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Comportamento
Domingo - 09 de Dezembro de 2018 às 21:48
Por: Vinicius Lemos/RD News

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Magáli Potter sofre os impactos do alcoolismo feminismo, mas não desiste e tenta outra internação em clínica
Magáli Potter sofre os impactos do alcoolismo feminismo, mas não desiste e tenta outra internação em clínica

"Sou Magáli. Meu apelido é Maga. Alcoólatra em recuperação. Assim começo meu depoimento, na sala feia e pobre. Tão cheia de amor. Parido de morte". Os versos poéticos escritos pela culinarista Magáli Potter, 52 anos, foram publicados em seu perfil no Facebook. Assim ela expõe publicamente a batalha que trava há décadas contra o alcoolismo.

Há um mês, começou a falar abertamente sobre o tema em sua rede social. Depois de passar por internações e ver parentes se afastarem, conta que percebeu que expor a doença poderia ser mais uma forma de enfrentá-la.


Sou Magáli. Meu apelido é Maga. Alcoólatra em recuperação

“É preciso falar sobre esse assunto. Hoje consigo expor meus problemas. Há dois anos, era algo muito pesado que carregava somente comigo. O alcoolismo é uma doença e deve ser tratado dessa forma. Mas o preconceito sobre o assunto ainda é muito grande”, diz.

Conforme a Organização Pan-Americana da Saúde, em todo o mundo estima-se que 237 milhões de homens e 46 milhões de mulheres sofram com transtornos relacionados ao consumo de álcool.

alcoolismo feminino

De acordo com o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, o Lenad, houve aumento no número de mulheres que consomem bebidas alcoólicas no Brasil

a mulher alcoólatra sofre muito mais preconceito e é discriminada. Ela também corre o risco de ser estuprada, violentada, agredida ou sequer lembrar como chegou em casa. É uma situação muito complexa

Psiquiatra Zanizorn Rodrigues

De acordo com o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), houve aumento no número de mulheres que consomem bebidas alcoólicas no Brasil, conforme comparativo entre 2006 e 2012 – pesquisa mais recente sobre o tema.

O psiquiatra Zanizor Rodrigues da Silva explica que os casos de alcoolismo entre as mulheres costumam ser considerados mais complicados que os dos homens. “As mulheres possuem o metabolismo mais lento, então o álcool costuma ter um efeito mais nocivo. Mas, no final, o alcoolismo entre os dois sexos acaba se tornando semelhante porque envolve dependência e se torna um refúgio para a pessoa, que em muitas vezes sofre de ansiedade”, comenta.

“Além disso, a mulher alcoólatra sofre muito mais preconceito e é discriminada. Ela também corre o risco de ser estuprada, violentada, agredida ou sequer lembrar como chegou em casa. É uma situação muito complexa”, acrescenta.

Lembranças da juventude

Magáli nasceu em Barra do Garças (a 522 km de Cuiabá), onde passou a infância. Ao longo da vida, morou também em Cuiabá, Chapada dos Guimarães – cidade na qual morava até o fim de 2017 –, São Paulo (SP) e Piracicaba, onde vive atualmente.

Na infância, as lembranças mais tristes são relacionadas ao pai. Ele, segundo ela, também alcoólatra. “Lembro que era uma situação muito complicada. Eu não podia levar amigos em casa e tinha medo de viajar com a família, porque sempre havia o risco dele beber muito e nos fazer passar vergonha”.

Arquivo Pessoal

Magali Potter

Vida de alcoólatra é eterna busca por equilíbrio e para as mulheres a siutação é mais complicada

“O meu pai bebia muito. Eram bebedeiras homéricas. Ele se machucava e nos agredia verbalmente. Era muito complicado”, comenta.

Em razão do genitor, ela comenta que tinha preconceito com a bebida. “Na época não havia muita informação sobre o tema e a ajuda profissional era quase inexistente”.

