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Meio Ambiente
Sábado - 17 de Abril de 2021 às 06:31
Por: Eduardo Gomes/Diário de Cuiabá

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Izan Petterle
O mundo perfeito do cavaleiro com sua montaria e as águas
O mundo perfeito do cavaleiro com sua montaria e as águas

José Hamilton Ribeiro, um dos grandes repórteres do Brasil, é figurinha carimbada em Poconé (100 km ao Sul de Cuiabá), onde produziu memoráveis reportagens sobre o Pantanal, pecuária, onças e o estilo de vida pantaneiro.

De tanto ir ao município, conhece bem seus meandros, mas, da primeira vez em que lá esteve, foi colhido de surpresa com uma resposta de um dos mais conhecidos poconeanos.

José Hamilton ouviu Zelito Dorileo falar sobre o gado da região e o fez com tantos detalhes, que o levou a perguntá-lo:

- Pra conhecer tanto assim, seu rebanho deve ser muito grande. Quantas cabeças?

Com a simplicidade do Homem Pantaneiro, Zelito respondeu:

- Nove.

- Mas, só nove cabeças?, questionou o entrevistador?

- Não. Nove mil!, respondeu Zelito.

A conversa entre José Hamilton e José Vicente Dorileo, apelidado Zelito e dono da lendária Fazenda Santa Izabel, nos leva ao elemento mais importante do Pantanal, o Homem Pantaneiro, humilde, trabalhador, apaixonado por sua terra e que faz de sua montaria, o Cavalo Pantaneiro, verdadeira extensão de seus passos.

Arquivo Pessoal

Pantanal - guaraná

Uma trégua para o guaraná ralado, que ninguém é de ferro

O respeito por esse animal é tão grande que o pecuarista José Ricardo Dorileo Cardoso, dono da Fazenda São José da Beira, nunca diz que o cavalo o leva, mas que “vão juntos”.

Em meio à destruição pelo fogo em 2020, a escassez de água em pleno inverno amazônico – a estação da chuva na região - e as agressões externas sofridas por aquela que é a maior planície alagável do mundo, cabe a pergunta: onde entra o elemento humano no contexto das mudanças sofridas por esse bioma?

O Homem Pantaneiro, com seu linguajar, modo simples de viver e de se vestir, com sua cultura, seus hábitos alimentares e suas crenças, morre a cada incêndio que devora a vegetação, a cada corixo que seca, pois, quando isso ocorre, seu ambiente se reduz e, sem espaço, sua vida não tem sentido, pois ele nasceu para cruzar a imensidão alagada no lombo de seu cavalo, fazendo aquilo que sabe e gosta, como seus pais, avós e bisavós fizeram – e, talvez, seus filhos não possam imitá-lo.

Não se trata de suposição nem de previsão.

O gado pantaneiro diminui.

Fazendas que antes movimentavam a região estão abandonadas, como admite o presidente do Sindicato Rural de Poconé, Raul Santos Costa Neto.

A economia pecuária pantaneira poconeana perde importância nessa vastidão, onde até recentemente, por todos os lados, durante o dia, o azul do céu se refletia nos corixos e baías que formavam uma diferenciada invernada líquida.

Nessa invernada, pastava um rebanho bovino que, se fosse chamado de anfíbio, não seria exagero, tamanha sua constância na água.

Pelo segundo ano consecutivo, Poconé não realizará a Cavalhada, em razão da pandemia.

Pelo mau humor climático, há dois anos, o município enfrenta estiagem e, consequentemente, sua biodiversidade é agredida.

Izan Petterle

Pantanal - cavalo

O Cavalo Pantaneiro, um dos símbolos da região

O comércio varejista na cidade sente os efeitos dos impactos que atingem o Pantanal e da não realização da grande manifestação cultural, que reúne público superior a 10 mil espectadores.

O turismo da Cavalhada gasta em alimentação, bebidas, hotéis, souvernirs e combustível.

Além disso, sem a luta entre Mouros e Cristãos, a cidade deixa de confeccionar e vender os trajes dos participantes.

O elemento humano, seu Cavalo Pantaneiro e o gado saem do Pantanal sem chamar muito a atenção.

A região tenta se encontrar financeiramente com seus hotéis, pousadas e pesqueiros, mas nem isso consegue nos últimos tempos pela adversidade climática e a pandemia que assola a humanidade.

Nascida do ouro, Poconé teve em sua formação seus primeiros habitantes, os índios beripoconés, indivíduos portugueses e de outros países, brasileiros de várias regiões e os hermanos vizinhos do outro lado da fronteira boliviana.

Isolados, com o passar do tempo, os moradores formaram a população poconeana, que, desde seus primórdios, se dedicava à pecuária pantaneira e lidava com o gado, montando o primeiro equino legitimamente brasileiro, o Cavalo Pantaneiro, que é resultante de cruzamentos interraciais.

O indivíduo, seu Cavalo Pantaneiro e o gado, com o Pantanal a uni-los.

Aos 239 anos, até então Poconé não registrou nenhuma ruptura dessa união.

Tão fortes são os laços, que a bicentenária Cavalhada, oriunda da Europa, é o grande espetáculo anual, em junho, quando dos festejos a São Benedito, o santo negro dos católicos mato-grossenses.

A manifestação cultural da Cavalhada reproduz no Pantanal as lutas medievais entre Mouros e Cristãos, e em sua encenação sobre as patas do Cavalo Pantaneiro, os dois grupos com seus vistosos uniformes vermelho (Mouros) e azuis (Cristãos) se enfrentam, na tentativa de tomada de um castelo onde uma princesa dos Mouros está aprisionada e vigiada numa torre.

