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Comportamento
Segunda - 20 de Janeiro de 2014 às 11:23
Por: Cecília Neves

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Eles pertenciam a famílias inimigas. Mas uma noite, trocaram olhares, palavras, beijos e refletiram sobre rosas. Amaram-se profundamente, apesar de ter sido apenas uma noite e eles serem crianças. Mas se amaram. Como não puderam ficar juntos e infortúnios fizeram com que a comunicação falhasse, mataram-se. 

Primeiro, Romeu tirou a vida ao concluir que Julieta estava morta. Julieta acordou de sua morte fingida e, ao ver Romeu morto, também cometeu suicídio. Esta é uma das histórias “de amor” mais reverenciadas da sociedade ocidental. Duas crianças se matam por amor e aplaudimos, choramos e ficamos reflexivos, pensando se algum dia vamos ter amor grandioso assim. Uma pessoa de verdade menciona que pensa em cometer suicídio, arregalamos os olhos, gaguejamos e saímos de perto o mais rápido possível.

Sexo, masturbação, taras... tantos assuntos abordados aqui e talvez esse seja o mais delicado. Mas por que? Todos os dias alguém tira a própria vida. E todos os dias alguém suspira porque tentou e não conseguiu. Conheci uma dessas pessoas no Rio de Janeiro. Sentado em um pufe fundo, ele me contava sobre uma praia, que ia levar a filha de quase um ano de idade para ver o mar pela primeira vez. E não sei como, o assunto do suicídio surgiu.

Ele havia se mudado para outra cidade, onde não conhecia ninguém além de sua amada. Mas acontece que sua amada já estava nos braços de outra pessoa. Ele, sem saber o que fazer e, mais que isso, sem vontade de fazer nada, cortou os pulsos. Sangrou até perder a consciência. Mas mesmo machucado, o coração não parou.

- Você fica feliz por não ter morrido aquele dia? – Eu perguntei, pensando que talvez ele tenha visto que a vida é muito mais que isso, que há um mar para ser visto pela primeira vez.

Mas a reposta foi “não”. Não. Ele segue a vida, mas não teria se importado de ter parado no meio do caminho. E no caso dele, foi por amor. Ou pelo ideal de amor que nutria. Não é o mesmo caso de Romeu e Julieta? Então porque no caso de uma obra fictícia, escrevemos, rescrevemos, filmamos, interpretamos, adaptamos, mas quando é vida real, a gente se cala?

Não era uma criança se matando por amor platônico. Era um adulto que não suportou mais o sentimento de perda. Porque perder coisas, nós perdemos todos os dias. Pele, cabelo, dias de vida. Mas algumas coisas são o apogeu da nossa agonia, desespero e medo. Mas não devemos falar sobre isso. “Falar sobre suicídio incentiva pessoas a cometerem o ato´”, justificam alguns. E não falar faz o que?

Suicídio virou um tabu. Em um mundo onde todos os dias surge uma ferramenta para as pessoas se expressarem, por que as que mais precisam devem ficar quietas ou dando pistas e indiretas, mesmo que em redes sociais? Por que os sentimentos não são nobres? Por que tirar a própria vida vai contra os princípios dos deuses de quase todas as religiões? Por que a simples idéia de se matar é pecaminosa?

Praticamente toda semana eu ouço alguém falar que pensa em se matar. E essas são as pessoas que tem coragem de falar. E todos os outros? “Quem quer, não fica falando, se mata logo”, você pode resmungar ao ler isso, mas não é verdade. Uma pessoa não vai tirar seu único bem sem motivos, que podem ser os mais variados possíveis. Uma pessoa que se mata não quer se matar, mas ela chegou ao limite, à última gota de um copo saturado. Quem se mata, não quer se matar, mas não vê outra saída, outra forma de se livrar destes sentimentos de angústia, depressão, medo, pânico, tristeza e frustração.

Quando eu tinha 16 anos, comecei a ter um início de depressão. Neste mesmo ano, viajei pela primeira vez para fora do país. O mundo é grande, cheio de pessoas, de coisas novas e infinitas possibilidades. E isso não se restringe só para quando você tem 20 e poucos anos e “a vida toda pela frente”. Todo mundo que ainda respira tem a vida toda pela frente.

E ir para frente é uma escolha pessoal e diária. Alguém que pensa em se matar já não acha que o caminho valha a pena. Com perspectiva, você vê que basta mudar de caminho que as coisas mudam também. Talvez para melhor, talvez para pior. Mas existem milhares de caminhos.

Alguém que já não consegue ter mais perspectiva vê apenas aquela estrada escura, acha que tem que percorrer aquela reta para o resto da vida. O único caminho de Romeu era Julieta. O único caminho de Julieta era Romeu. Mas será que era mesmo? No desespero, claro que sim. Mas e com tempo, calma e perspectiva? 

E pior de tudo: Não é apenas um caminho qualquer. É uma estrada envolta por uma bolha escura. Sabe o que é essa bolha? O silêncio, a noção errônea de que ao menos pensar nisso é errado, de que querer tirar a própria vida é um pecado imperdoável que não pode ser nem mencionado.

Na era da comunicação imediata, talvez seja hora de realmente começarmos a nos comunicar, não só mandar indiretas no Facebook. Talvez se realmente estivermos ouvindo e falando, não só balbuciando palavras e fingindo que estamos escutando, as coisas sejam diferentes. Talvez a bolha se rompa e entre um pouco de luz. E talvez a pessoa veja que há muito mais do que ela tinha pensado antes. E mude de caminho.

Serviço

Precisa conversar? Ligue para o Centro de Valorização da Vida (CVV). O atendimento é 24h pelo telefone 141 (Cuiabá e Várzea Grande) e (65) 3321-4111 (interior de Mato Grosso).

*Cecília Neves é escritora, curiosa sobre o sexo, relacionamentos e idiossincrasias humanas. Ela escreve no Olhar Conceito aos domingos e quer que você compartilhe experiências pelo e-mail cecilia.neves25@gmail.com.






Fonte: Olhar Conceito

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