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Meio Ambiente
Terça - 18 de Novembro de 2008 às 06:04
Por: Juliana Michaela

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“Se você achar um peixe nessas beiradas do rio Cuiabá de 10 a 20 quilos, tem que pegar, tascar um beijo nele e falar: ‘Você é um herói!’, e depois soltá-lo novamente no rio”, diz, gesticulando, como se realmente estivesse pegando um peixe, Benedito Moia Filho. O que ele diz não parece exagero. Benedito e o resto dos pescadores que vendem peixes na Feira do Porto, em Cuiabá, são unânimes em atestar que os peixes sumiram daquelas águas.

A capital de Mato Grosso, fundada há 289 anos, já precisou muito do rio que deu nome à cidade para transporte e culinária, notadamente apreciada pelo sabor marcado de peixes nobres, como pacu, pintado, dourado, matrinxã e caxara. A cultura do peixe é tão importante na capital mato-grossense que até virou lenda. “Quem come cabeça de pacu não sai de Cuiabá” é uma das mais conhecidas. A antiga abundância está também nas músicas típicas, nas redes tecidas pelas artesãs de Várzea Grande e nas cerâmicas do bairro São Gonçalo Beira Rio. A diferença é que hoje são quase peças de museu.

Segundo seu Benedito, o rio Cuiabá está muito seco e a situação tem sido ruim desde que entrou em funcionamento a Usina Hidrelétrica de Manso, em 2000. “Antes, tínhamos fartura de peixe, em qualquer lugar tinha, agora precisamos descer o rio até Santo Antônio (município distante 34 quilômetros) para poder pescar”, diz. “Nós esperávamos a indenização de Furnas, mas não vai sair. O rio já não enche mais como antes, fica sempre vazio”, comenta o pescador.

Para o comerciante na Feira do Porto Manoel do Nascimento Filho (45), depois da barragem de Manso a quantidade de peixe diminuiu cerca de 70%. “Temos agora que ir pescar em Santo Antônio, Pantanal ou Barra do Bugres, no rio Paraguai, para encontrar peixe”, relata. Já o pescador e comerciante Marcos Antônio da Silva percorre a rodovia transpantaneira (MT-060) para encontrar seu ganha-pão. “Os peixes que eu pego vêm do Pantanal, na região de Porto Jofre. Lá eu encontro todas as espécies, mas a quantidade é menor e o tamanho também. É difícil encontrar peixes entre 70 e 80 quilos, até 100 quilos mais raro ainda”, comenta.

A partir da explicação do secretário-executivo do não-governamental Centro de Pesquisa do Pantanal, Paulo Teixeira, é provável que a percepção dos pescadores esteja mesmo correta. Ele diz que, como a usina serve ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o controle de vazão de água é dinâmico. “As comportas vão abrir ou fechar conforme a necessidade do ONS. Temos dados científicos constatando que a construção de Manso alterou a produção de peixes no Pantanal”, relata. No entanto, Teixeira não descarta o impacto da sobrepesca no trecho do rio. “Como existe mais gente pescando do que há dez anos, hoje a pessoa tem que se esforçar mais”, completa.

A seca no rio Cuiabá também é outro sintoma de que a saúde do rio vai mal e é sentida por Antônio Batista (44), pescador desde os sete anos de idade. Segundo ele, falta fiscalização, principalmente durante a piracema (reprodução dos peixes). “Quando chega essa época, saímos do rio e ele se escancara para o pescador irregular. Os representantes do povo não estão nem aí com essa situação. Se não fosse o peixe de tanque já tinha tudo acabado”, comenta, indignado. “Tem muito pescador passando redes e usando armadilhas. Numa redada vem de 10 a 15 peixes, já no anzol a pessoa pode ficar o dia inteiro e ainda não pescar nada. Se não fiscalizarem, daqui a pouco vamos viver de quê?”, questiona o pescador e comerciante Marcos Silva.





Fonte: Revista "O Eco"

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