As recordações da infância não impediram que Magáli começasse a consumir bebidas alcoólicas no início da adolescência. “Eu tinha 15 anos quando comecei a beber. Mas, no início, era controlada, principalmente porque me lembrava da situação do meu pai”, pontua.

Estudos indicam a possibilidade do alcoolismo estar relacionado a fatores genéticos. “Pesquisas apontam esta predisposição. Mas não é algo determinante. É uma questão que ainda precisa ser melhor estudada”, declara Zanizor.

Arquivo Pessoal

Magali Potter

No trabalho, culinarista faz receitas inusitadas com alimentos naturais enquanto luta para se manter longe do álcool

Os anos se passaram e Magáli foi aumentando o consumo de bebidas alcoólicas. “Estava vivendo um período complicado e o álcool era um chamariz”, narra. Ela costumava beber sempre que saía com os amigos. “A gente fazia roda de viola e estava tudo certo o álcool ali. Era uma presença constante em todas as situações”.

Por volta dos 22 anos, percebeu que era alcoólatra. “Mas eu não sabia que aquilo era uma doença. Havia todo o preconceito relacionado ao meu pai. Achava que fosse falta de caráter”, comenta. Segundo ela, o consumo do álcool foi aumentando com o passar do tempo. “O alcoolismo é uma doença progressiva e a pessoa demora a entender isso. Até que ela note, já foi consumida devagarzinho”.

Magáli revela que não costumava usar outros tipos de drogas. “Apenas me afundava no álcool. Outros amigos consumiam outros tipos de droga. Na época, eu não imaginava que o álcool fosse uma droga e, muito menos, que estava me afundando nele”, afirma.

Pouco após perceber que havia se tornado alcoólatra, Magáli engravidou. Na época, decidiu parar de beber. “Durante a minha vida, passei vários períodos longe da bebida. Mas era uma espécie de bêbado seco, que é uma pessoa que larga a bebida, mas entra em abstinência”, explica.

Estava na casa dos meus pais e eles trancaram todas as portas, para que eu não saísse para beber. Consegui sair da residência e pulei o muro, mas era muito alto, acabei caindo e me cortando

Cinco anos depois do nascimento do filho, voltou a beber. “O alcoólatra não sabe lidar com dificuldades do dia a dia e acaba retornando à bebida. Eu não segurei a onda quando vivi situações complicadas, acabei recaindo e voltei a beber muito em poucos dias”.

As internações

Aos 37 anos, Magáli viveu uma das situações que considera a mais constrangedora relacionada à bebida. “Estava na casa dos meus pais e eles trancaram todas as portas, para que eu não saísse para beber. Consegui sair da residência e pulei o muro, mas era muito alto, acabei caindo e me cortando”.

Ela foi levada ao hospital, após passar minutos agonizando à espera do socorro. Na unidade de saúde, conta que se decepcionou com o atendimento médico recebido. “Fui levada para um leito de UTI e a médica não me deu atenção. Ela me deu uma bronca e disse que eu estava tirando o leito de alguém que poderia estar precisando”.

“Essa situação me magoou. Ali, vi como o preconceito é forte. Ela é uma profissional de saúde e deveria saber lidar com a situação. Não poderia me tratar como se eu não estivesse precisando. Eu estava toda machucada. Não queria ser tratada daquela forma”, lamenta.

A situação, segundo a culinarista, foi uma das poucas vezes em que deu sinais de embriaguez em público. “Sempre foi uma coisa muito íntima. Eu nunca fui de ficar embriagada na rua. Ficava mais sozinha e minhas agressões, físicas e emocionais, eram a mim mesmo”.

Um ano depois de ter se machucado no muro dos pais, ela assumiu para si que sofria de uma doença. “Uma das fases mais difíceis é entender que o alcoolismo é uma doença. Descobri depois de sofrer muito com a bebida”, relata.