Poconé se une pela Cavalhada e se divide entre Mouros e Cristãos.

O ano inteiro a cidade se prepara para o grande dia, quando os seus protagonistas se apresentam em elegantes trajes de época, montados em seus melhores animais.

Terminada a encenação do espetáculo cada um volta para sua fazenda, seu gado, seu Cavalo Pantaneiro e seu Pantanal.

José Medeiros

Pantanal - cavalhada 1

A Cavalhada encena em Poconé as lutas medievais

É assim com os Arruda, Nunes Rondon, Ewbank, Figueiredo, Campos, Gahyva, Nunes da Cunha, Gomes da Silva, Almeida Lobo, Paes de Figueiredo, Dorileo, Assis e Silva, Silva Campos, Costa Nunes, Falcão, Mamede, Biancardini, Marques Leite, Moraes, Prado, Proença, Lacerda Cintra, Silva, Vigilato, Calorosos, Barros, Rodrigues de Carvalho, Moura e tantas outras famílias tradicionais e centenárias no município.

A Cavalhada, além de despertar interesses turístico fora de Poconé, tem reconhecimento institucional.

É definida enquanto Patrimônio Imaterial da Cultura Pantaneira.

Na cidade, ela também promove ações sociais, como explica Antônio Diógenes de Carvalho, que foi um de seus organizadores em 2019, ano em que os participantes do evento contribuíram para uma operação oftalmológica de uma menina com um problema na visão.

Na Praça da Matriz, onde os fazendeiros residentes na cidade se reúnem para uma boa prosa, no raiar do dia e no final da tarde, nenhum dá o braço a torcer.

Ninguém fala que o rebanho bovino na área do Pantanal em Poconé encolheu de um milhão de cabeças há 40 anos para 160 mil nos dias atuais.

Menos bois significa redução de empregos, quebra de receita, perda de poder.

O poconeano resiste, finge não ver a realidade que deixa seu Pantanal exposto ao agrotóxico das lavouras nas partes altas em outros municípios e às mudanças climáticas, por conta do desmatamento e o uso desordenado do solo.

Nessa praça, durante três décadas e até 2009, o padre Joaquim Tebar Fernandes, o Padre Xim, caminhava entre os fazendeiros, os abençoava e não se esquecia de pedir ajuda para suas obras assistenciais.

O Homem Pantaneiro, humilde, trabalhador, apaixonado por sua terra e citado no começo desta reportagem, tem a dimensão do que acontece.

Sabe que seria utopia sonhar com seu reino encantado, em meio à busca desesperada pela produção em escala nas terras altas do cerrado e para vencer a competitividade do mercado internacional de commodities.

Também é de seu conhecimento que o esgoto in natura lançado aos rios Cuiabá e Paraguai contribui para a degradação de sua região.

A água será cada vez menos presente e migrará dos corixos para os poços artesianos.

Gradativamente, a piscicultura com suas espécies de tanques substituirá o pacu e o caldo de piranha, o frango de granja entrará na dieta no lugar da carne de sol.

A guaiaca, ao invés da faca, levará o celular.

Os costumes mudarão cada vez mais, mas, ainda assim, por mais sofrido que seja, o Pantanal continuará Pantanal em Poconé, enquanto um garanhão tordilho relinchar perto da sede da fazenda, enquanto se ouvir o canto da seriema e enquanto o Homem Pantaneiro reunir forças para sobreviver, já que a verdadeira vida fica pelo caminho, no conta-gotas, há algum tempo – desde a época em que o Pantanal passou a ser agredido permanentemente pela agricultura empresarial mato-grossense, em escala maior, e pela mineração, com menos intensidade.

José Medeiros

Pantanal - princesa

A princesa dos Mouros é uma bela poconeana

Nada pode ser feito para reverter a realidade do Homem Pantaneiro, que, na avaliação de renomados pesquisadores, ainda terá alguns anos para viver a pecuária do Pantanal, mas cada dia menos identificada com o longo ciclo em que ela foi pecuária pela pecuária.

Sobre a realidade do amanhã no Pantanal, relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), formado por mais de 250 cientistas do mundo inteiro, apontavam, já há 15 anos, que a previsão para regiões como o Pantanal era de grandes incêndios e semi-desertificação, após 2020.

Além desses relatórios, manifestações de pesquisadores apontam para tanto, a exemplo do líder da Realidade Climática, Ahmed Adjez; e Gustavo Figueroa, da SOS Pantanal.

Em Mato Grosso, o risco de desertificação do Pantanal não é tratado com profundidade, mas aquela área foi incluída aos 33 milhões de km² no planeta sob risco de se tornar deserto.

A relevância do tema levou a ONU à criação do Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, data celebrada em 17 de junho, desde 1994.

Mesmo sem pronunciar a palavra desertificação, a pesquisadora da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e pantaneira Carolina Joana da Silva vê como urgente a necessidade de planejar a recuperação do que foi destruído pelo fogo.

A professora Carolina desenvolve um projeto de longa duração sobre recuperação de áreas degradadas no Pantanal, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

À espera da próxima chuva.

Rezando a São Benedito para que o fogo não volte.

Na esperança da retomada da pecuária plena e sem dobrar a espinha, o Homem Pantaneiro resiste.

Até quando, ninguém sabe.





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