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Ciência/Pesquisa
Quarta - 06 de Janeiro de 2016 às 12:56

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Todos nós conhecemos uma dessas pessoas que parecem ser capazes de beber o quanto quiserem sem sofrer a principal de suas consequências: a ressaca. Enquanto a maioria das pessoas passa o dia seguinte sofrendo debaixo dos lençóis, outras despertam sem que nada pareça ter acontecido. É como se tivessem "enchido a cara" com vitaminas em vez de uísque.


Essas pessoas à prova de ressaca não são tão raras assim. Estudos mais recentes argumentam que quase 25% das pessoas parece ser imune aos efeitos de uma noite de excessos etílicos, mesmo quando bebem demais. Mas qual será o segredo deste sucesso? Bons genes, a escolha da bebida ou alguma cura milagrosa?

Química

Há até cinco anos, os cientistas de certa forma ignoravam essas questões. "A ressaca era vista com algo que encorajava as pessoas a não beber demais. Então, a opinião comum era deixar as coisas em paz", explica Richard Stephens, da Universidade Keele, na Inglaterra. O resultado, porém, era uma imensa quantidade de folclore e poucas evidências científicas.

Agora, Stephens quer atacar mitos com seu Grupo de Estudos sobre a Ressaca.

Mesmo as causas da ressaca têm, de certa forma, cercadas de mistério. Até recentemente, a culpada principal era a desidratação – como diurético, o álcool nos faria perder mais fluidos –, mas a evidência até hoje sugere que o papel da desidratação é pequeno na ressaca.

Em vez disso, o problema parece residir na química dos drinques. O processo de fermentação do álcool resulta em resíduos tóxicos chamados congêneres. São eles que dão a algumas bebidas uma cor mais escura, o que explicaria a razão de o uísque causar uma ressaca pior que a vodca – e também explicaria por que misturar drinques é uma péssima ideia, já que quanto mais variado é um coquetel, maior é a quantidade de congêneres ingeridos.

Algumas horas depois de ingerido, o álcool se transforma em acetaldeído e depois em acetato. São esses metabólitos (compostos orgânicos produzidos ao metabolizarmos certas substâncias) que causam náusea, suores, e pulso acelerao.

O álcool e seus derivados também causam problemas ao sistema imunológico e provocam inflamações. "Quando temos uma ressaca forte, sentimos um inchaço, e isso tem a ver com a inflamação", diz Stephen.

A inflamação também ocorre no cérebro e contribui para a dor de cabeça. Combinada com a baixa glicose e o cansaço, ela resulta no mau humor que costuma acompanhar uma ressaca.

Pelo menos é o que acontece com a maioria das pessoas. Um dos maiores mistérios que desafiam os cientistas é o porquê de quarto das pessoas dizer que nunca sofre deste mal.

Talvez elas se beneficiem da genética: estudos em gêmeos mostram que a tendência é transmitida por gerações, e que uma constelação de genes pode estar envolvida. Cientistas já identificaram algumas das variantes que ajudam a expulsar o álcool e seus metabólitos do sangue e a reduzir a inflamação que resulta da intoxicação.

'Problema de gente jovem'

Sofrer de ressaca pode também ser uma questão de personalidade: um estudo descobriu que pessoas neuróticas têm mais tendência a sofrer de ressacas do que pessoas relaxadas. Isso não significa dizer que a agonia é exagerada, apesar de estar comprovado que emoções modulam a experiência da dor.

Se para algumas pessoas os fatores genéticos têm influência, Stephen alega que evitar a ressaca ainda é um caso de beber de maneira inteligente. "Pode ser que elass adotem um ritmo mais brando", diz.

O pesquisador menciona um estudo recente que entrevistou pessoas sobre a quantidade de álcool ingerida no mês anterior e severidade das ressacas. Os pesquisadores concluíram que, em casos de volumes de consumo similares, pelo menos 80% das pessoas "resistentes a ressacas", bebeu de maneira moderada e a concentração de álcool em seu sangue jamais passou de 0,1g/l%.

Stephens também trabalhou para derrubar outros mitos sobre ressacas, incluindo a ideia de que elas pioram com a idade. "Há uma percepção de que as ressacas pioram à medida que envelhecemos, mas não há evidência disso. Ressacas são um problema de gente jovem".

Uma de suas pesquisas revelou que uma pessoa de 20 anos de idade é sete vezes mais propensa a ter uma ressaca do que uma pessoa de 60 após um período de consumo intenso de álcool.

Stephens acredita que isso tem a ver com moderação. "As pessoas mais velhas sabem o que lhes dá uma ressaca e, por isso, aprenderam a beber bem."

Moderação

Em termos de cura, a resposta do pesquisador é previsível. Há poucas evidências de que misturas mágicas funcionam. Temperos picantes servem como distração e placebos. E como a desidratação somente tem um papel secundário, beber água tampouco ajudará a diminuir a dor.

"A melhor maneira de evitar uma ressaca é beber de forma moderada", diz Stephens. Mas se já for tarde demais, um analgésico e uma omelete podem ajudar a diminuir a inflamação e restaurar os níveis de glicose no sangue. No entanto, pesquisas médicas estão estudando drogas que podem contrabalançar os efeitos do álcool, e já houve algum sucesso.

Algumas origens são surpreendentes – há uma década, um estudo descobriu que um tipo de cacto combate os efeitos tóxicos do uísque e em outros líquidos escuros. Mas até hoje, a pesquisa não teve desdobramentos.

Stephens lembra, no entanto, que a ressaca é um lembrete útil dos danos potenciais que estamos causando a nossos organismos com o consumo de álcool.

Seu principal conselho é o mesmo que nossos pais nos dariam: divirta-se, mas beba devagar e aprenda a respeitar os limites. Seja você mais resistente às ressacas ou não, a longo prazo você ficará grato pela moderação.





Fonte: Robson/Da BBC Future

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