Repórter News - reporternews.com.br
Agronegócios
Sexta - 10 de Julho de 2026 às 09:46
Por: Marianna Peres/Diário de Cuiabá

    Imprimir


O aumento do endividamento dos produtores rurais de Mato Grosso tornou-se um dos principais desafios para o agronegócio estadual.

Levantamento divulgado pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) revela que o volume de operações consideradas problemáticas — que incluem financiamentos inadimplentes, renegociados e prorrogados — atingiu R$ 21,79 bilhões, até abril deste ano.

Isso é equivalente a 18,22% de toda a carteira de crédito rural do Estado. Trata-se do maior percentual da série histórica.

O estudo aponta que a deterioração dos indicadores financeiros ocorreu após a combinação de queda nos preços das commodities agrícolas, elevação dos juros, aumento dos custos de produção e reflexos de conflitos internacionais sobre os insumos utilizados no campo.

A pesquisa compara dois momentos distintos da agropecuária mato-grossense.

Entre 2017 e 2021, o setor viveu um ciclo de forte expansão, impulsionado por preços elevados da soja e do milho.

Já entre 2022 e 2026, o cenário econômico passou a pressionar a rentabilidade das propriedades, reduzindo as margens de lucro e aumentando o peso das dívidas.

Mesmo diante desse ambiente mais desafiador, o volume de crédito rural continuou crescendo.

Segundo o Imea, os financiamentos concedidos aos produtores passaram de R$ 15,58 bilhões na safra 2016/17 para R$ 47,43 bilhões na temporada 2023/24.

Apenas os recursos destinados ao custeio das lavouras de soja e milho saltaram de R$ 5,65 bilhões para R$ 15 bilhões no mesmo período.

Ao mesmo tempo, o custo desse financiamento aumentou.

As taxas dos programas oficiais de crédito rural foram elevadas e a Selic alcançou 14,25% ao ano, encarecendo as operações e reduzindo a capacidade de investimento dos produtores.

Para o superintendente do Imea, Cleiton Gauer, o principal problema do setor deixou de ser produtivo e passou a ser financeiro.

“O produtor continua produzindo bem, mas esse esforço já não tem se traduzido em resultado financeiro. Além da produtividade, ele precisa administrar custos elevados, preços inferiores aos observados no pós-pandemia e um volume crescente de dívidas. Tornar a operação cada vez mais eficiente passou a ser fundamental para atravessar esse momento”, afirma.

O levantamento mostra que o chamado crédito problemático cresceu rapidamente nos últimos anos.

Em 2022, esse grupo representava apenas 2,08% da carteira estadual de crédito rural. Atualmente, o índice supera 18%, evidenciando a piora da situação financeira enfrentada por parte dos produtores.

Mais da metade desse volume corresponde a operações renegociadas, indicando que muitos agricultores têm buscado alongar prazos e reorganizar suas finanças para manter a atividade.

“Quando somamos inadimplência, renegociações e prorrogações, quase um em cada cinco reais emprestados ao agro em Mato Grosso apresenta algum tipo de dificuldade. Grande parte dessas dívidas ainda acompanhará o produtor nas próximas safras, exigindo planejamento financeiro para que os compromissos sejam honrados”, observa Gauer.

A inadimplência superior a 90 dias também avançou.

Segundo o estudo, ela atingiu 4,98% da carteira estadual de crédito rural, totalizando R$ 5,25 bilhões em operações com pagamentos atrasados.

Outro indicador que preocupa é o aumento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio.

Dados do Serasa Experian utilizados pelo Imea mostram que Mato Grosso lidera o ranking nacional desde 2023.

Somente em 2025, foram registrados 332 pedidos de recuperação judicial no Estado, número superior ao de Goiás (296) e Paraná (248).

Apesar do agravamento dos indicadores, o superintendente do Imea afasta, neste momento, um cenário de insolvência generalizada no setor. Segundo ele, o desafio está em administrar o crescimento acelerado do endividamento.

“Não existe uma preocupação imediata de quebra em massa dos produtores, mas os indicadores cresceram muito rapidamente. Em poucos anos passamos de uma situação em que cerca de 2% da carteira apresentava problemas para mais de 18%. Esse é o grande desafio financeiro que o produtor terá pela frente nas próximas safras”, destaca Gauer.

Na avaliação do instituto, o avanço do endividamento é resultado da combinação de três fatores principais: a queda das cotações da soja e do milho após o período de preços recordes registrado no pós-pandemia, a manutenção dos custos de produção em patamares elevados — influenciados, entre outros fatores, pela guerra entre Rússia e Ucrânia — e a elevação das taxas de juros.

O estudo foi elaborado com base em informações do Imea, Banco Central, Ministério da Agricultura e Pecuária, Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar-MT) e Serasa Experian, reunindo indicadores de crédito rural, seguro agrícola e risco financeiro para avaliar a evolução da situação econômica do agronegócio mato-grossense.





Comentários

Deixe seu Comentário

URL Fonte: https://reporternews.com.br/noticia/473064/visualizar/