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Opinião
Quinta - 10 de Janeiro de 2019 às 09:59
Por: Camila Tardin

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De todas as palavras que fazem parte do meu vocabulário, de tudo o que já li, leio, escutei e escuto, o propósito nunca esteve tão presente. A internet e as redes sociais, principalmente, têm trazido com frequência esse substantivo em textos, vídeos, fotos e áudios. Mas lá dentro é difícil explicar e sentir na essência o tal propósito quando a imagem que se tem é de que deve ser sempre algo grandioso, definitivo, obrigatório e urgente.

Com a internet temos acesso a inúmeras informações e oportunidades. Acho incrível morar no meio mapa do Brasil, onde é possível ver um jacaré atravessar sobre uma faixa de pedestre, e, ao mesmo tempo, poder me conectar e aprender com gente do mundo todo. Pela internet compartilhamos palavras fortes como gratidão, talento, legado, empoderamento, criatividade, inovação, ideias disruptivas...

O problema é que, de tempos em tempos e numa velocidade sem igual, algumas dessas palavras parecem perder a força e, especialmente, a essência por que se tornam modismos de linguagem, muitas vezes são mal interpretadas e até banalizadas.

Quando o tal propósito começou a entrar nas timelines da minha vidinha online (aqui cabe um parêntese: o Google também é fera em expandir e limitar nossos mapas visuais e mentais, se assim permitirmos), cheguei a pensar que poderia ser o universo conspirando a favor e contra mim ao mesmo tempo. A favor, por que comecei a pesquisar o conceito do propósito, pois adoro uma pesquisa que me desfie internamente. Mas contra, porque nessa busca fiquei angustiada por não encontrar as respostas para mim na mesma velocidade e facilidade com que tenho acesso às informações.

Compreendi que nesta pauta, quanto mais me informava, mais ficava desinformada, perdida e ansiosa. Para acalmar o coração fui buscar lá na infância as brincadeiras e os momentos que me davam mais prazer. Lembrei das pessoas com as quais tive oportunidade de crescer, aprender e viver. Nessa caminhada consegui visualizar tudo o que fiz e deixei de fazer para chegar onde estou atualmente. A sensação hoje é de que tudo fez e ainda continua fazendo sentido, tanto os acertos quanto os erros. E onde está o tal propósito nisso? Por que falar disso?

Recentemente, conheci e reencontrei pessoas que estão com a mesma dificuldade: saber esse tal propósito. O mal-estar da dúvida não é exclusivo de quem mora em Mato Grosso, geograficamente longe dos grandes centros, cheio de oportunidades, mas ainda carregado de preconceitos e atrasos.

Essa sensação também está presente em gente que vive pelo mundo, trabalhou em várias áreas e lugares, fala três ou mais idiomas, tem acesso a informações privilegiadas, vivencia experiências que para nós parecem intangíveis, mas, ainda assim, estão sempre em busca, na dúvida e atrás do tal propósito. Querem deixar legados, ser movidas a paixões intermináveis, saber como deixar suas marcas no mundo e tentam compreender por que estão aqui.

Para ser muito sincera, e sem a intenção de ofender ninguém, fiquei até aliviada em perceber que não estou sozinha nessa. Não importa onde estamos, com quem e o que fazemos, essa busca pelo propósito, do que faz sentido e de como pertencer não tem fronteira, idioma, cultura, raça, gênero, idade ou tempo. O problema é focar demais no lá, bem no lá, e esquecer de aproveitar e vivenciar a caminhada até esse lá, principalmente sem prestar atenção aos detalhes e em quem está do nosso lado.

Hoje escolhi encarar a palavra propósito com mais leveza, sem aquela carga de responsabilidade para definir com urgência uma finalidade de vida, um futuro rigorosamente decidido. Certamente, a melhor definição que aprendi nos últimos dias sobre esse substantivo foi que o propósito é tudo aquilo que aquece o coração. Não precisa ser necessariamente focado no trabalho. Pode ser começar com um propósito comprometido com o dia a dia. Desde o que eu me proponho ao acordar até a hora de dormir. Não precisa ser algo tão grandioso, surreal ou alcançar multidões. Pode ser algo feito com capricho e prazer hoje, agora, para mim, minha família e meus amigos. Esse é o meu tal propósito hoje. E o seu?

Camila Tardin é jornalista.



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