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Opinião
Terça - 03 de Agosto de 2010 às 08:13
Por: Alexandre Garcia

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O competente secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, ao se referir ao sargento e ao cabo da PM que cobraram propina para liberar o carro amassado pelo corpo do filho da atriz Cissa Guimarães, qualificou-os de "frutos podres" da PM. Eles serão expulsos, enquanto cumprem prisão administrativa. Como algumas centenas de PMs que já foram expulsos por falta grave, como frutos podres. Fico pensando como qualificar o pai do atropelador, que entrou nas negociações do suborno de R$ 10 mil e levou o carro marcado pelo corpo do morto, não a uma delegacia, mas a uma oficina, pela madrugada, para conserto urgente, alegando que precisava do carro.

Depois, assustado com a repercussão da morte, porque se tratava do filho de uma artista da Globo, e certamente temendo que na oficina ligassem o carro ao atropelamento, foi buscá-lo para, só então, entregá-lo à polícia, já com o para-brisa retirado, alterando uma prova de velocidade. Antes, já havia pago R$ 1.000 aos policiais. Que lição está dando esse pai ao filho que atropelou. Que dinheiro encobre? Que a lei está abaixo de interesses familiares? Que se a polícia é corrupta, o melhor é aproveitar essa fraqueza da lei? Que vidas só valem se as mortes repercutem na opinião pública? Se fosse um menino da favela o atropelado, provavelmente o carro estaria reparado e a morte não seria esclarecida e pai, filho, sargento e cabo estariam impunes. São deficientes cívicos. É falta de formação cívica, que deveria começar em casa.

Muitos telespectadores mandaram mensagens para a Globo, perguntando por que não há, nas escolas, aula de educação moral e cívica, já que pais não estão dando essa formação aos filhos. Respondo que já havia essa disciplina, mas foi retirada sob a alegação de que era coisa da ditadura militar. Erro crasso. Moral e cívica nas escolas é coisa de democracia. A base da democracia, a sustentação dela é a cidadania, que só se forma com valores éticos e com uma cultura de respeito à lei. E não basta ser cidadão passivo, que respeita a ética e as leis. É necessária a cidadania ativa, militante, que também exige o cumprimento da lei e o seguimento de valores éticos.

O caso do Rio de Janeiro nos faz pensar, porque lá impera o comportamento típico da cultura tropical e permissiva: exalta-se o malandro, o esperto e se qualifica de trouxa o cumpridor das leis e o que segue valores éticos. Quando vejo mães carregando crianças pela mão para atravessar uma faixa de pedestre com o sinal fechado para pedestre, vejo como estamos distantes da civilidade e do exemplo doméstico. O mesmo ocorre com o pai que passa sinal vermelho tendo o filho ao lado, a receber o mau exemplo da infração à lei. Isso é quase impossível de acontecer em países civilizados - e não falo de Alemanha ou Estados Unidos, falo em Chile, Uruguai, África do Sul, Austrália, todos companheiros do hemisfério sul.

O mau exemplo que se espalha em casa também se espalha em país. E a vida vai ficando mais difícil, porque no fundo são desrespeitos aos direitos de todos. A bagunça das cidades inferniza a vida de todos. Cidades organizadas, em países civilizados, são limpas, seguras, silenciosas, bonitas, fáceis de se viver nelas. Por fim, uma lembrancinha: as frutas podres nunca caem longe da árvore que as produziu.

Alexandre Garcia é jornalista em Brasília. E-mail: alexgar@terra.com.br



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