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Opinião
Quarta - 30 de Setembro de 2015 às 16:55
Por: Gabriel Novis Neves

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A televisão brasileira poderia ser uma grande fonte de disseminação cultural. Mas, infelizmente, está, e sempre esteve, a serviço do grande capital, o que é totalmente aceito pelas leis do mercado.


Lembrei-me do relato de um amigo. Disse-me ele que, em 1981, durante uma viagem à China, voltou encantado com a programação televisiva, totalmente dedicada à cultura e a ensinamentos no campo da prevenção de doenças.


Eram horas a fio de música clássica e regional, aulas focando várias matérias, inclusive, o ensino de vários idiomas.


Ficou impressionado com o número de pessoas cantando em português músicas de Chico Buarque, na época em grande prestígio pelo mundo.

''Sem educação, seremos sempre aquele gigante adormecido há cinco séculos''

O resultado está aí, depois de trinta e quatro anos, um país recém-saído da mais absoluta miséria, despontando como a segunda maior economia do mundo.


Enquanto isso, nós aqui na terrinha, continuamos em níveis insuportáveis de pobreza, de falta de saneamento básico, de saúde, de educação, de violência e de injustiça social.


As grandes nações não se fazem sozinhas, é necessário que suas lideranças exerçam o seu verdadeiro papel, tal como em uma orquestra, que não funciona harmoniosamente sem a regência de um grande maestro.


Infelizmente, no Brasil, os incentivos culturais são ínfimos, o que faz com que a população se torne cada vez mais vítima de propagandas enganosas e, portanto, cada vez mais alienada.


População menos culta e menos educada é sempre mais fácil de ser manipulada. É tudo o que interessa ao poder constituído, que nada faz para mudar esse estado de coisas.


Os nossos programas de auditório são deprimentes! Exemplo: são recheados de vídeo cassetadas, que nada mais conseguem senão exaltar a baixa autoestima de uma população que, de tão achincalhada, submete a si e a sua família a situações humilhantes, apenas por uma meia dúzia de trocados.


As emissoras não estão preocupadas com as mensagens subliminares que são passadas desde a infância através dessas práticas pseudodivertidas, tampouco pelo mal que elas podem causar a quem a elas se vendem por absoluta ignorância e ingenuidade.


Jamais uma criança, na pureza de suas atitudes, poderia se divertir com tombos fabricados e quedas algumas vezes perigosas e que visam apenas a diversão de uma população imbecilizada.


Há que se assinalar também na mídia televisiva, a falta do tênue limite que separa o erotismo da pornografia. Ele reside, fundamentalmente, no bom gosto.


O que se tem visto em alguns programas de auditório é exatamente o contrário disso. Letras de músicas de cunho e expressões corporais nitidamente pornográficas são disseminadas para uma plateia formada pelas mais diversas faixas etárias e de maneira agressiva.


As crianças, em casa, participam desse festival de mau gosto, exibindo também as suas habilidades, cujo conteúdo intui sem entender. Com certeza isso é um desserviço à cultura.


Importante frisar que não se trata de um insight liberal ou conservador, mas sim, da responsabilidade das diversas mídias em propagar a ética e o bom gosto.


Um pouco de requinte não faz mal a ninguém e até embeleza a vida, hipertrofiando, inclusive, o erotismo em detrimento da vulgaridade.


Que crianças querem formar ao insuflá-las ao baixo nível e à pobreza cultural? Com certeza se transformarão em adultos pouco éticos e despidos de sensibilidade. Sem educação, seremos sempre aquele gigante adormecido há cinco séculos.

GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).



Autor

Gabriel Novis Neves

foi o primeiro reitor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT); é médico gineco (ginecologista e obstetra)

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