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Opinião
Quarta - 27 de Janeiro de 2010 às 11:10
Por: Waldir Serafim

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A revista Exame (edição 960 de 27/01/2010), que está circulando nas bancas, informa na matéria intitulada “Grandes Números” (página 17) que o PIB do Brasil alcançará em 2010 a marca de 2 trilhões de dólares. Informa ainda que o país levou 4 anos para dobrar o valor do PIB de 1 para 2 trilhões de dólares. Essa matéria vem demonstrar que aquele ditado que diz: “os números não mentem” precisa de pelo menos uma ressalva: não mentem, mas enganam. Explico.

Para que o PIB dobrasse em 4 anos seria necessário que crescesse a uma taxa de 20% ao ano, o que convenhamos, nunca antes na história deste país, nem de nenhum outro, isso jamais aconteceu. É uma meta impossível de ser alcançada. O país que mais tem crescido nos últimos anos é a China, que tem alcançado a média de 9% ao ano. O PIB no Brasil tem sido bem mais modesto: tem crescido à taxa média de 2,2% nos últimos 10 anos, em termos reais.

Onde está o furo da notícia? O furo está em não considerar a variação da cotação do dólar, bem como a inflação brasileira. Em janeiro de 2005 o dólar era cotado a R$ 2,693 e em janeiro de 2010 cotado a R$ 1,648, o que representa uma desvalorização de 63,5% no período considerado. Além do mais a inflação no Brasil no período de janeiro de 2005 a janeiro de 2010 foi de 25,8%. Ora, somente com a soma das duas variações de preço das duas moedas,  dólar e real, ainda que o país não crescesse nada, já teríamos um “crescimento” do PIB de 89,3%, preços correntes, no período de janeiro de 2005 a janeiro a 2010, pelo critério utilizado pelo autor da matéria.

O autor indica ainda que o PIB, em bilhões de dólares, montava em 2005, US$ 882 e em 2010 será de US$ 2.040. Se multiplicarmos o montante em dólar pela cotação da época (R$ 2,693 em janeiro de 2005 e R$ 1,648 em janeiro de 2010), alcançaremos os seguintes valores para o PIB, em bilhões de reais, R$ 2.375 em janeiro de 2005 e R$ 3.362 em janeiro de 2010, o que representa uma variação de 41,54% no período, em valores nominais. Se retirarmos desse valor a inflação no período que foi de 25,8%, teremos um crescimento real de apenas 15,74%. Esse sim é o número que tem de ser considerado em qualquer análise; o resto é enganação.

E, digo mais, muito embora os boquirrotos do Planalto digam que o Brasil vai crescer 5 ou 6% ao ano, tenho a ousadia de afirmar que não vai. Pode até crescer a essas taxas por um ou dois anos, mas é como o voo da galinha: curto, não se sustenta. Enquanto vigorar a mentalidade imediatista de nossos governantes, o Brasil está fadado a crescer a taxas insignificantes e, o que é pior, perdendo o bonde da história.

Vejamos: se crescer 6% a.a. nosso PIB dobra em 12 anos. Alguns mais, outros menos, todos os produtos e serviços produzidos ou consumidos no país também dobram. Dobram: o número de veículos vendidos, tanto de carga como de passeio; o número de viagens e cargas que passam em nossos portos e aeroportos; o consumo de energia elétrica, tanto pela indústria como pelos lares; a quantidade de cargas transitando pelas nossas estradas; a quantidade de produtos importados e exportados pelo país, etc.. Ora, dá para imaginar o dobro de veículos transitando por nossas estradas e rodovias, já congestionadas; o dobro de passageiros ou cargas em nossos portos e aeroportos (lembram-se do apagão aéreo); o dobro de consumo de energia? Eu creio que o leitor vai concordar comigo que a resposta é: não. Estamos no limite.

Convido o leitor para uma reflexão: se quisermos construir uma casa de 100m², precisamos construir um alicerce de 100m²; se quisermos aumentar a casa para 150m² precisaremos construir mais alicerces, de pelo menos mais 50m². Lógico, não? Pois bem, o alicerce de um país é sua infraestrutura: estradas, portos, aeroportos, ferrovias, etc. Não crescendo esse alicerce como esperar o crescimento da economia? Não existe milagre.

A pergunta que tem que ser feita é: por que, enquanto a China, a Rússia e Índia (países que juntamente com o Brasil formam o bloco chamado BRIC), têm tido crescimento médio de 9%, 6,0% e 6% ao ano, respectivamente, e o Brasil apenas 2,2% ao ano, nos últimos 10 anos?
Ora, no Brasil investe-se em infraestrutura menos de 2% do PIB ao ano. Logo, estamos fadados a continuar a crescer a 2% a.a. É o nosso limite. Enquanto isso a China, a Índia e a Rússia investem, respectivamente, 8%, 6% e 6% em infraestrutura e crescem em igual proporção, distanciando cada vez mais do Brasil, o parceiro do BRIC.

Isso é matemática pura, o resto é conversa.

Waldir Serafim é economista e professor universitário



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