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Politica Brasil
Quarta - 28 de Dezembro de 2005 às 07:57
Por: Flávia Guerra

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Crumb, o artista santo sofredor e paciente? O canalha fascista, cruel, frio e calculista? O revolucionário ardoroso e amigo das pessoas simples? O cartunista reacionário e empresário de ocasião? Ou o excêntrico recluso e misantropo? Ou tudo isso? Afinal, quem é esse tal de Crumb? É o próprio quem questiona e responde: "Só depende do meu humor no momento".

Esta e outras autocríticas, auto-análises ou seja lá o que for, estão em Minha Vida (Conrad, 136 págs., R$ 49), coletânea de ilustrações e rascunhos do papa dos quadrinhos underground Robert Crumb, que a Conrad lançou recentemente. Que fique bem claro: não se trata de uma biografia nem autobiografia completa do cartunista mais controverso do mundo. "Na verdade, é uma compilação inspirada na edição espanhola La Historia de Mi Vida, da editora La Cupula. Nós selecionamos material de várias publicações menores e as editamos neste livro", explica Matheus Potumati, da equipe editorial da Conrad, que, ao lado de Rogério de Campos, coordenou o projeto de Minha Vida, que contém fragmentos da série The R. Crumb Coffee Table Art Book e The Complet Crumb Comics, com criações, anúncios, sketchbooks, textos, quadrinhos e desenhos de 1969 a 1997.

Completo ou não, Minha Vida traz criações memoráveis de Crumb sobre, claro, sua própria vida. E sobre a repressão religiosa, sexual, moral e intelectual dos anos 1940 e 1950, a liberação dos anos 1960, a ressaca da década de 1970, a crise da meia-idade nos anos 1980 e a batalha para se adequar "socialmente" nas décadas seguintes... Mesmo quando não declarado, suas criações são autobiográficas de certa maneira. Tímido, míope, com aversão ao convívio social, inseguro, Crumb tinha tudo para ser como seus pais: "Pessoas corretas, zelosas, trabalhadoras, obedientes e... burras." Mas graças a seu irmão Charles, que o obrigava a desenhar quadrinhos por horas a fio na infância, o garoto se tornou um dos maiores cartunistas do mundo, que com 7 anos já desenhava as próprias histórias. Antes das drogas, Crumb tinha consumido todo tipo de influência da educação católica, abandonando a fé para ser um intelectual de carteirinha, e saído de casa na adolescência com apenas US$ 14 emprestados do pai, quantia que devolveu duas semanas depois, quando arranjou um emprego na American Greetings, onde era obrigado a desenhar cartões comemorativos e a "fazer desenhos bonitinhos". A experiência deveras maçante "ensinou" o jovem cartunista a ter um traço delicado, do qual ele conseguiu se livrar anos mais tarde. "Até certo ponto."

Para fãs mais exigentes, vale saber que o completíssimo The R. Crumb Handbook, lançado pela MQP neste ano (438 págs.) no exterior, pode ser encontrado em livrarias brasileiras e tem chances, mesmo que remotas, de ser lançado em português. O livro, além de centenas de imagens extraídas dos gibis e sketchbooks de Crumb, contém trabalhos que o artista fez para museus e 50 fotografias. Há também depoimentos do próprio Crumb, extraídos da entrevista para Peter Poplaski, que assina o livro com o cartunista. Há também declarações de personalidades como o crítico Robert Hughes, Steve Martin e Carl Barks. "Ainda não sabemos se vamos fazer no Brasil. Além de todo o trabalho com a tradução, é preciso decidir o formato, pensar em como lançar também o CD que acompanha a biografia, uma verdadeira trilha sonora da vida do Crumb. O custo pode ficar igual ou maior à edição americana. Não sabemos ainda se vamos ter público", conta Potumati.

Certo é que tanto Handbook quanto Minha Vida trazem fragmentos impagáveis da história de uma geração que, como ele próprio ironiza, fritou seus cérebros com viagens de ácido, viagens ideológicas, que "surfava a crista de uma onda e que acreditava que nunca ia descer". A onda finalmente quebrou na praia e deixou na areia um monte de gente machucada, encharcada e com a boca cheia de água salgada. "Sacou a metáfora poética?", ironiza o próprio sobre a história de sua juventude e de todo um país.




Fonte: AE

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