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Opinião
Quarta - 03 de Fevereiro de 2010 às 11:18
Por: Rogério Arioli Silva

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Um assunto recorrente que suscita inúmeras indagações refere-se ao aumento da produção agrícola brasileira, mesmo em condições de rentabilidade nula e, às vezes, até negativa. Será o produtor rural brasileiro tão alienado economicamente, ou até mesmo incapaz de refletir sobre seus custos de produção? Acreditamos que não, pelo menos na maioria das vezes.

Ocorre que a produção em si representa, para o produtor, um fim em si mesmo, e não um meio onde o objetivo final seja a lucratividade. Parece algo um tanto romântico, porém trata-se de verdade incontestável, com todos os seus desdobramentos possíveis. Desdobramentos positivos, no caso da cômoda situação dos governos, que vêem as safras abundarem cada vez mais, a despeito da sua inércia no que diz respeito à elaboração de uma política agrícola eficaz. E, desdobramentos negativos, no que se refere à sobrevivência do produtor, numa atividade onde a transferência de renda para outros setores da economia torna-se dramática a cada safra que se aproxima.

Exemplos não faltam e, ficando no mais recente: grande parte da safra de milho ainda a ser comercializada, com atuais preços extremamente aviltados e o provável aumento da área plantada com esta cultura no próximo ciclo.

Falta racionalidade ao produtor rural no momento da tomada de decisão do plantio, poderíamos imaginar. Porém, como planejar o resultado desta “fábrica a céu aberto” chamada agricultura, onde inúmeros fatores de produção não podem ser controlados? Também o aspecto técnico não pode ser menosprezado, onde culturas devem se suceder, visando aumentos de produtividade e controle de pragas e doenças.

Nos países desenvolvidos o Governo garante a renda do produtor, impondo até mesmo a redução da área plantada desta ou daquela cultura, o que não ocorre em nosso país. Este fato acaba jogando todo o “ônus da abundância” no colo do produtor, com todos os efeitos nefastos que estamos acostumados a ver ano após ano.

Do ponto de vista do produtor não é recomendável continuar esperando eternamente uma política agrícola proativa, mas, talvez, através das suas entidades representativas pensar em regular a oferta de produtos através do compromisso de produzir apenas o que o mercado demanda. O governo, por sua vez, precisa parar de tratar a abundante produção brasileira como um “problema”, até por respeito àqueles bilhões de pessoas que sofrem de restrição alimentar ao redor do mundo.

Rogério Arioli Silva é agricultor em Mato Grosso



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