Segundo ela, o modo como a sociedade enxerga o alcoolismo faz com que a pessoa tenha dificuldades para assumir a doença. “O conceito de bêbado e alcoólatra estava tão fortalecido dentro de mim que foi difícil aceitar um novo conceito. Até porque existe muita culpa e remorso em cima disso. Na teoria, você sabe que é uma doença, mas é diferente se aceitar realmente como um doente”, diz.

Logo depois de se assumir como doente, se internou pela primeira vez. “Eu pedi para me tratar, porque vi que seria importante”, declara. Ela passou 28 dias na clínica e depois pediu para deixar o lugar, por considerar que estava pronta para retomar a vida.

Pouco após deixar a primeira clínica, Magáli voltou a beber intensamente. Na época, ela morava em São Paulo. A pedido dos pais, foi internada novamente. “Desta vez, fui para uma clínica horrível, onde quase morri. Sofri todos os tipos de abusos possíveis”, comenta Magáli, que passou três meses no lugar. “Eu fugi daquele lugar".

Há cinco anos, foi internada mais uma vez. “Novamente, retornei a beber logo que saí da clínica”.

O AA é muito importante. Agora percebo que não estou sozinha. Existem outras mulheres na mesma situação

Novo capítulo na jornada contra alcoolismo

Há pouco mais de uma década, Magáli começou a frequentar grupos do Alcoólicos Anônimos (AA). Segundo ela, foi a melhor maneira que encontrou para lidar com a doença. “Esse grupo me ajudou muito. Ele é muito importante. Agora percebo que não estou sozinha. Existem outras mulheres na mesma situação”, diz.

Para ela, procurar um grupo do AA é um dos primeiros e mais importantes passos que devem ser seguidos por quem enfrenta o alcoolismo. “É ali que vamos ter mais informações, mais ajuda e mais apoio, porque sozinha a gente não consegue. No grupo, recebemos apoio e não há julgamento”, explica.

No início do ano, a culinarista se mudou para São Paulo (SP) em busca de ajuda na luta contra a doença. “Em Chapada dos Guimarães ou Barra do Garças, eu recebia apoio. Mas por não estar aberta a entender a gravidade do problema, precisei ir para uma cidade grande, onde tive respaldo maior, além de fazer terapia e ter acesso a grupos que me auxiliam”, conta.

Em meio à jornada contra o alcoolismo, algo que lamenta profundamente é a ausência dos parentes.

“As pessoas não falam sobre alcoolismo. Elas varrem para baixo do tapete. Assim, as famílias não têm acesso às informações e não sabem o que fazer com aquele ser doente diante deles”, acrescenta. O resultado mais comum é o abandono.

Com todo o inferno que vivi da adolescência até meus 50 anos, hoje percebo que é possível controlar essa doença para conviver com ela e ser feliz

Na última semana, Magáli se mudou da Capital de São Paulo para Piracicaba (SP). Na cidade, voltou a se internar em uma clínica, por meio do plano de saúde, para tratar o alcoolismo. "Não sei quanto tempo vou ficar por lá. Pesquisei e descobri que é um lugar muito legal e com bons profissionais”.

O psiquiatra Zanizor Rodrigues da Silva ressalta que a cura do alcoolismo é considerada difícil e, por isso, recaídas são comuns. “É uma situação que depende exclusivamente da pessoa, então por isso é considerada uma superação muito grande e complicada. O primeiro passo é o afastamento do álcool e, em alguns casos, a internação é realmente necessária”, pontua.

Em busca de melhor condição de vida, Magáli não perde a esperança de conseguir controlar o alcoolismo. “Sei que não há cura, mas existem tratamentos. Com todo o inferno que vivi da adolescência até meus 50 anos, hoje percebo que é possível controlar essa doença para conviver com ela e ser feliz”, declara.

“Mais importante agora, é um grito: precisamos falar sobre isso. Chega de esconder. Para quebrar preconceitos, é preciso falar sobre. Então, acho que minha maior contribuição, além da minha historia, é pedir para as pessoas falarem sobre o alcoolismo”, apela.





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