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Opinião
Sábado - 06 de Agosto de 2022 às 07:10
Por: Gonçalo Antunes de Barros Neto

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Questões presentes na reflexão filosófica e sociológica são as intenções objetivas dos indivíduos, apesar de não terem delas domínio consciente. São práticas aprovadas por um “habitus” que dá legitimidade, aceitação social, a elas, mas que fogem de qualquer controle reflexivo por parte de seus produtores.

Na obra “A Sociologia de Pierre Bourdieu”, organizada por Renato Ortiz, o pensador francês descreve com perfeição tal fenômeno - “Cada agente, saiba ele ou não, queira ele ou não, é produtor e reprodutor de sentido objetivo: porque suas ações e obras são o produto de um modus operandi do qual ele não é o produtor e do qual não tem o domínio consciente, elas encerram uma ‘intenção objetiva’, como diz a escolástica, que sempre ultrapassa suas intenções conscientes” (2003, p. 65) - .

É ação prática e desconhecida do próprio sujeito reprodutor ou produtor dos sentidos objetivos. Cria e reproduz como autômato sem nada perseguir quanto ao sentido; na verdade nem sabe o que faz e porque faz, mas o que faz tem mais sentido do que o porquê.

Essa questão do sentido objetivo tem profunda ligação com outra, não menos importante, que é a moral universal e sua respectiva sanção.


Tornou-se famoso esse pensamento de Aristóteles: “O povo... é mais segundo a natureza do que o indivíduo; pois quando o indivíduo está separado não é independente, por isso ele deverá existir no todo como as partes numa unidade” (citado por Axel Honneth – Luta pelo Reconhecimento, 2011, p. 26), o que levou Hegel a considerar que qualquer filosofia da sociedade deve levar em consideração os vínculos morais dos indivíduos e não os tomar individualmente.

Assim, toda vez que não haja sentido num discurso ou frase de alguém, atitude etc., haverá em consequência uma rejeição sintomática, e isso é uma forma de sanção. Variará de intensidade e densidade na medida da capacidade cognitiva de cada qual sem dúvida, mas será sancionada com certeza.

A par disso, torna-se muito interessante quando grupos consideráveis de indivíduos têm como normal frases ou condutas que, em tempo ou ocasião outra, seriam tidas como ponto fora da curva da normalidade de convivência social.

Por interesses diretos no personagem, ou mesmo no que ele ou ela representa, ou ainda nos fatos, esses grupos sociais passam a endossar tais absurdos e trazê-los para a aceitação comunitária, introduzindo ou tentando introduzir no universo moral.

O mundo tem dado prova dessas permissividades e a internet as fazem conhecedoras em todos os cantos e recantos. Uma delas foi a invasão do maior símbolo democrático do mundo ocidental, o Capitólio dos Estados Unidos, o que deixou 1 policial morto e 138 feridos, além de prisões, por descontentes com o resultado eleitoral, restando a todos estarrecidos com a inusitada cena.

O caso americano chamou a atenção para a necessidade de se reforçar, cada vez mais, a intocabilidade democrática. A democracia não tem tutores, ela transcende às instituições e poderes. É princípio e fim de si mesma, e seu contorno não está somente nesta ou naquela Constituição. É condição, não é direito. A partir dela, portanto, não há retrocesso, mas somente avanço.

Por estas bandas, sempre é bom reafirmar, que o “livrinho” do Dr. Ulisses Guimarães, que encarna a democracia, não tem figura geométrica e nem cor; é conquista da dignidade de sermos brasileiros, do nascer ao pôr do sol, também das estrelas que brilham pelo caridoso e honrado hemisfério sul, iluminando a todos e todas.

É por aí...

Gonçalo Antunes de Barros Neto é magistrado e tem formação em Filosofia.



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