Publicidade
Repórter News - reporternews.com.br
Opinião
Quarta - 21 de Julho de 2010 às 03:20
Por: Gabriel Novis Neves

    Imprimir


O todo poderoso Presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em recente entrevista - após a eliminação do Brasil - deixou milhões de telespectadores surpresos ao declarar que a FIFA impôs ao Brasil a realização de uma subsede na Amazônia e outra no Pantanal. Acrescentou que do Brasil, o mundo só vê de positivo a Amazônia, com seus mistérios, e o nosso Pantanal, com suas belezas exóticas – além é claro da nossa ex-Cidade Maravilhosa.

Imediatamente os oportunistas de plantão se apresentaram como os pais da idéia. Por aqui deu até briga, não contando que tudo aconteceu graças ao prestígio internacional do cara. Assisti pela televisão o desfile dos candidatos à paternidade de tão importante evento! Com o fiasco da seleção de jogadores brasileiros em clubes europeus, a idade avançada dos atletas, e a realidade do vultoso investimento, o quadro da paternidade agora é outro. Os “acusados” estão exigindo teste de DNA, e negando a outrora paternidade.

O Presidente da CBF declarou também na mesma entrevista, que as “arenas” construídas com o dinheiro do povo, através de empréstimos bancários, serão apenas para a realização de dois ou três jogos da Copa. Isto todo mundo já sabia. Mas, e depois da Copa? No caso da Amazônia e Pantanal, os clubes de lá não levam público às “arenas” pelo simples fato de não possuírem futebol. Os seus clubes só disputam a terceira e quarta divisão do campeonato brasileiro.

Um dos jornalistas que o entrevistava, diante do monstruoso investimento que esses estados seriam obrigados a fazer, faz a célebre pergunta: “E aí? Como fica a arena e o sacrifício do seu povo em uma obra tão desnecessária?” Com muita diplomacia foi dito então que o governo aceitou todas as imposições da FIFA, e nas entrelinhas deu a entender o seguinte: o governo estava apenas visando carona política no sucesso do hexa, que se transformou em insucesso. O Presidente da CBF foi bem objetivo. Tão do agrado da nossa gente!

As novas arenas serão transformadas em “elefantes brancos”. Que papelão! Quanta irresponsabilidade dos nossos dirigentes! Não sei se Manaus tem experiência com elefantes brancos. A cidade das águas, do peixe boi e do peixe elétrico e tantas belezas naturais, talvez nem saiba da existência deste animal. Mas, fique aliviado Senhor Presidente da CBF! Aqui nós temos muita experiência com estes animais! Inclusive o novo elefante branco, apelidado de arena multiuso, terá companhia de outro, construído ao seu lado. E são tantos os existentes por aqui!

Lembro-me de uma festa que assisti há pouco tempo, quando um elefante branco foi colocado em um hospital do SUS. O nascimento do elefantinho foi lindo! O papel do projeto era entregar a todos os pacientes hospitalizados, no dia da sua alta, uma fatura discriminando os seus gastos durante a sua permanência no hospital. Só funcionou no dia da inauguração. Em seu lugar, um elefantinho branco. O Programa Fila Zero, para internação de pacientes do SUS, parece mais “o cordão dos puxa-sacos que cada vez aumenta mais.” É mais um elefante. E o caso dos transplantes de órgãos? A fila não anda, logo não consegue diminuir a demanda. “Causos e causos” de elefantes brancos eu poderia aqui relembrar. Entretanto, acho que não vale à pena nos impingir mais sofrimentos.

Uma coisa eu posso garantir ao Presidente da CBF - experiência com elefantes brancos nós temos, e muita! O que não temos mais é paciência para aturar mais um sacrifício do povo para a criação de mais um elefante branco!


*GABRIEL NOVIS NEVES
é médico e ex-reitor da UFMT



Autor

Gabriel Novis Neves

foi o primeiro reitor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT); é médico gineco (ginecologista e obstetra)

Comentários

Deixe seu Comentário

URL Fonte: http://reporternews.com.br/artigo/1063/visualizar/