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Politica Brasil
Sábado - 19 de Fevereiro de 2005 às 20:19
Por: Eduardo Ramos

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Uma freira, que já estava jurada de morte, é assassinada a tiros numa cidadezinha do Pará. Quatro mil famílias de sem-teto entram em confronto com a Polícia Militar e dois morrem baleados na capital de Goiás. Um prefeito interino cria leis draconianas em Primavera do Leste, no interior de Mato Grosso, para punir integrantes de movimentos de ocupação de áreas urbanas e seus parentes de até terceiro grau. Um observador perspicaz não demorará a ver nesses fatos novos lances da milenar luta pela propriedade. E é isso. Mas há muito mais coisas por traz destes acontecimentos.

Fatos como os narrados acima se repetem dezenas de vezes todos os dias no Brasil, em especial no interior do Brasil – onde raramente chegam as luzes da grande imprensa. Eles revelam uma estrutura de poder que nasceu junto com a república e que tem sido usada ao longo dos séculos para perpetuar a vergonhosa opressão social, política, jurídica e econômica imposta por nossas elites ao conjunto da população brasileira. É o que, lá fora, se define como a ‘República das Bananas’.

Não, não pensem que a solução é simples. Não adianta apenas prender os assassinos da freira, punir os policiais que agem como cães dos especuladores imobiliários ou internar num hospício o ‘prefeitinho temporário’ que se arroga no direito de legislar atropelando a Constituição e direitos universais.Tudo isso é necessário e, se estivéssemos num País sério, essas medidas certamente já estariam sendo tomadas. Mas resolver o problema, ou seja, atacar a causa de modo a impedir que fatos como aqueles não se repitam, demandará um pouco mais de sacrifício dos nossos governantes e, principalmente, da nossa população.

Aos governantes, e aqui me refiro a ‘banda boa’ dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário (supondo, é claro, que exista ‘banda boa’), seria fundamental promover um expurgo em seus próprios quadros. Não é segredo para ninguém que neste país o dinheiro sujo (e os lobbies idem) define quem são e/ou determina as ações de muitos chefes de executivo, parlamentares, e até (pasmem) de juízes e promotores. Enquanto essa caterva não for identificada e devidamente execrada, não há solução possível. Ao menos não pacificamente.

Após o expurgo seria necessária ainda uma ampla modernização do aparato jurídico-político existente, de modo a impedir que por ação (como nos casos de Goiânia e de Primavera do Leste) ou por omissão (como ocorreu no Pará), o Estado Brasileiro (compreendido pelos três poderes, nas três esferas da gestão pública – municipal, estadual e federal) continue funcionando como cartório de interesses menores e opostos aos anseios da população.

Seria importante deixar claro, por exemplo, que o direito à vida deve se sobrepor, em qualquer situação, ao direito à propriedade. E criar condições para punir com rigor no campo jurídico qualquer pessoa que desrespeitar isso – mesmo que essa pessoa seja um magistrado conhecido, um político influente ou um proprietário milionário.

Impedir o abuso econômico em períodos eleitorais, incentivar a participação da comunidade nas ações políticas, multiplicar o controle social sobre os poderes constituídos, garantir que o dinheiro público seja aplicado de acordo com o interesse público, são, entre muitas outras, ações também fundamentais à construção de um País melhor.

Por seu lado, a população brasileira precisa evoluir muito para superar o caos atual. O Eleitor que vende voto, que não acompanha e nem cobra resultados positivos do político que elegeu, também é culpado. O mesmo vale para o cidadão que não se indigna, que não reage e ainda critica os que têm a coragem de protestar. Essa pasmaceira, esta passividade estúpida e inexplicável (que infelizmente também faz parte da nossa história) é, em grande medida, o suporte que sustenta a opressão.



Os grilhões que nos prendem surgem da nossa própria inanição. No nosso conformismo, morre o Brasil que desejamos. Mudemos então. Mas é bom iniciar logo. Do contrário você pode ser a próxima vítima e, aos seus descendentes, restará apenas uma grande República das Bananas, e a condição nada honrosa de ser visto pelo resto mundo como um matador de freiras, de pais de famílias sem-teto, de trabalhdores rurais... Quer arriscar?

Eduardo Ramos é jornalista em Rondonópolis




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