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Meio Ambiente
Segunda - 22 de Janeiro de 2007 às 09:44

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A italiana Elisabetta Visalberghi, 54, se lembra bem da primeira vez em que viu um macaco-prego usando ferramentas para quebrar frutos secos. Foi há 27 anos, no zoológico de Roma. "Eu sabia que eles eram especiais quando os vi pela primeira vez", conta.

Visalberghi passou as duas décadas seguintes tentando convencer seus pares de que o uso de ferramentas pelos macaquinhos sul-americanos era intencional, não mera coincidência nem um desvio de personalidade resultante das condições de cativeiro.

A hipótese soava absurda, pois esse tipo de comportamento parecia ser exclusividade de seres humanos e seus parentes mais próximos, como os chimpanzés. Nos 30 milhões de anos de evolução que separam as linhagens do macaco prego (Cebus libidinosus) e dos grandes macacos africanos (incluindo nossa espécie), nenhum outro macaco jamais foi visto usando ferramentas.

A vingança veio a cavalo. Em um estudo que será publicado na próxima edição do periódico científico "American Journal of Physical Anthropology", a pesquisadora italiana e colegas do Brasil e dos EUA demonstram que não só o uso de ferramentas é comum entre macacos-pregos selvagens como esses animais têm "tradições culturais" distintas.

E mais: os bichos são capazes de transportar as pedras que usam como "martelo" por vários metros até as rochas e troncos usados como "bigorna". O desgaste pelo uso acaba produzindo traços típicos nas pedras, criando locais na mata próprios para a atividade de quebrar coquinhos.

As observações foram feitas em um bando de macacos que habita uma fazenda em Gilbués, zona de transição entre cerrado e caatinga, no Piauí, apenas três anos depois de o uso de ferramentas entre macacos selvagens ter sido observado pela primeira vez.

"Isso contrasta com o que foi relatado para vários grupos de macacos-pregos selvagens na América do Sul", diz a italiana. Durante anos, observações de macacos na mata atlântica e na Amazônia simplesmente falharam em detectar um padrão de uso de ferramentas. E não foi por falta de coquinhos, abundantes na floresta.

"Até alguns anos atrás as pessoas ainda se perguntavam se o macaco-prego realmente fazia isso. É porque não foram perguntar a ninguém no interior do Brasil", brinca o etólogo (especialista em comportamento animal) Eduardo Ottoni, da USP, co-autor do estudo.

Ottoni e seus alunos já observaram macacos usando ferramentas em outros lugares do Piauí. Em Goiás, encontraram o que eles chamam de "sítios de quebra", os locais onde os bichos se juntam para se banquetear com coquinhos, jatobás e outros frutos de casca dura.

Kit complexo

Em um outro estudo, cujos resultados ainda não têm previsão de publicação, Massimo Mannu, aluno de Ottoni, observou que um bando de macacos-pregos da Serra da Capivara, também no Piauí, têm um "kit de ferramentas" diversificado.

Além de martelos e bigornas, os animais foram vistos usando varetas --para desentocar lagartos-- e pedras para escavar tubérculos. Uso combinado de ferramentas é raro até mesmo em chimpanzés, considerados os "gênios" do reino animal.

Ottoni está começando a preparar um estudo dos sítios para estabelecer a primeira "etnografia" dos miquinhos. Uma coisa parece certa: há algo no ambiente das savanas que estimula os animais a modificá-lo intencionalmente, usando instrumentos para ter acesso a alimentos indisponíveis a outros bichos. Mas, se escassez de comida não é a resposta, o que é?

O pesquisador paulista e sua colega italiana apostam na terrestrialidade. Na caatinga e no cerrado, os macacos passam mais tempo no chão do que na floresta. "No chão há coquinhos e pedras", resume Ottoni.

Repeteco evolutivo

A hipótese é interessante porque há um outro animal que (acredita-se) evoluiu na savana e também passou a usar ferramentas: o Homo sapiens. "Esta história lembra a dos australopitecinos [ancestrais humanos]", diz Ottoni. "Quando eles começam a usar ferramentas, liberam as mãos, andam eretos e aumentam o consumo de carne, vital para o desenvolvimento do cérebro."

É claro, ninguém entenda com isso que os macacos-pregos estão na rota evolutiva para originar uma espécie inteligente. Mas, segundo Ottoni, talvez eles possam servir de modelo vivo. "Há tantas analogias nessa história que o paleoantropólogo, em vez de olhar para um fenômeno único, que aconteceu há 6 milhões de anos, pode olhar para outras coisas."





Fonte: Folha de S. Paulo

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