumento ou redução em 2026, porque o dado deste ano cobre somente janeiro a julho, enquanto os anteriores correspondem aos 12 meses. A própria consolidação da Sesp faz essa ressalva.
Se a média de aproximadamente cinco ocorrências diárias simplesmente permanecesse até dezembro — uma projeção matemática, e não uma previsão — 2026 terminaria próximo de 1,8 mil registros.
DENTRO DE CASA
O levantamento estadual disponibilizado até agora permite traçar idade e sexo das vítimas, mas não informa onde os crimes ocorreram nem qual era a relação entre vítima e agressor. Essas duas informações são fundamentais para compreender o fenômeno em Mato Grosso.
Dados nacionais ajudam a dimensionar a questão, mas não podem ser automaticamente atribuídos ao Estado. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública já mostrou, em levantamentos anteriores, forte concentração da violência sexual contra crianças dentro de residências e participação elevada de familiares e conhecidos entre os autores.
Em 2023, por exemplo, 64,7% dos estupros de vulnerável registrados nacionalmente ocorreram em residências. Entre vítimas de até 13 anos, 64% dos agressores eram familiares e outros 22,4% eram conhecidos.
O dado nacional reforça a necessidade de a Sesp abrir as informações de Mato Grosso para responder uma questão que os números atuais ainda deixam em aberto: quantas das 1.054 crianças e adolescentes foram violentadas dentro da própria casa e quantas conheciam o agressor?
CRIME PODE PERMANECER OCULTO
Outra dificuldade é determinar quanto tempo existe entre a violência e sua descoberta. O número de boletins de ocorrência representa os casos que chegaram ao conhecimento das forças de segurança e não necessariamente crimes cometidos naquele mesmo período.
Um caso investigado neste ano em Rondonópolis exemplifica o problema. Uma menina de 12 anos contou ao pai, em maio, que havia sido vítima de violência sexual por um conhecido da família. Segundo a investigação, os abusos teriam ocorrido cerca de dois anos antes.
Por isso, outro recorte importante ainda não disponível é o tempo entre a ocorrência, a revelação da vítima e o registro policial.
REDE DE PROTEÇÃO
Para o procurador de Justiça Paulo Roberto Jorge do Prado, titular da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Criança e do Adolescente do Ministério Público de Mato Grosso, diferentes fatores estão relacionados ao cenário, entre eles problemas familiares e uso de álcool e drogas pelos responsáveis.
Ele ressalta também que o fortalecimento dos mecanismos de denúncia pode elevar a quantidade de casos que chegam às instituições, retirando situações de violência da invisibilidade.
O Ministério Público desenvolve, entre as iniciativas preventivas, o projeto “Prevenção Começa na Escola”, voltado à orientação de crianças, adolescentes, educadores e familiares. Segundo o levantamento, já foram realizadas mais de 400 apresentações em municípios de Mato Grosso.
Desde 2025, o Estado também mantém uma iniciativa conjunta entre Setasc, Sesp e Polícia Civil para prevenção e enfrentamento da violência sexual infantojuvenil, com ações educativas e de capacitação da rede de proteção.
DADOS PODEM REVELAR ONDE ESTÁ O MAIOR RISCO
Para avançar no diagnóstico, a abertura da base da Sesp permitiria identificar municípios com maior número e maior taxa de ocorrências, local do crime, vínculo do suspeito com a vítima e faixa etária detalhada, além de verificar quanto tempo transcorreu entre a violência e a denúncia.
O recorte municipal é especialmente relevante porque Mato Grosso já apresentou cidades em posição crítica em levantamentos nacionais. No Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024, por exemplo, Sorriso apareceu com a maior taxa de estupro e estupro de vulnerável entre os municípios brasileiros analisados, 113,9 casos por 100 mil habitantes, com dados referentes a 2023.

Comentários